LIBERDADE E RESISTÊNCIA
Cinema francês invade Salvador com filmes premiados e sucessos internacionais
Com filmes de Cannes e do Oscar, festival de cinema começa nesta quinta em Salvador


Nesta quinta-feira, 29 de outubro, começa mais uma edição do já tradicionalíssimo Festival de Cinema Francês do Brasil que, em 2026, comemora seu 17º ano de existência, promovendo e apresentando para o público nacional o recente cinema oriundo da França, bem como trazendo sessões especiais de clássicos da terra dos criadores do cinematógrafo.
O evento, que vai até o dia 11 de novembro, acontece em cerca de 50 cidades brasileiras entre capitais e municípios de maior ou menor porte, ocupando, aproximadamente, 100 salas de cinema. Em Salvador, o público cinéfilo poderá conferir sessões francesas no Cine Glauber Rocha e no Circuito Sala de Arte. Dentre os destaques, está a cinebiografia do general Charles De Gaulle, o militar que liderou a resistência contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial durante o período em que a França foi ocupada, com a anuência de parte do governo, pelas forças alemãs.
Abaixo o fascismo
Um dos maiores sucessos na França no últimos anos, com mais de cinco milhões de espectadores, o épico de quase cinco horas e meia de duração do diretor Antonin Baudry foi dividido em duas partes: De Gaulle: Résistance, com 160 minutos, e De Gaulle: Liberté, com 157 minutos. Batizados no Brasil como De Gaulle: A França Livre Parte 1 e Parte 2, trata-se da obra que, também, estampa a arte conceitual do Festival de Cinema Francês, algo que gerou certa discussão. A curadora e co-diretora geral do evento, Emmanuelle Boudier, em entrevista ao jornal A TARDE, comentou a questão.
“Quando escolhemos essa imagem do general Charles De Gaulle como identidade visual do festival, teve um debate aqui. Porque ele é um militar, né? Perguntaram para nós: 'Nossa, vocês vão colocar um militar como identidade visual do festival agora, com a situação que o Brasil está passando?' Aí foi todo um debate sobre, sim, ele é um militar, mas não é qualquer militar. Ele é o militar que livrou a França do período fascista”, destaca Emmanuelle.
“Era difícil fazer essa escolha de colocar o militar como identidade visual do festival, uma vez que sempre tivemos uns cartazes bem amorosos com casais se beijando, se abraçando, coisa de amor. Esse ano, realmente, escolhemos chamar atenção do público sobre um problema político”, diz.
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Comédia, animação, drama
Mas não somente com filmes e temas tão densos e urgentes se faz a seleção de obras do Festival de Cinema Francês. Na comédia, um dos destaques vai para Bem-vindos a La Comédie Française, filme que aborda as dificuldades de uma diretora teatral (Pauline Clément) que está a poucas horas da estreia do seu espetáculo quando tudo começa a dar errado e ela mesma precisará assumir um papel de atriz. Trata-se, também de um mergulho no ambiente da mais antiga companhia teatral do mundo, La Comédie Française, que foi fundada por Molière em 1680.
A atriz conversou com o A TARDE em entrevista a ser publicada neste sábado (31). Inclusive, é válido destacar que as sessões de Bem-vindos a La Comédie Française contarão com a exibição do curta metragem de 30 minutos, Duas Pessoas Trocando Saliva, filme vencedor do Oscar de Melhor Curta Metragem.

Outra comédia, mas voltada mais para um viés romântico, O Que é o Amor? traz o ex-casal Fred Raimbaud (Vincent Macaigne) e Marguerite Hélias (Laure Calamy) precisando revisitar, perante uma autoridade eclesiástica, os erros de seu falido casamento para que ele possa se casar novamente na igreja. Presente no Brasil, Laure Calamy conversou com o A TARDE em entrevista a ser publicada, também, na edição de sábado.
No âmbito da animação, o clássico francês de 1980, O Rei e o Pássaro, é um filme que representa um marco desse tipo de cinema, tendo influenciado, inclusive, Hayao Miyazaki e o Studio Ghibli. Outro clássico a ser exibido na mostra é A Grande Escapada, comédia de 1966 com a direção de Gérard Oury. Trata-se de um dos mais populares filmes do cinema cômico parisiense, e aborda a história de um grupo de civis que ajudam pilotos franceses a escaparem de captores alemães na guerra. No âmbito dramático, de Ryusuke Hamaguchi, mesmo diretor de Drive My Car, sucesso de 2021, traz em Soudain (O Sentido da Vida) as duas atrizes premiadas em Cannes nesse ano, Virginie Efira e Tao Okamoto. No filme, uma trama envolvendo a história de uma chefe de enfermagem (Efira) que trabalha em um asilo e luta por mais dignidade no cuidado com idosos. Sua amizade com uma diretora teatral (Okamoto), que está com um câncer terminal, aprofunda ainda mais seus compromissos com a dignidade de seus pacientes.
Festival persevera
A curadora da mostra francesa, no papo com A TARDE, falou sobre os desafios de, há 17 anos, manter o evento vivo a cada edição. “O mais complicado é que, agora, estamos em uma fase na qual o mercado está fraco, infelizmente”, explica Emmanuelle, que coordena o evento ao lado de Christian Boudier. “Tem poucos distribuidores brasileiros comprando filmes franceses. E sempre trabalhamos com filmes que têm distribuidor, porque a função e o papel do festival também é de ajudar os distribuidores brasileiros. Isso é uma rampa para futuros lançamentos na salas. Quando tem poucos distribuidores brasileiros comprando, para nós, é difícil, porque somos nós que temos que comprar todos os filmes. Como o festival acontece em mais de 50 cidades, cada filme tem entre 200 e 300 projeções. É como se fosse um lançamento comercial. Assim, pagamos os direitos dos filmes como se fosse para lançá-los nas salas”, esclarece.
Emmanuelle Boudier foi bem franca, inclusive, ao falar sobre a real possibilidade de ter a edição deste ano cancelada. “Para ser bem transparente aqui, quase foi cancelada. Há três meses, essa edição estava cancelada. Porque temos muita dificuldade para juntar patrocinadores, já que a Varilux, que era a marca que, durante 15 anos, nos apoiava como o patrocinador master, deixou de ser essa principal fonte. Eles tinham o nome, o título do festival com a marca. Mas a Varilux foi comprada por uma empresa italiana chamada Luxottica. Essa nova diretoria não manteve a marca Varilux como prioridade”, pontua a curadora do evento, salientando ter sido difícil compensar a perda do suporte financeiro que a marca de lentes trazia para o festival.
“É muito difícil compensar essa perda. Conseguimos outros patrocinadores, como o banco francês BNP Paribas, que ajuda muito a viabilizar o festival, mas isso dificilmente compensa. Então, estamos em uma configuração, este ano, muito ‘no osso’, sabe? Mantivemos os 21 filmes em todo Brasil, em mais de 50 cidades e mais de 100 cinemas. Mas em edições anteriores, conseguíamos fazer coisas ao redor, como sessões ao ar livre, mandar os talentos para outras cidades além de Rio e SP, como Salvador e Recife. Esse ano, não conseguimos fazer. Mas, conseguimos viabilizar o festival e estamos, agora, muito felizes por ter salvado essa edição, mas é difícil. Mesmo com apoios, claro, como, por exemplo, a gente se beneficia dos mecanismos da Lei Rouanet de Incentivo à Cultura e tudo isso, mas, mesmo assim, se tornou muito, muito difícil. A verdade é que é uma luta grande. Mas é amor à causa, também. Para nós, é muito importante defender a diversidade cultural neste país", finaliza.
Festival de Cinema Francês do Brasil / De quinta-feira (29) até 11 de novembro / Programação completa em festivalcinefrances.com.br
*O jornalista viajou para o Rio a convite do festival


