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15/05/2024 às 5:50 - há XX semanas | Autor: Claudia Lessa

Amêndoa de ouro: Cacauicultura festeja aumento de preço da safra

Diversos fatores elevaram o valor da fruta para US$ 10 mil por tonelada, pela primeira vez na história

Imagem ilustrativa da imagem Amêndoa de ouro: Cacauicultura festeja aumento de preço da safra
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Segundo maior produtor de cacau do País, a Bahia vive um momento favorável no setor com o aumento de preço que, pela primeira vez na história, chegou a US$ 10 mil por tonelada. Em Ilhéus, a arroba bateu, nesses dias, R$ 1.100 – antes da disparada da commodity, estava em R$ 200. Contribuíram para este cenário as fortes chuvas alternadas com tempo seco, as más condições das estradas e a doença da vagem preta nas plantações dos dois maiores produtores mundiais – Costa do Marfim e Gana –, responsáveis por cerca de 70% do cacau mundial. O mercado global deve gerar déficit de 374 mil toneladas, acumulados entre outubro de 2023 e setembro de 2024, segundo a Organização Internacional do Cacau.

No Sul da Bahia, são cerca de 69 mil estabelecimentos produtores de cacau, dos quais quase 74% são da agricultura familiar. A área plantada é de cerca de 439 mil hectares, sendo que 60% são cultivados através do Cabruca – sistema de plantio em meio às árvores da mata atlântica que contribui para a sustentabilidade. Os dados fornecidos pela Secretaria de Agricultura, Pecuária, Irrigação, Pesca e Aquicultura do Estado (Seagri) resumem o cenário positivo da cacauicultura que, em 2021, já tinha gerado cerca de R$ 1,8 bilhão, ou seja, 5% do Valor Bruto da Produção Agropecuária (VBP) das lavouras do estado, ocupando a quinta posição entre todas as plantações em terras baianas.

O assessor técnico da Seagri, Thiago Guedes, destaca que o produtor de Ilhéus recebeu o prêmio de melhor cacau do mundo em Amsterdã pela excelente qualidade, fato já ocorrido em anos anteriores, como em 2021, quando as amêndoas receberam o prêmio de primeiro e segundo lugar no Concurso Internacional de Cacau - Cocoa Of Excellence (COEX 2021) e primeiro e segundo lugar no Concurso Nacional do Cacau.

O fruto do Sul baiano, completa Guedes, conta com o reconhecimento da Indicação Geográfica – IP Cacau Sul da Bahia, que abrange uma área de 61.460 km2, sete territórios (Litoral Sul, Baixo Sul, Extremo Sul, Vale do Jiquiriça, Costa do Descobrimento, Médio Rio de Contas e Médio Sudoeste da Bahia), contemplando 83 cidades.

“Dentre os avanços e as melhorias decorrentes da IP Cacau Sul da Bahia, temos a possibilidade da rastreabilidade, via QR Code, de todo o processo de produção de cacau, utilizando a tecnologia Blockchain. Outros avanços tecnológicos estão contribuindo para a qualidade das amêndoas, resultando na criação de um polo de chocolates finos no Sul da Bahia, que conquistam mercados no Brasil e no exterior”, pontua Guedes, destacando que em Ilhéus está o maior Parque de Moagem de Cacau do Brasil, que recebe cerca de 95% da produção do País e tem capacidade para 250 mil toneladas.

A cultura tradicional do cacau, com quase três séculos de implantação no Sul da Bahia, avança e supera desafios, além de gerar sustentabilidade. Entretanto, considera Guedes, é necessário realizar aprimoramentos para ampliar a produtividade. “Uma das melhores estratégias é a conservação produtiva e para isso é fundamental pensar no setor com três temas: crédito, assistência técnica e enfrentamento à monilíase”, pontua.

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Produtor de cacau e ex-presidente da Câmara Setorial do Cacau da Bahia, Fausto Pinheiro destaca que a cacauicultura, como importante setor da economia, sempre busca novas iniciativas privadas e políticas públicas. “No caso do Sul da Bahia, que evolui para uma atividade agrícola moderna e de alta produtividade, vemos um modelo que irá caminhar com excelente produtividade, com menor custo, e que vem se constituindo no conceito de valor agregado através da produção de qualidade, assim como do aproveitamento das amêndoas para a transformação em chocolate”, avalia, afirmando que os modelos trarão à Bahia um novo protagonismo.

Fausto defende crédito para o setor e extensão rural (assistência técnica) mais atuante e dinâmica. “Além de investimentos de forma contínua em pesquisa para enfrentamento das novas ameaças vindouras, e do desenvolvimento de modelos associativos, tanto na produção primária como nos produtos de valor agregado, para que quem produz possa ter maior e melhor inserção de suas marcas no mercado. Só assim será possível conseguir chegar nas gôndolas do varejo com maior rentabilidade”, analisa, citando como case de sucesso a Cooperativa do Produtores Orgânicos do Sul da Bahia, que hoje exporta produtos de qualidade.

Chocolate: referência em produção de alta qualidade

Entidades como a Associação dos Produtores de Chocolate de Origem do Sul da Bahia (Chocosul) vêm incentivando o produtor a agregar valor ao cacau, fazendo dele um produto de origem, com qualidade certificada. Atualmente, a Bahia possui mais de 250 marcas de chocolate de origem. O Sul, por ter características próprias na fabricação do produto, leva vantagem competitiva no mercado de cacau fino, segundo o presidente da Chocosul, Gerson Marques.

“Somos uma referência de produção de alta qualidade, tanto para o mercado nacional, como o internacional. O futuro nosso é sermos a região da ‘champagne do chocolate’, produzindo um cacau de qualidade muito superior. Fomos premiados agora, pela terceira vez, como melhor cacau do mundo”, observa, citando o produtor Antonio Lima, que recebeu, em Copenhague, capital da Dinamarca, o principal prêmio de qualidade de cacau no mundo.

Para Marques, o cenário demonstra que a região já produz um cacau de alta qualidade, atendendo o alto níivel de exigência do mercado. “E o caminho é agregar valor pela qualidade, pela origem e, principalmente, pelo fato do nosso cacau estar ligado diretamente à preservação da mata atlântica, envolvendo também cultura, valor histórico e sustentabilidade. Tudo isso nos dá um diferencial, inclusive com um terroir muito próprio, que gera muita competitividade e nos coloca no mercado de forma muito positiva”, analisa.

A fabricação de chocolates finos na região foi iniciada no início dos anos 2000 como estratégia dos empreendedores locais para se reerguerem após a infestação da vassoura-de-bruxa, que atingiu as plantações em 1989. A devastação reduziu as safras brasileiras de mais de 400 mil toneladas de cacau para cerca de 100 mil no intervalo de 20 anos, conforme dados divulgados, em 2021, pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Para o presidente da Chocosul, Gerson Marques, que produz cacau e chocolate da Fazenda Yrerê, em Ilhéus, a mudança mais significativa nos últimos anos é a percepção do público quanto ao valor nutricional do fruto e a produção de chocolates com alto teor de cacau.

Oeste baiano aponta para nova era da cultura do cacau

Uma nova e promissora era para o cacau brasileiro vem surgindo no Oeste. O investimento na cacauicultura na região chega a mil hectares plantados. Os resultados são considerados positivos: enquanto a média de produção nacional é de 330 kg por hectare, no cerrado alcança 3.500 kg por hectare - ou seja, dez vezes mais. Estes números foram apresentados durante a III Cacauicultura 4.0, feira agrícola realizada no município de Riachão das Neves, em abril, com a proposta de aprofundar o debate sobre inovação, sustentabilidade e desenvolvimento da cadeia produtiva do cacau no cerrado baiano.

Produtores do Oeste e do Sul da Bahia e de estados como Ceará, Mato Grosso, São Paulo e Pará discutiram também o atual preço da commodity. “Nunca esteve tão alto, talvez sendo o mais alto dos últimos 50 anos. No mercado de Nova Iorque, chegou a ultrapassar US$ 10 mil a tonelada, enquanto a média histórica fica entre US$ 2.500 e US$ 3 mil por tonelada”, disse o produtor e organizador da feira, Moisés Schmidt.

A importância da diversificação das culturas é defendida pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). “O cacau que se instala no Oeste da Bahia é uma realidade promissora. Amparado pelo que temos de melhor, o potencial ambiental que a Bahia oferece, o cacau traz a diversidade de culturas para a região, promovendo o desenvolvimento econômico e fortalecendo a agricultura do Oeste e da Bahia como um todo”, ressaltou o presidente da entidade, Luiz Carlos Bergamaschi.

O assessor da Seagri, Thiago Guedes, considera positivo o cenário na região. “Observo com boa expectativa a ampliação das áreas de cacau em locais não tradicionais na Bahia, em uma nova perspectiva de manejo da lavoura, possibilitada pela caracterização do bioma cerrado, com solos planos”. Como todo processo inovador, completa, “é necessária a ampliação de estudos, pesquisa e ciência para verificar como a cultura se desenvolve ao longo dos anos nesse território”.

Para o produtor de Ilhéus, Fausto Pinheiro, a expansão inovadora para o Oeste baiano com a formação de grandes áreas de cultivo irrigado traz grandes expectativas. “A caminhada ainda é grande e arriscada, por se tratar de uma planta ombrófila e ajustada ao clima tropical úmido, considerando questões ambientais no uso da água. São desafios novos. Quero que o Oeste dê certo”.

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