CINEMA NACIONAL
Brasil e Portugal se misturam em nova comédia que chega aos cinemas
Filme dirigido por Hermano Moreira é estrelado por Jessica Athayde e conta com Marcelo Adnet


A comédia luso-brasileira Hotel Amor chega aos cinemas nesta quinta-feira, 24 de setembro, com uma história ambientada em um hotel onde uma gerente workaholic precisa lidar com uma equipe desastrosa, hóspedes excêntricos e um inesperado reencontro com alguém do passado.
Dirigido por Hermano Moreira, o longa tem distribuição da Imovision e aposta em uma coprodução entre Brasil e Portugal, tanto na equipe quanto no elenco.
Em entrevista exclusiva ao Cineinsite A TARDE, Hermano Moreira explicou que a mistura entre os dois países também está relacionada à própria trajetória. Brasileiro, o diretor vive em Portugal há quase uma década e afirma que a experiência influenciou diretamente a identidade da produção.
“Eu sou brasileiro, mas moro em Portugal há quase 10 anos. Então, eu já me sinto um pouco português e, em Portugal, ainda me consideram um brasileiro. Quando eu venho para o Brasil, meus amigos já me chamam de ‘Portuga’. Eu acho que essa mistura nasceu primeiro, já veio de mim. Eu já sou uma mistura.”
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Brasil e Portugal dentro e fora das telas
A parceria entre os dois países aparece também no elenco e na equipe responsável pelo longa. A protagonista é Jessica Athayde, uma das atrizes conhecidas de Portugal, enquanto Marcelo Adnet integra o elenco interpretando a si mesmo. Também estão no filme Júlia Palha, Margarida Corceiro, Lucas Sampaio e Lucas Dutra.
Segundo Hermano, a presença brasileira não se limita ao elenco. “No elenco, temos a maioria de atores portugueses, mas também temos atores brasileiros importantes, como o Marcelo Adnet e o Lucas Sampaio, e, na equipe técnica, também.”
A construção da linguagem do filme também foi pensada para aproximar as referências dos dois países. O roteiro é assinado pelo brasileiro Bruno Bloch, enquanto a produção contou com colaboração portuguesa.
“É uma coprodução luso-brasileira. O roteiro é feito por um brasileiro, mas tem uma colaboração de uma portuguesa para trazer mesmo o dia a dia, o vocabulário e também a linguagem portuguesa, que é muito diferente da nossa aqui do Brasil. Então, é literalmente uma coprodução em todos os sentidos”, afirmou o diretor.
Uma comédia em plano-sequência
Em Hotel Amor, Catarina, gerente de um hotel viciada em trabalho, vê sua rotina virar de cabeça para baixo quando o estabelecimento é vendido. Com o negócio sob nova administração, ela precisa provar que consegue manter tudo funcionando enquanto enfrenta funcionários pouco profissionais e hóspedes excêntricos.
A situação se torna ainda mais complicada quando um amigo do passado aparece inesperadamente, colocando Catarina diante de novos conflitos pessoais enquanto seu emprego está em jogo. A protagonista também precisa lidar com a nova administradora do hotel, que passa a acompanhar de perto cada passo da equipe.
Para Hermano, o formato também é um dos elementos que tornam a produção diferente. “Eu espero que o público brasileiro vá ao cinema e se divirta. É uma comédia inusitada, por se tratar de um filme em plano-sequência, mas que trata de temas cotidianos dentro de um hotel, mas que facilmente pode ser reportado para outros tipos de trabalho e outros dramas pessoais também.”
O diretor espera ainda que o público consiga se reconhecer nos personagens e nas situações apresentadas pela produção. “Com humor e leveza, espero que as pessoas se identifiquem ou logo identifiquem alguém que conhecem nesse filme.”
O desafio de levar o público aos cinemas
A estreia também acontece em meio à discussão sobre a permanência do público nas salas de cinema e o acesso às produções nacionais. Para Hermano, iniciativas que aproximam espectadores das salas são importantes, mas é necessário pensar em ações que continuem ao longo do ano.
O cinema é uma indústria e é o retrato de uma cultura. É fundamental para o Brasil consumir o cinema brasileiro, assim como o português é fundamental consumir o cinema português, e assim por todos os países. Hermano Moreira - Cineasta
O diretor cita uma experiência de Portugal como exemplo. Segundo ele, mesmo depois do lançamento, Hotel Amor continua sendo exibido em sessões públicas durante o verão.
“Eu tenho o exemplo de Portugal, onde o filme foi lançado no ano passado e ainda continua a ter exibições públicas no verão. No verão, é muito comum em Portugal fazer um open-air, um cinema ao ar livre, onde as prefeituras locais compram o filme da distribuidora e dão acesso ao público de graça", afirma.
Para Hermano, esse tipo de iniciativa também pode alcançar pessoas que normalmente não têm acesso às salas. “Isso é fundamental. Até para uma pessoa que não tem condição, ou uma própria cidade que não tem cinema, ter contato com o filme nacional.”
O diretor defende ainda iniciativas específicas voltadas ao cinema produzido no país. “No Brasil, tem que ser feito isso, tem que ter Semana do Cinema, tem que existir Dias do Cinema Nacional. A indústria do cinema nacional é de extrema importância, tanto a do Brasil quanto de Portugal, quanto da Alemanha, da Argentina, da Espanha e assim por diante.”
Coprodução precisa ter motivo, diz diretor
Embora veja a coprodução internacional como uma oportunidade, Hermano ressalta que a parceria entre diferentes países precisa estar relacionada à própria história contada pelo filme.
“A coprodução internacional tem que ter um motivo para existir. Acho que um filme, para existir e realmente ter um motivo para ser uma coprodução, tem que ter alguma história que passe por dois locais distintos ou que tenha alguma ligação muito forte entre os países ou entre os atores que estão fazendo o elenco principal", afirma.
Segundo Hermano, seus próprios filmes nasceram de histórias que justificavam a colaboração entre países. “Os meus dois filmes foram coproduções com brasileiros, mas porque a história nasceu de uma coprodução. O primeiro filme é de um brasileiro que vai para Portugal e se apaixona por uma portuguesa, e o segundo é de um hotel, que é um ambiente que poderia ser mundial.”
No caso de Hotel Amor, o ambiente escolhido permite justamente essa dimensão internacional. “O filme se passa em Portugal e tem um personagem brasileiro, mas podia se passar no Japão e ter um personagem coreano, porque o hotel, assim como o aeroporto, como a estação rodoviária, é um espaço global, onde a gente tenta retratar o macro dentro do micro.”
Educação como porta de entrada para o cinema nacional
Para ampliar as oportunidades no audiovisual brasileiro, Hermano aponta a educação como um dos pontos fundamentais para aproximar crianças e adolescentes do cinema produzido no país.
“Começa embaixo, com a educação. Quanto mais pessoas tiverem acesso à escola básica, ao ensino médio, mais iremos gerar pessoas capacitadas para qualquer tipo de profissão e que tenham o incentivo do audiovisual”, afirmou.
O diretor defende que o contato com o audiovisual deve começar cedo, incluindo produções nacionais.
É importante que as pessoas tenham acesso e consumam o audiovisual. Claro que pode ser o audiovisual mundial, mas também tenha acesso, conhecimento do que é feito no próprio país. Porque é diferente um filme hollywoodiano de um filme brasileiro, em termos de produção, de estúdio, de orçamento. Hermano Moreira - Cineasta
Ele acredita que o contato precoce pode ajudar a formar novos espectadores. “Eu acho que o adolescente, a própria criança, tem que ter contato com o cinema nacional quanto antes para ver: ‘Ah, tudo bem, é legal um filme da Disney, mas tem coisa sendo bem feita aqui também no Brasil’.”
“Quanto mais diversificado for o setor cinematográfico no Brasil, melhor. Para a gente ter mais pontos de vista distintos de um país que é quase um continente”, finaliza.


