LEVANTAMENTO
Celular: ferramenta de estudo ou risco para crianças e adolescentes?
Pesquisa AtlasIntel/A TARDE mostra que 67,6% dos pais listam estudo e escola como as principais atividade dos filhos no celular

Cerca de 44% das pessoas não acreditam que o uso de celular pode trazer algum benefício para crianças e adolescentes, enquanto 42,3% acredita que o celular pode sim ter algum benefício para a população mais jovem, como mostram os números divulgados pela pesquisa AtlasIntel/A TARDE, realizada entre os dias 26 e 30 de abril e que ouviu 1042 pessoas.
Ainda de acordo com a pesquisa, 92% dos pais que veem benefícios no uso do celular por parte dos filhos citam que a tecnologia serve, principalmente, como um apoio aos estudos. Além disso, 67,6% dos pais listam o estudo/escola como a principal atividade dos filhos no celular, seguida de perto por redes sociais e vídeos (64,2%).
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Ao mesmo tempo, o maior medo dos pais é a exposição das crianças a conteúdos inadequados no celular, para além dos impactos negativos em diferentes áreas do desenvolvimento infanto-juvenil, incluindo na questão escolar.
Essa visão também é corroborada pela pesquisa, que mostra que 39,6% das pessoas acreditam que as telas trazem mais malefícios do que benefícios, enquanto 16,8% entendem o contrário. Por outro lado, 43,6% das pessoas acreditam que é possível encontrar um equilíbrio na equação.
Contato precoce com o celular
Fabiana Machado, agente da Guarda Civil Municipal de Salvador, de 44 anos, contou ao portal A TARDE como a pandemia de Covid-19 fez a filha mais nova, Safira, de 10 anos, ser exposta ao uso do celular de forma precoce.
“Desde muito nova – principalmente por causa do período da pandemia, no qual ela teve aulas online e não podia ficar com outras pessoas – ela ficava brincando no celular para passar o tempo”, disse a mãe.
Assim como aconteceu com Safira durante a pandemia, cerca de 56% das crianças passam a ter contato com o celular antes dos 8 anos, de acordo com a pesquisa Atlas/A TARDE. O levantamento ainda mostra que 78% das crianças têm contato frequente com o celular, seja com um aparelho próprio (55,7%) ou com o aparelho de terceiros (22,7%).
No entanto, Fabiana conta que a supervisão é o fator principal para evitar que o celular se torne um problema: “Se os pais deixarem seus filhos usarem sem controle, sem supervisão e sem impor limites, o celular se torna prejudicial, afetando o desenvolvimento da criança, principalmente nos estudos.”
É possível conciliar os estudos com o uso de celular?
Apesar de exercer um alto grau de supervisão sobre a exposição de Safira ao celular, como é o caso de quase 80% dos pais, de acordo com a pesquisa, Fabiana conta que o aparelho se tornou um “obstáculo” na questão escolar, o que não aconteceu com Jade, a filha mais velha, de 20 anos.
“O uso do celular com certeza influencia no aprendizado de Safira, o que não ocorreu com a Jade. Safira perde o foco com mais facilidade e quer ficar com o celular o tempo todo. Então o celular de fato se tornou um obstáculo.”
Quem também encara o celular como um fator de desvio de foco para crianças é a professora de inglês Beatriz Silva, de 24 anos, que dá aulas para estudantes do 1º ano do Ensino Fundamental I no Colégio Villa Global Education. Ao portal A TARDE, ela revelou que não encara o celular como algo benéfico para seus alunos:
“Para a idade das crianças, eu não acho que celular é benéfico de qualquer forma, sinceramente. Até porque o celular já é associado a esse lazer, essa diversão que não tem tanta supervisão assim, que é pegar um jogo, pegar o TikTok, pegar o Instagram e ficar vendo. Então eu não gosto muito.”
Beatriz ainda falou sobre a Lei nº 15.100/2025, em vigor desde janeiro de 2025, que proíbe o uso de celulares e eletrônicos em escolas durante aulas e intervalos no Brasil: “Tem que ter, sim, proibição, o corte drástico em sala de aula. Fora de sala de aula você não tem muito como ter esse controle, mas dentro de sala de aula tem que ter [controle]”.
Alternativas ao uso do celular
Apesar de ser terminantemente contra o uso de celular em sala de aula, a professora de inglês não se opõe ao uso de outras tecnologias de forma didática:
“Eu acho que tem outros aparelhos que são muito melhores do que um celular, por exemplo, tablets. Acho interessante também estimular a iniciação das crianças à informática em notebooks, porque já cansei de ver crianças pegando um notebook e indo direto com o dedo na tela.”, diz ela.
“No dia a dia, eu acho muito interessante a utilização de alternativas como jogos educativos, vídeos em inglês, músicas. Eu aprendi [inglês] jogando, né? Então eu acho que jogar é uma forma muito tranquila e muito interessante de você sistematizar o aprendizado em inglês”, complementou a professora.
Ainda segundo Beatriz, a própria escola onde ela trabalha já implementou uma plataforma de jogos voltada para a parte pedagógica.
Impactos no ensino à distância
O avanço das tecnologias possibilitou que as aulas remotas se tornassem uma opção viável para estudantes do ensino básico ao superior, movimento que se popularizou a partir da pandemia de Covid-19.
No entanto, a comodidade e flexibilidade da modalidade trouxe questões problemáticas para o aprendizado, como mostra a estudante universitária Letícia Cardoso, de 22 anos, que dá aulas remotas de física e matemática para alunos do ensino médio:
“A principal diferença em relação à modalidade presencial é o nível de atenção [dos estudantes], e nisso eu vejo que o celular é uma distração muito grande.”
Ainda segundo ela, o celular poderia ser uma ferramenta benéfica, mas a falta de orientação faz com que o aparelho se torne um empecilho durante as aulas. “Depende muito do uso, mas como a maior parte dos adolescentes não recebem orientação adequada e fazem uso incorreto, isso prejudica o processo de ensino-aprendizagem”, concluiu Letícia.
Para além dos estudos: a exposição a conteúdos inadequados
Assim como o celular é visto como uma ferramenta de apoio nos estudos, mas pode influenciar negativamente no desempenho e no aprendizado de crianças e adolescentes, o aparelho ainda surge como uma janela de riscos para que os jovens tenham contato com conteúdos inadequados.
Fabiana Machado conta que essa é a sua principal preocupação em relação à criação da sua filha mais nova: “Se eu não impor limites e ficar atenta no que ela consome nas telas, creio que [o celular] pode representar um grande risco, pois existe muita desinformação e conteúdos impróprios que podem interferir e impactar na construção da criança.
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Essa também é a maior preocupação para 59% dos entrevistados pela pesquisa Atlas/A TARDE.
O estudo ainda mostra que cerca de 78% das pessoas defendem que os governos e outros órgãos públicos deveriam regular mais as plataformas digitais para controlar o acesso de crianças e adolescentes a conteúdos das redes sociais.
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