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Conheça o filme baiano que é destaque no 59º Festival de Brasília
Agatha Moreira e Irandhir Santos estrelam conto de vingança


Uma das produções baianas em destaque na sessão de hoje da ‘Mostra Caleidoscópio’, parte da programação da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que segue até o dia 19 de setembro, Tempo à Faca, filme do diretor Diogo Oliveira, surgiu de uma história original do veterano cineasta brasileiro Ruy Guerra.
Com o roteiro desenvolvido com colaboração de Ruy e de Bruno Laet, a versão final é assinada pelo próprio cineasta Diogo Oliveira. Em uma mescla de faroeste em sua estrutura clássica, mas passando-se no sertão nordestino, Tempo a Faca é um road movie que tem a vingança tardia, mas sempre infalível, como algo a nortear seus personagens.
Em suas figuras centrais, essa vingança parece funcionar como algo a corroer mentes e aprisioná-las em um ciclo vicioso cuja recompensa final poderá não ser satisfatória, mesmo se concluída.
Na trama, Neta (vivida com altivez por Agatha Moreira), segue em uma estrada com seu Cadillac 1968, de posse de uma faca e em busca de um destino que não será feliz, mesmo que ela alcance seu objetivo sanguinário.
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Em paralelo a isso, o velho e aposentado jagunço Deodato Cruz (Julio Adrião), viaja a légua tirana da caatinga do sertão em busca da redenção de uma filha que não viu crescer. Almejando chegar à jovem para cumprir a promessa que fez à finada esposa, Deodato quer lhe entregar um vestido de noiva. No entanto, jurado de morte pelo padrinho e tutor da menina desde criança (Carlos Betão), é emboscado pelo jovem jagunço Floro Xavier (Vertin Moura), a quem, ironicamente, acaba salvando a vida e gerando uma dívida do jovem perante ele.
Em entrevista ao jornal A TARDE, o diretor Diogo Oliveira comenta que Tempo à Faca é um projeto cuja história original do veterano Ruy Guerra já existe desde 2009 e que a escrita do roteiro junto com ele já vem desde aquele ano.
“Trabalhamos um ano nesse texto nessa época. E aí era outro projeto, ainda sem a produção atual, com outras pessoas envolvidas. Mas acabou que houve uma pausa e o projeto ficou parado. Quando a Vânia Lima, produtora da Tem Dendê Produções, chega, nós retomamos o projeto comigo assumindo a direção. Com o Ruy dando carta branca, eu reescrevi umas partes do roteiro, fiz essa adaptação e chegamos ao resultado que está no filme agora”, pontua Diogo.
Vingança que dilacera

Nessa jornada, Deodato e Neta seguem nortes diferentes, mas com ambos levando a destinos cujas tragicidades se assemelham. Enquanto um almeja reencontrar sua filha para participar de um momento de comunhão com aquela que não vê desde sua fuga amaldiçoada por uma jura de morte, a jovem Neta segue por uma estrada em busca de uma vingança que o espectador vai descobrindo aos poucos.
O primeiro segue passos que já considera, conscientemente, serem seus últimos, uma vez que sabe que sua jornada tem um destino suicida diante do que vai encontrar nessa busca por rever seu rebento que deixou para trás em uma fuga por sua vida.
Já a segunda, em sua gana por vingança, ainda não sabe o que vai encontrar e, em certo momento, desvia de sua rota quase como em um pedido interno de redenção. Neste ponto, para em um bar de beira de estrada e escuta uma canção.
“É quando a Neta desvia de sua rota. É a única vez em que a Neta desvia de sua rota e faz aquela pausa em sua vingança. Ela faz essa pausa e é quando ela decide seguir em frente com o plano. Ela sabe que não vai deixar de se vingar, mas sabe que fará esse desvio de rota por conta dela. Então, a cena e a música sintetiza o filme todo porque a letra pergunta: ‘Quem sou eu? O que é meu?’”, explica o diretor e co-roteirista.
Tempo à Faca traz na identificação de seus personagens centrais com suas jornadas uma maneira de destrinchar suas personalidades. E nessa trilha, acabam por encontrar outras diversas figuras, cujas alegóricas vidas se equiparam às deles em um modo quase despropositado de seguir em frente.
Floro Xavier (Vertin Moura), por exemplo, tão cego perante sua lealdade àquele que o trata mais como escravo do que como jagunço contratado, entende na relação que constrói com aquele que poderia ser seu algoz que o sentido de lealdade, aqui, pode ser outro.
Palhaço trágico
Outras figuras que surgem em tela de modo a engrandecê-la são as de Uiliana Lima e de Irandhir Santos.
“No papel de Solange, Uiliana traz uma personagem com muitas camadas e um certo mistério, que ajuda a aprofundar as questões debatidas no filme”, destaca Diogo.
Já Irandhir, que vive um trágico palhaço corroído pelo culpa de ter matado seu companheiro de cena, senta-se ao fogo e conta a Deodato o que aconteceu. “O Irandhir é um acontecimento. É impressionante. A cena dele do palhaço foi uma coisa impressionante nos dias em que ele gravou. A equipe toda mudava, mas não mudava de propósito, sabe? O jeito dele é tão solene", relembra Diogo ao falar sobre a experiência de dirigir o ator.
“Por exemplo, ele fica concentrado, ele não conversa com ninguém, sabe? Fica sempre no personagem. Sempre vestido com o figurino. Não pega celular, não pega nada. Fica atuando. E vai, concentra, volta, e não erra nada. Está sempre atuando. E é uma atuação fora do normal. É um poder, assim, vulcânico de atuação. O cara é impressionante. É uma entidade da atuação brasileira. É até emocionante. Só de ver atuando, eu já me emocionava. Sou suspeito para falar do Irandhir porque ele é uma pedra preciosa. É uma estrela, sabe? Estrela no sentido literal do espaço, e não no sentido de glamour. Ele é uma pessoa muito especial. Foi uma honra muito grande trabalhar com ele", comemora o cineasta.
Em um filme que aborda com tanta clareza a ideia que o peso de uma morte pode ou não afetar tanto aqueles que a causam quanto os que sofrem com aquela perda, Tempo à Faca tem em sua essência essa relação com a fugacidade da vida e as marcas da tragicidade que a interrupção súbita da mesma pode causar.
“Poeticamente, carregamos os nossos mortos conosco na vida. Ninguém morre. O que morre é só a carne. A gente carrega os nossos mortos. Sejam nas histórias ou nas lembranças. Independente de religião ou não. A gente sempre carrega nossos mortos. O filme é um debate filosófico temporal”, afirma Diogo. Nada mais pertinente e exato.
*O jornalista viajou a convite do Festival de Brasília


