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Concha? Sala principal? O CineConcerto já provou que merece ir além do TCA

Leia crônica da jornalista Bianca Carneiro

Bianca Carneiro
Por
CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25
CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25 - Foto: Fernando Gomes

Existe uma discussão que sempre reaparece quando a Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) toma a Concha Acústica: será que não seria melhor levar o espetáculo para a Sala Principal do Teatro Castro Alves?

Os argumentos são compreensíveis. Na Sala, os assentos são mais confortáveis, a acústica favorece uma escuta mais controlada e, teoricamente, haveria menos gente levantando, entrando, saindo e atravessando fileiras. Já na Concha, a ladeira continua sendo um teste de resistência, enquanto na saída, cinco mil espectadores tentando encontrar o mesmo caminho torna a volta pra casa mais difícil. Além disso, o entra e sai do público durante a apresentação realmente interfere na experiência de quem quer acompanhar cada detalhe da execução.

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Porém, depois de assistir ao CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25, saí pensando justamente o contrário: talvez a pergunta esteja errada. O CineConcerto não precisa ser colocado em um lugar menor para que possamos ouvi-lo melhor. Precisa caber em ainda mais lugares.

É claro que há concertos em que o silêncio é parte da partitura. Há momentos em que até uma tosse parece entrar fora do compasso. Mas exigir do CineConcerto a mesma liturgia seria ignorar o que ele próprio passou mais de uma década construindo.

Criado em 2013 para aproximar novos públicos da música de concerto, o projeto ajudou a modificar a própria relação dos baianos com a OSBA.

Como definiu Manno Góes, é “um espetáculo muito especial”, que se mistura à trajetória recente da orquestra. E talvez seja justamente essa a questão para o debate.

CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25
CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25 - Foto: Fernando Gomes

O menino ao meu lado

Ao meu lado estava uma mãe acompanhada do filho pequeno. Enquanto parte do público poderia se incomodar com comentários durante a apresentação, eu não conseguia deixar de prestar atenção neles.

A cada melodia reconhecida e personagem que aparecia, havia uma reação.

Ele se encantava.

Reconhecia músicas compostas muito antes de nascer. Prestava atenção nos figurinos. Tentava localizar os filmes. Fazia perguntas. Em alguns momentos, parecia assistir à orquestra como quem descobre uma nova franquia favorita.

E talvez haja poucas imagens melhores para explicar por que o CineConcerto existe.

Não era uma criança sendo ensinada a permanecer imóvel diante da música sinfônica. Era uma criança descobrindo que aquela música também pertencia a ela.

Isso muda tudo. Porque a noite não exigia que o público deixasse sua memória na porta. Muito pelo contrário. Ela dependia dela. Quando surgia Harry Potter, alguém lembrava da infância. Quando a Marcha Imperial tomava a Concha, havia quem antecipasse Darth Vader antes mesmo de ele aparecer. O Poderoso Chefão, Indiana Jones, Cinema Paradiso, Matrix, Gladiador, Game of Thrones, Os Vingadores, Thriller e tantas outras obras não chegavam ao palco sozinhas. Traziam junto salas de cinema, DVDs, tardes diante da televisão, pessoas com quem assistimos àqueles filmes e versões mais jovens de nós mesmos.

CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25
CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25 - Foto: Fernando Gomes

A orquestra também atua

E, se o repertório já era uma viagem pela história do cinema, visualmente o CineConcerto parecia ter perdido qualquer compromisso com as leis do multiverso. Em qual roteiro Dona Hermínia dividiria uma orquestra com Dorothy, Super Mario e Peter Pan? Onde Hannibal Lecter ocuparia a cadeira do spalla enquanto um coral de aias aguardaria sua entrada? Em que universo Regan, de O Exorcista, apareceria a poucos metros de personagens infantis sem que alguém precisasse explicar uma ruptura na linha temporal?

Provavelmente em nenhum, e ainda bem.

Os músicos entenderam que, naquela noite, figurino também era instrumento. Alguns dos melhores momentos aconteciam antes mesmo da primeira nota, quando os olhos começavam a percorrer a orquestra tentando identificar quem era quem.

O spalla Francisco Roa, transformado em Hannibal Lecter, foi uma das caracterizações mais certeiras. A referência a O Exorcista disputava atenção com dezenas de personagens espalhados pelo palco. Até Manno Góes aceitou entrar no jogo e apareceu como Darth Vader.

E Carlos Prazeres, regendo inicialmente como Indiana Jones, parecia ter encontrado a fantasia perfeita para o papel que desempenha há anos na OSBA: o homem que insiste em explorar territórios onde uma orquestra sinfônica supostamente não deveria estar.

Seria fácil transformar a noite apenas numa playlist sinfônica de grandes sucessos. O repertório sozinho sustentaria boa parte do espetáculo. Mas a direção entendeu que trilha sonora não é apenas música colocada ao lado do cinema.

CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25
CineConcerto na noite desta sexta-feira, 25 - Foto: Fernando Gomes

Por isso, Star Wars ganhou movimento, com a participação do Conselho Jedi Bahia, e Thriller, coreografia. Em outro quadrante, os dubladores Raphael Rossatto e Juliana Franco atravessaram a fronteira entre a voz que conhecemos dos personagens e os artistas que existem por trás dela. O próprio cinema brasileiro ganhou espaço, com um discurso emocionante que fez ode à esperada Bahia Filmes. As vinhetas de estúdios, aquelas músicas que normalmente ouvimos enquanto ainda ajeitamos a pipoca na poltrona, também viraram protagonistas.

Manno Góes disse antes do espetáculo que há filmes que simplesmente não seriam os mesmos sem suas trilhas. Citou Cinema Paradiso, também escolhido por Carlos Prazeres como uma das maiores declarações de amor ao cinema.

Eles têm razão.

Experimente imaginar o tubarão de Spielberg sem aquelas duas notas. Ou Darth Vader entrando em silêncio. Quem sabe Rocky subindo as escadas sem Gonna Fly Now. O cinema continuaria existindo. Mas alguma coisa fundamental teria ficado para trás.

Os super-heróis que a Bahia já tinha

Apesar de quase todo esse imaginário vir de Hollywood, houve um momento em que o CineConcerto lembrou ao público onde aquela orquestra estava.

No tema de Os Vingadores, a Bahia entrou em cena: Gal Costa, Riachão e Jorge Amado surgiram tratados como aquilo que sempre foram para a cultura brasileira: super-heróis.

O menino sentado ao meu lado estranhou.

Por alguns segundos, pareceu achar que alguma coisa tinha dado errado. Afinal, ele conhecia aquela música. Sabia quem deveria aparecer quando os metais anunciassem os heróis da Marvel.

Mas não havia erro algum. Se Hollywood construiu seus heróis com capas, armaduras e poderes sobrenaturais, a Bahia construiu os seus com voz, samba, literatura, cinema e invenção.

A brincadeira poderia parecer pequena dentro de um espetáculo tão grandioso, mas dizia muito sobre a própria OSBA. Essa é uma orquestra que pode tocar John Williams sem tentar fingir que está em Los Angeles. Pode interpretar Morricone e continuar profundamente baiana. Pode fazer Absolute Cinema sem esquecer Glauber Rocha.

Sala Principal ou Concha?

E então voltamos à pergunta inicial. Eu entendo quem prefere a Sala Principal. Entendo quem quer uma poltrona melhor, menos circulação e silêncio absoluto para ouvir a orquestra. E há uma discussão sobre acessibilidade ao espaço que é importante.

Mas em sua maioria, o comportamento do público me incomodou muito menos: as pessoas cantaram, riram, apontaram personagens, comentaram filmes, anteciparam músicas, se emocionaram…Em grande parte do concerto, estavam completamente hipnotizadas pela orquestra.

Isso não me pareceu falta de respeito, e sim, participação. Há uma diferença enorme entre um público que atrapalha um espetáculo e um público que reage a ele.

O CineConcerto foi criado justamente para derrubar uma das barreiras mais persistentes em torno da música sinfônica: a ideia de que primeiro precisamos aprender um código de comportamento para só depois termos autorização para gostar dela.

Talvez uma criança comentando empolgada que reconheceu Harry Potter seja exatamente o contrário de um problema, e sim, a formação de plateia acontecendo diante dos nossos olhos.

Por isso, se me perguntarem se o CineConcerto deveria sair da Concha, minha resposta é: sim.

Mas não para ficar preso na Sala Principal. Que vá para lá também. E depois saia novamente.

Que atravesse Salvador. Que chegue a bairros onde uma orquestra sinfônica ainda parece pertencer a outro universo.

Que atravesse a Bahia.

Que tenha segunda sessão, terceira sessão, décima sessão. Que encontre teatros, praças e outros palcos possíveis.

O Teatro Castro Alves é a casa da OSBA. E toda orquestra merece um lar, mas ter uma casa não significa nunca viajar.

Talvez essa seja uma das grandes virtudes do trabalho construído nos últimos anos: fazer o público confiar na OSBA independentemente do repertório. Prazeres contou que hoje as pessoas chegam aos concertos dizendo “Eu amo a OSBA, eu amo essa orquestra”. Não é pouca coisa, principalmente para uma instituição que trabalha com uma linguagem artística que, durante tanto tempo, foi apresentada como se precisasse ser traduzida antes de ser sentida.

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Parte 2, parte 3, parte 4…

O CineConcerto ficou três anos longe do palco. O Cinema nos ensinou a desconfiar de sequências feitas apenas porque o primeiro filme deu certo.

Algumas histórias realmente deveriam terminar nos créditos.

Esta não.

O CineConcerto pode ter parte 2. Parte 3. Spin-off. Prequel. Universo expandido.

Pode seguir enquanto houver uma trilha capaz de fazer alguém fechar os olhos e enxergar um filme inteiro.

Porque, no fundo, foi isso que aconteceu na Concha. Não havia uma tela gigantesca projetando nossas lembranças. Não precisava.

John Williams cuidava disso. Morricone também. Nino Rota, Hans Zimmer, Alan Silvestri e tantos outros fizeram o restante. E uma orquestra tocando essas músicas ao vivo transforma memória em presença.

Carlos Prazeres costuma chamar a plateia da OSBA de “público-crush”. É um elogio muito “fofo”.

Mas, depois de cinco mil pessoas lotarem a Concha para assistir a músicos fantasiados transformarem uma orquestra em cinema, acho que já podemos inverter os papéis.

O público pode até ser o crush da OSBA.

Mas a OSBA já virou o nosso.

E, por favor, sem três anos de espera para o próximo encontro.

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