ENTREVISTA
100 Dias transforma travessia de Amyr Klink em aventura no cinema
Longa dirigido por Carlos Saldanha revisita jornada histórica pelo Atlântico Sul


Em entrevista exclusiva ao Cineinsite A TARDE, o ator Filipe Bragança, que interpreta o navegador, falou sobre o processo de construção do personagem e os desafios de representar uma das figuras mais conhecidas da navegação brasileira. Para o artista, a proposta do longa ultrapassa a dimensão física da expedição e busca apresentar as motivações pessoais de um homem diante do desconhecido.
Essa é uma das coisas mais interessantes do filme. A travessia é grandiosa, mas existe um homem sozinho dentro daquele barco, lidando com os próprios pensamentos, medos, saudades e escolhas. Tentei não olhar para o Amyr apenas como um aventureiro, mas como alguém que também estava fazendo uma viagem interna. Filipe Bragança
A produção é inspirada no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, no qual Amyr Klink relata a expedição realizada em 1984. Aos 28 anos, o navegador partiu de Lüderitz, na Namíbia, para percorrer quase sete mil quilômetros pelo Atlântico Sul, com destino ao litoral baiano.
Em 18 de setembro daquele ano, após aproximadamente 100 dias no mar, Klink chegou à Praia da Espera, em Itacimirim, no município de Camaçari, na Bahia. A façanha fez dele a primeira pessoa a atravessar o Atlântico Sul a remo e deu origem a uma das histórias mais conhecidas da navegação brasileira.
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Bahia marca início e fim de uma história extraordinária
A relação de Amyr Klink com a Bahia é um dos elementos que dão significado especial à trajetória retratada no longa. Foi no litoral baiano que o navegador concluiu a travessia histórica, transformando o estado em parte fundamental de uma conquista que ultrapassou as fronteiras nacionais.
A conexão também ganha destaque no lançamento da produção. A apresentação do filme ao público baiano tem um simbolismo particular, como destacou Filipe Bragança ao falar sobre a importância de levar a história ao estado onde a expedição terminou.
“Acho muito simbólico que o primeiro encontro do filme com o público aconteça na Bahia, onde essa história termina. Existe uma conexão forte entre o lugar e a trajetória do Amyr, então poder apresentar o filme ali tem um significado especial para todos nós”, declarou o ator.

A chegada à Bahia representa o desfecho de uma jornada que exigiu planejamento, disciplina e resistência. Diferentemente de uma aventura motivada apenas pelo impulso, a travessia de Klink foi resultado de anos de preparação, estudos sobre correntes marítimas e desenvolvimento de uma embarcação projetada para enfrentar o oceano.
O navegador também precisou lidar com dificuldades burocráticas, buscar apoio e organizar cada detalhe da expedição antes mesmo de deixar a costa africana. No mar, assumiu sozinho as tarefas de navegação, alimentação, comunicação e manutenção do barco.
Filipe Bragança estudou gestos e pensamentos de Amyr Klink
Para interpretar uma personalidade real, Filipe Bragança buscou compreender o navegador para além da imagem pública associada à travessia. O trabalho envolveu pesquisa, observação e contato direto com Klink, em uma preparação que procurou evitar uma representação limitada à reprodução de gestos e características físicas.
Foi um processo intenso e cuidadoso. Quando você interpreta uma pessoa real, existe uma responsabilidade grande em não fazer apenas uma imitação. Eu queria entender o Amyr para além da imagem do navegador, entender quem era aquele homem, o que o movia e de onde vinha aquela vontade de se lançar ao desconhecido. Filipe Bragança
O livro que inspirou a produção foi um dos principais materiais utilizados pelo ator na construção do personagem. A leitura ajudou a compreender a rotina da viagem e a maneira como o navegador pensava durante os dias em alto-mar.
“O livro ‘Cem Dias Entre Céu e Mar’ foi um guia fundamental, porque ali está a rotina e o pensamento dele durante a viagem. Também assisti a entrevistas e tive a chance de conversar com o próprio Amyr, o que me ajudou a observar como ele fala, gesticula e reage às coisas. Foi uma preparação que passou muito pela escuta e pela observação”, explicou.
Além da pesquisa, o ator precisou se dedicar a uma preparação física intensa. Sem experiência anterior com remo, Bragança frequentou aulas na Raia Olímpica da Universidade de São Paulo (USP), seguiu uma rotina disciplinada de treinamento e alimentação e perdeu cerca de 12 quilos para o papel.
“Fisicamente também foi exigente. Eu nunca tinha remado, então fiz aulas de remo na Raia Olímpica da USP, segui uma rotina disciplinada de treino e alimentação e perdi cerca de 12 quilos. Remo em quase o filme inteiro, e o frio durante as filmagens foi um desafio à parte. Foi exaustivo em vários momentos, mas também transformador como experiência”, relatou.
Solidão e desafios psicológicos vão além do oceano
A experiência de passar 100 dias no mar, distante da família e das referências do cotidiano, é um dos pontos centrais da narrativa. No longa, a travessia não se limita aos obstáculos naturais, como tempestades e encontros com animais, mas também explora o isolamento e as dúvidas enfrentadas pelo navegador.
Para Bragança, transmitir essa sensação exigiu um esforço que ultrapassou o trabalho diante das câmeras. Mesmo cercado por profissionais durante as gravações, o ator procurou compreender a dimensão da solidão vivida pelo personagem.
“A solidão precisava estar presente mesmo quando eu estava cercado por uma equipe inteira. O Amyr passa muito tempo sozinho, e o filme precisava transmitir essa sensação de isolamento, de não ter para onde escapar. Para entender isso, passei um tempo mais recolhido em casa, estudando e me habituando à minha própria companhia”, afirmou.

A narrativa intercala os acontecimentos da expedição com lembranças da infância e juventude de Amyr, incluindo os conflitos familiares e, especialmente, a relação com o pai, Jamil Klink. A mãe do navegador, Asa, também ocupa espaço importante na história.
Interpretada por Philippine Leroy-Beaulieu, conhecida pela série Emily em Paris, Asa ajuda a revelar aspectos mais íntimos do protagonista. Já Felipe Camargo dá vida a Jamil, figura importante para os conflitos e as decisões que atravessam a formação do navegador. João Vitor Silva interpreta Tymur Klink, enquanto Gero Camilo também integra o elenco.
A dimensão familiar contribui para apresentar uma perspectiva diferente da figura pública de Amyr, aproximando o personagem do espectador. Na visão de Bragança, compreender o que existia por trás da determinação do navegador foi essencial para construir a interpretação.
“A relação com a família ajuda a revelar esse lado mais íntimo e humano dele. Para mim, era importante que o público sentisse o que estava por trás daquela coragem e daquela determinação”, destacou.
Carlos Saldanha aposta em aventura com dimensão emocional
Conhecido internacionalmente por trabalhos como Rio e A Era do Gelo, Carlos Saldanha assume a direção de 100 Dias em uma abordagem que combina aventura e drama. O roteiro é assinado por Elena Soárez e Thais Tavares.
O longa não pretende reproduzir o livro como um documentário. Com liberdade para transformar as memórias do navegador em narrativa cinematográfica, a produção amplia o espaço das relações familiares e das experiências emocionais do protagonista.
A travessia ganha uma linguagem visual que transforma o oceano em mais do que cenário, explorando sua dimensão como ameaça, espaço de descoberta e reflexo dos sentimentos do personagem. A fotografia de Rodrigo Monte acompanha a passagem do tempo e o contraste entre a vastidão do Atlântico e a intimidade do pequeno barco.
O resultado aposta em uma aventura de espírito leve, com humor e momentos de encantamento diante da natureza, sem abandonar os riscos da expedição.
Para Filipe Bragança, a experiência de trabalhar com Saldanha foi marcada pela sensibilidade do cineasta ao abordar uma história real.
Trabalhar com o Carlos foi uma experiência especial. Ele tem uma carreira enorme na animação, mas o que mais me chamou atenção foi a sensibilidade com que ele se aproximou de uma história real. Ele tem um olhar cinematográfico, mas também é atento aos personagens e aos pequenos detalhes. Isso cria um ambiente em que você se sente seguro para experimentar. Filipe Bragança
Filme convida público a refletir sobre escolhas pessoais
Embora a travessia histórica seja o ponto de partida, 100 Dias também procura aproximar a experiência de Amyr Klink de questões universais, como medo, persistência e a busca por sentido.
A história apresenta um homem que, diante de um desafio extraordinário, precisa conviver com as próprias escolhas e com a distância de tudo o que conhece. Ao trazer essas questões para o centro da narrativa, o filme amplia a aventura para além da conquista esportiva e da façanha náutica.

A produção também evidencia a capacidade de planejamento e a inteligência envolvidas na expedição, lembrando que a coragem do navegador não estava dissociada da preparação necessária para enfrentar o oceano.
Ao comentar o que espera que o público leve da experiência, Bragança destacou a importância de provocar reflexões que permaneçam depois da sessão.
Espero que as pessoas saiam do cinema não apenas impressionadas pela dimensão da viagem, mas também pensando nas próprias escolhas. No fim, acho que ‘100 Dias’ fala sobre coragem, mas também sobre entender o que nos move. Filipe Bragança
Em cartaz nos cinemas brasileiros desde 29 de outubro, 100 Dias apresenta ao público uma história brasileira que une aventura, memória e relações humanas. Com a Bahia como destino de uma das travessias mais emblemáticas da navegação nacional, o longa resgata a trajetória de Amyr Klink e convida o espectador a olhar para além do feito histórico.


