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Eletrificados avançam no Brasil
Aumento da demanda começa também a puxar a produção loca


Os veículos eletrificados já deixaram de ocupar uma faixa de nicho e começam a influenciar a estrutura da indústria automotiva brasileira. De janeiro a julho, foram emplacadas 271.091 unidades no país, 21% acima de todo o volume de 2025. Só em julho, as vendas chegaram a 56.074 veículos e atingiram participação recorde de 21,1% do mercado de leves, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).
Em entrevista exclusiva ao A TARDE, o conselheiro e diretor de Infraestrutura da ABVE, Márcio Severine, lembra que a participação dos eletrificados era de cerca de 5% em 2024 e fechou 2025 próxima de 10%. “Eu acredito que até o fim do ano a gente vai se surpreender com um número em torno de 25%, pelo menos, de market share”, projeta. Para ele, o crescimento combina maior aceitação do consumidor, preços competitivos, avanço tecnológico e multiplicação da oferta. A entidade estima vendas entre 420 mil e 450 mil unidades neste ano.
A infraestrutura de recarga também avança, embora ainda seja um desafio. Severine afirma que a expansão vem sendo puxada pelo setor privado, “zero de incentivo governamental”. Segundo ele, o país tinha cerca de 12 mil pontos públicos e semipúblicos em 2024 e a rede chegou à casa dos 25 mil no ano passado. Para 2026, projeta entre 35 mil e 38 mil.
O carregamento residencial, avalia, continua sendo a situação mais favorável ao usuário, sobretudo quando associado à geração solar. Nos espaços públicos, observa, locais que tinham um ou dois carregadores começam a oferecer dez ou 20, movimento que tende a acompanhar o crescimento da frota.
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Produção nacional
O aumento da demanda começa também a puxar a produção local. Severine avalia que, com maior escala, passa a fazer sentido nacionalizar pneus, vidros, componentes metálicos, amortecedores e peças de suspensão. Em Camaçari, a BYD produz Dolphin Mini, King e Song Pro e avança na implantação das áreas de soldagem, pintura e estamparia, além da nacionalização de componentes. “Apostamos no talento baiano para consolidar Camaçari como nossa grande base de inovação no país e referência global de mobilidade”, afirma o vice-presidente sênior da BYD Brasil, Alexandre Baldy.
Para o diretor da ABVE, porém, aprofundar a transição exige ir além da montagem dos veículos e desenvolver no país tecnologias estratégicas, entre elas as baterias.
“A bateria que é o grande negócio, a bateria se aplica a tudo. Então, ela se aplica a carro, mas se aplica também em data centers, se aplica também como fonte de energia alternativa para condomínios, prédios. Então, o grande pulo do gato é a bateria. A bateria vai para o celular também. Futuramente, até os robôs vão usar as mesmas baterias”, afirma.
Severine defende que o Brasil tenha produção local de baterias, além da reciclagem já existente, como forma de absorver tecnologia e ampliar sua participação numa cadeia que extrapola o setor automotivo.
Chips
Outro elo estratégico são os chips, ou semicondutores, presentes nos sistemas eletrônicos dos automóveis e em uma infinidade de outros equipamentos. A forte concentração mundial dessa indústria, sobretudo na Ásia, tornou-se um ponto de vulnerabilidade das cadeias produtivas e já provocou reduções e paralisações na produção de veículos durante crises de abastecimento.
Severine considera necessário criar uma política industrial capaz de assegurar ao menos uma base produtiva desses componentes no país. “O que precisa é uma política industrial que incentive pelo menos ter um mínimo de produção local de chips, de componentes eletrônicos, porque são itens que são utilizados em tudo. De novo, não é só no carro. Uma torradeira hoje tem chip”.
Para o diretor da ABVE, o Brasil já vive a transição, mas ela não deverá levar a uma frota 100% elétrica no curto prazo. A tendência é de convivência entre elétricos, híbridos, etanol e outros biocombustíveis. No Nordeste, acrescenta, a elevada disponibilidade de energia solar pode se transformar em vantagem industrial. O desafio é aproveitar o crescimento do mercado para desenvolver tecnologia, fornecedores e uma cadeia produtiva capaz de capturar uma parcela maior do valor gerado pela eletromobilidade.


