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CINEMA NACIONAL

3 filmes baianos exploram amor, identidade e violência em festival

Produções de ficção e documentário participaram do Brasil CineMundi 2026, em Belo Horizonte

João Paulo Barreto  | Especial para A TARDE*
Por João Paulo Barreto | Especial para A TARDE*
Thamires Vieira e Luciana Sacramento
Thamires Vieira e Luciana Sacramento - Foto: Vitória Nasck | Divulgação

Hoje é o dia da premiação da vigésima edição da Mostra de Cinema de Belo Horizonte - CineBH, bem como da divulgação dos projetos contemplados na 17ª edição do Brasil CineMundi, evento de mercado promovido pelo festival.

Trata-se de um importante meio de conexão entre a produção brasileira e a indústria audiovisual, por meio de parcerias produtivas assegurando aos projetos brasileiros de longa-metragem vagas em eventos de mercado internacionais, laboratórios, consultorias e mentorias, encontros individuais com projetos de longa-metragem, premiação, ações de cooperação e intercâmbio.

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Neste ano, foram 37 projetos distribuídos em cinco categorias: ‘Horizonte’, que é dedicadas à ficção em desenvolvimento; ‘DocBrasil’, que contempla documentários; ‘Foco Minas’, categoria exclusiva para projetos mineiros e o ‘Work in Progress (WIP)’, voltado para filmes que estão em seu primeiro corte.

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Ficções baianas

Três desses projetos que passaram pelos diversos encontros com potenciais parceiros de mercado e produção são da Bahia. Na categoria ‘Em Desenvolvimento - Horizonte’, o longa-metragem Mulheres Berrantes, da produtora Terá Filmes, conta com a direção de Luciana Sacramento e Thamires Vieira.

Com roteiro assinado por Luciana, trata-se de uma ficção que acompanha mulheres de um povoado do sertão baiano que encontram nos tradicionais berrantes uma forma de se comunicar, se proteger e enfrentar a violência cotidiana. A diretora Thamires Vieira conversou com o jornal A TARDE durante o Brasil CineMundi e trouxe mais informações sobre a produção.

“Começamos a trabalhar nele em 2023. É um projeto que tem um financiamento da SalCine para o desenvolvimento, Lei Paulo Gustavo. Ele participou do Lab Negras Narrativas, da Apan e Amazon. Também está em fase de contratação de metade do orçamento via Ancine. Então, temos 50% do projeto captado e será o primeiro projeto da Terá Filmes com financiamento do FSA”, explica Thamires.

A diretora também falou sobre a origem da escrita do roteiro por Luciana. “Ela mora no Recôncavo há muitos anos. Durante a pandemia, Luciana assistiu ao filme da Tatiana Huezo, Noche de Fuego (2021), e começou a pensar sobre essas mulheres que estavam ali em lugares isolados e que não tinham muito acesso a sistemas de segurança. A violência estava cada vez pior. E foi quando ela criou o universo de Mulheres Berrantes. Depois de um tempo, nos encontramos e ela fez um pitch que me deixou encantada e fui convocada a fazer parte do projeto”, relembra Thamires, pontuando que o roteiro está em seu terceiro tratamento.

“E é um projeto muito importante. Eu sinto que ele nos coloca em um lugar de discussão, de maturidade bem interessante”, destaca .

Work in progress

Outra ficção baiana presente no Brasil CineMundi é Sol a Pino, primeiro longa metragem da cineasta Ana do Carmo e que tem Edvana Carvalho como protagonista. Em entrevista ao jornal A TARDE, Ana comentou sobre o andamento do projeto que foi filmado em 2026 em Salvador.

“Conseguimos filmá-lo em Salvador com uma equipe técnica majoritariamente negra e feminina. Fazer cinema de gênero na Bahia, com mulheres negras no centro da narrativa e também ocupando os espaços de criação e realização, é algo muito importante para mim. Também é muito significativo chegar até aqui com uma história de amor entre duas mulheres negras com mais de cinquenta anos de idade”, salienta Ana do Carmo.

Trata-se de um drama familiar, sci-fi e queer que investiga a pergunta dramática: até onde iríamos para permanecer ao lado de quem amamos? A história acompanha Sol, uma mulher negra com mais de cinquenta anos que perde a esposa Celeste após mais de 20 anos de vida compartilhada.

“O filme se passa principalmente em uma laje de bronzeamento, um espaço comunitário e popular muito presente no Brasil e conduzido sobretudo por mulheres negras e periféricas. É a partir desse território tão nosso que construímos uma ficção científica sobre morte e luto, mas, acima de tudo, sobre celebração da vida e do amor negro e queer. A ficção científica funciona como uma lente emocional para falar não apenas da nossa necessidade humana de sonhar, mas também da liberdade e da coragem de acordar”, afirma a diretora.

Experiente diretora de curtas metragens, Ana destaca ser essa sua primeira participação no evento realizado pela Universo Produção, onde ela chega com seu primeiro longa.

“Estou participando ao lado de Rubian Melo, minha sócia na Saturnema Filmes e produtora executiva do projeto. Chegar aqui, justamente com Sol a Pino, na categoria de Work In Progress, é uma grande oportunidade. Estamos em um momento muito importante da pós-produção, e poder apresentar um primeiro corte para um público especializado internacional, formado por agentes de vendas, produtores e programadores de diferentes partes do mundo, nos permite ouvir novas perspectivas sobre o filme, criar conexões e prospectar parcerias que possam nos acompanhar nessa etapa de finalização e, posteriormente, na sua circulação”, comemora a diretora.

Documentário baiano

Já na categoria DocBrasil do Brasil CineMundi, o filme dirigido por Gabriel Freire, Em Nome do Pai e do Filho, traz uma abordagem familiar e muito pessoal do seu diretor, que também tem no documentário sua estreia em longas-metragens. Ao A TARDE, Gabriel explicou que, com o filme, ele conta uma história familiar e marcada pela diversidade de gênero.

“Meu pai, Cláudio Freire, foi expulso de casa pela própria mãe, no interior da Bahia, por ser considerado gay. Anos depois, ele se casou, teve filhos e construiu uma relação de acolhimento comigo. Eu, seu primeiro filho, me assumi como homem gay durante a faculdade de cinema. É a partir desse encontro entre nossas histórias que nasce o filme. Ao retornar com meu pai ao lugar onde essa história começou, procuro compreender aquilo que conheço e, sobretudo, aquilo que ainda desconheço sobre sua trajetória”, explana o diretor.

Com o documentário, Gabriel explica que buscou trazer reflexões acerca da presença paterna. “Como homem negro e gay, também me interessa refletir sobre a representação da paternidade e das experiências LGBTQIAP+ dentro das famílias brasileiras. Meu pai não corresponde à imagem de uma paternidade marcada apenas pela ausência ou pela violência. Ao contrário, sua trajetória me permite olhar para a paternidade como possibilidade de acolhimento e transformação. Existe, nessa relação, uma ruptura de ciclo que considero central para o filme: meu pai, que foi rejeitado por sua própria mãe, escolheu construir comigo uma relação baseada no afeto e na aceitação”, pontua Gabriel.

Com produção da experiente produtora Marília Cunha, da Movie Ações Audiovisuais (MAA Filmes), Em Nome do Pai e do Filho é o quarto projeto que ela leva ao Brasil CineMundi. Em entrevista ao A TARDE, Marília celebrou essa longeva experiência.

“É um evento que tem acompanhado e contribuído para minha trajetória como produtora. Ao longo desse percurso, consolidei uma parceria com o diretor Isaac Donato, premiado na Mostra de Tiradentes, além de ter participado da produção de filmes exibidos em importantes festivais internacionais, como o True/False Film Festival, IDFA e Dok Leipzig. Ao longo dessa trajetória, percebi que era o momento de ampliar e diversificar minha carteira de projetos”, conta.

“Esse movimento ganhou força em 2025, quando me tornei a primeira brasileira selecionada para o EURODOC, programa itinerante de formação para produtores de documentários criativos realizado ao longo de doze meses na Itália, Eslovênia e Irlanda. Desde então, tenho recebido muitos projetos de realizadores emergentes”, explica Marília

A produtora também comemora a participação pela quarta vez no evento de mercado do CineBH destacando o que a atraiu para a produção de Em Nome do Pai e do Filho.

“O filme do Gabriel Freire, cineasta baiano, 25 anos, me chamou a atenção, tanto pela temática universal, quanto pela narrativa inovadora e inclusiva. E esse projeto já tem mostrado força, de largada: daqui do CineMundi, ele segue para o lab DocSP, onde também foi selecionado. Hoje, minha meta é impulsionar a carreira de jovens diretores no cenário nacional, abrindo mais espaço para parcerias e consultorias com diretores estreantes da nova geração”, finaliza a produtora.

*O jornalista viajou para Belo Horizonte a convite da Universo Produção

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