BAHIA
Pontos cegos elevam índices de acidentes de trânsito; veja riscos
Áreas de visibilidade reduzida do condutor variam conforme o veículo


Os pontos cegos são uma ameaça no trânsito e causa de acidentes e óbitos que vitimizam principalmente os que dirigem veículos menores. Nestas áreas de visibilidade reduzida do motorista de ônibus cabem motos, bicicletas e pedestres, o que é motivo de preocupação para os pilotos e razão de sinistros.
Entre avanços tecnológicos capazes de minimizar essas ocorrências e a necessidade de mais instruções durante a autoescola, os espaços não visíveis pelos que dirigem possuem participação considerável nos sinistros de trânsito.
O diretor de comunicação do Sindicato dos Rodoviários da Bahia, Daniel Mota, revela que este tem sido um problema seríssimo para os motoristas de ônibus. “É preciso um processo educativo não só para os que dirigem ônibus, mas principalmente para os motociclistas que fazem muitas piruetas nesses locais”, comenta.
O roteiro de conferir o retrovisor, dar a seta e começar uma ultrapassagem, até perceber uma moto vinda de lugar nenhum no meio do espaço é uma experiência rotineira para os que dirigem e desenha o risco da visibilidade reduzida ao volante.
Zonas de ponto cego
Na prática, o ponto cego é a área ao redor de um veículo em que o motorista não consegue enxergar nem pelos espelhos retrovisores e nem pela visão periférica. O tamanho dessa zona varia conforme os diferentes tipos de veículos, mas há aspectos gerais que podem ser observados.
O espaço do lado do passageiro tende a ser a maior zona cega do veículo porque é onde o ângulo de visão do condutor é menor; já a área do lado do motorista é um espaço perigoso em rodovias, porque é por onde acontece grande parte das manobras.
Em veículos maiores como SUVs, picapes, ônibus e caminhões as zonas traseira e frontal apresentam pontos de atenção importantes por serem capazes de esconder uma criança. Porém o ponto cego não é causador de fatalidades inevitáveis, na perspectiva da Federação Nacional das Associações de Detran (Fenasdetran).
O tema é tratado como um fator de risco estrutural que exige vigilância constante, aponta o pós-graduado em gestão de trânsito e instrutor de trânsito da Polícia Militar da Bahia e da Fenasdetran, Wolneir Brizola. Ele destaca que o ponto cego é visto de forma predominantemente teórica na formação dos condutores.
“Falta espaço para a vivência prática desse risco no aprendizado de campo, o que faz com que muitos motoristas recém-habilitados só compreendam a gravidade do problema ao passarem por um susto real na via”, pontua.
A engenheira agrônoma, Ana Paula Pinto, 27, conta já ter vivido experiências de quase acidentes por conta do ponto cego. Durante uma tentativa de ultrapassagem ela foi surpreendida por uma moto ao lado. “De imediato, é um susto grande, vem um frio na barriga e o medo de quase ter provocado acidentes”, comenta.
Para evitar que episódios do tipo aconteçam, ela diz manter os retrovisores nas posições ideais, que reduzem os pontos cegos, e se movimentar no banco para ter um melhor ângulo de visão durante uma ultrapassagem ou troca de faixa. O risco dos pontos cegos é potencializado conforme o tamanho do veículo e transportes maiores são pontos de atenção.
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“Evito ao máximo ficar paralelamente a um caminhão ou outro veículo maior, por isso tento sempre ultrapassar ou me manter a uma distância segura”, comenta Ana.
O coordenador de operações de esforços legais no Detran e especialista em educação no trânsito, o capitão Justo Bispo da Polícia Militar, reforça as orientações aos condutores. “Devem manter sempre os retrovisores corretamente regulados, sinalizar as manobras com antecedência, verificar o trânsito antes de mudar de faixa e evitar movimentos bruscos”, indica.
Ele destaca ainda que os motociclistas devem evitar permanecer nas áreas de baixa visibilidade de carros, ônibus e caminhões. O instrutor da Fenasdetran, Wolneir, lembra que se “o motociclista não consegue ver o rosto do motorista pelo retrovisor, o motorista provavelmente também não o está vendo”.
A preocupação com os pontos cegos no trânsito gerou, desde 2021, uma sinalização de aviso desses espaços nos ônibus da capital baiana. A estratégia lançada pela Secretaria de Mobilidade (Semob) e a Transalvador foi adesivar os coletivos com a frase: Atenção, o motorista pode não estar vendo você.
A ideia é que a informação alerte pedestres, ciclistas e motociclistas sobre a área de risco ao lado do veículo em que o motorista não tem visibilidade.
A campanha segue ativa e dados da Semob mostram que houve redução de 28% nos sinistros do Sistema de Transporte Coletivo de Ônibus (STCO) em Salvador, na comparação dos primeiros quatro meses deste ano com o ano anterior.
Educação e tecnologia
Um dos caminhos para maior atenção aos pontos cegos são as campanhas educativas dedicadas ao tema, reforça a instrutora de trânsito e observadora certificada pelo Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV), Sene Ferreira.
Não à toa, o tema do Maio Amarelo - mês dedicado à conscientização no trânsito para evitar acidentes e mortes - deste ano, foi ‘No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas’. “O que resolve é a constância desse chamamento da educação do trânsito para que todos tenhamos essa conscientização”, afirma Sene.
Ela destaca, por exemplo, atividades que mostrem para os motoristas a existência dos pontos cegos e como um veículo pode ocupar aquela área sem ser percebido pelo condutor.
Existem tecnologias que podem auxiliar o condutor na questão, como o sensor de ponto cego (BSM), que é um radar nas laterais responsável por acender um LED no retrovisor ao detectar o veículo.
Além disso, há o espelho convexo auxiliar que amplia o campo de visão lateral e o alerta de mudança de faixa (LDW), que alerta se o veículo estiver saindo da faixa sem dar a seta.
Porém Wolneir, da Fenasdetran, reforça que a tecnologia deve funcionar como um suporte e nunca como substituto da responsabilidade humana. “O motorista não pode se tornar refém ou excessivamente dependente dos alertas eletrônicos a ponto de negligenciar a atenção básica e a prudência ao volante”, pontua.


