CRÍTICA
Digger mira os poderosos, mas perde força nos próprios excessos
Após 'Missão: Impossível', Tom Cruise assume personagem bem diferente


O cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu segue fazendo em Hollywood um cinema de excessos e megalomania, um caminho autoral (mas não necessariamente positivo por conta disso) encontrado por ele nos últimos anos, bem diferente de um cinema mais intimista que praticava no início da carreira.
Agora, com Digger, o diretor dá mais um passo na sua elaboração sobre homens cercados por conflitos internos e externos, dessa vez acrescido das discussões sobre o poder da grana e a influência mundial que poucos indivíduos, com sua maquinaria política de gestão, exercem no mundo.
Tom Cruise interpreta o personagem-título, um magnata cuja família, no passado, descobriu poços de petróleo no Texas – não à toa, seu nome significa “escavador” em inglês. Hoje ele é o herdeiro bilionário e superpoderoso de uma companhia petrolífera que o torna um dos homens mais influentes do planeta.
Quando um acidente em uma de suas plataformas de extração provoca um desastre ambiental de grandes proporções, Digger precisa sentar-se com o presidente dos Estados Unidos e toda sua trupe de ministros e conselheiros para tentar reverter os danos.
Sediada na Groelândia, a petrolífera de Digger provocou uma explosão que fez uma calota polar gigantesca se soltar do hemisfério norte, partindo em direção ao continente europeu. Provoca não apenas um desastre ambiental, mas coloca em risco a vida humana em desdobramentos desse acidente, sem falar nos conflitos bélicos que uma crise geopolítica iminente gera entre as potências do mundo.
O tom que Iñárritu aplica à narrativa tem menos de seriedade e mais de paródia. Digger Rockwell é retratado como um velho ricaço – Cruise envelhecido sob camadas de maquiagem –, inconsequente e megalomaníaco, como costumam ser os bilionários. Preocupa-se inicialmente com os prejuízos financeiros do acidente e menos com os danos humanos causados.
Sua casa é decorada com diversos animais empalhados, símbolo máximo da sobreposição humana sobre o mundo animal e à natureza, ainda que o personagem cuide de uma gata envelhecida e adoentada que definha em seus braços, retrato da própria decadência de todo aquele sistema e modo de vida esbanjador. A paleta de cores sépias empalidece o filme como a apontar o dedo para a decadência daqueles que dirigem o mundo.
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Sem sutilezas

Iñárritu venceu dois Oscars de direção em anos consecutivos: em 2015, por Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), que também levou os prêmios de Melhor Filme e Roteiro; e em 2016, com O Regresso. Antes de Digger, fez Bardo, Falsa Crônica de Algumas Verdades (2022), sobre artista mexicano em crise.
Esse conjunto de filmes ajuda a entender o caminho pelo excesso que Iñárritu vem trilhando até aqui em sua trajetória. Os prêmios da indústria e seu reconhecimento nos festivais de cinema parecem endossar um estilo que ele não deve abandonar tão cedo, ainda que Digger pareça um ponto abaixo na sua carreira. Isso porque o diretor ambiciona entrar em um jogo de muitas camadas que ele não consegue dar conta.
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E não há sutilezas aqui. Da caracterização do presidente Compson (John Goodman) à lá Donald Trump, passando pelo diretor de segurança ambiental de Riz Ahmed, pela insossa esposa de Digger, vivida por Sandra Hüller, e toda a trupe de velhos inescrupulosos, machistas e decadentes (sobrando até para os fanáticos religiosos que tomam de assalto as cadeiras do poder), todos no filme se lançam ao escárnio.
Cruise, de fato, sustenta muito bem o seu personagem, sem se deixar levar pelo histrionismo, caminho fácil de se seguir aqui. Seu Digger é inescrupuloso e irresponsável, mas possui um carisma perigoso que faz dos grandes vilões personagens marcantes. O filme é um veículo forte para o ator rumo ao Oscar e possui ao menos uma grande cena – o discurso na sala do tribunal – que ajuda a solidificar sua transformação.
Aposta em dobro

É muito difícil sustentar a paródia e a alegoria em um filme duas horas. É preciso também fazer com que o espectador entre de cabeça naquele universo que aposta tanto no exagero, permanecendo nele. Em certa medida, Digger consegue este feito não apenas pela caracterização geral do filme, mas por um texto sagaz e afiado na sua agilidade.
No entanto, o cineasta faz um segundo movimento responsável por botar muita coisa a perder. Não satisfeito com as muitas nuances ideológicas e políticas da trama, o filme oferece ao espectador uma virada realmente inesperada, antes mesmo de chegar à metade, descortinando a farsa do que vinha sendo visto até então.
É preciso ver com os próprios olhos o que Iñárritu e seu time de roteiristas aprontam na revisão dos desmandos políticos de poucos homens sentados nas cadeiras de poder. Mas é também uma maneira de parecer mais esperto do que já se vende desde o início, como se precisasse provar algum traço de genialidade.
O tom farsesco se mantém, mas é como se ele precisasse ser endossado ou, pior que isso, mastigado para o público, a fim de que não restem dúvidas sobre de que lado o filme está diante dos absurdos grotescos cometidos pelos personagens. É como se o filme dobrasse a aposta dentro da sua própria presunção, mas com efeito contrário.
A partir de certo momento, perde força todo o discurso de cinismo e ironia que vinha sendo trabalhado e escalonado, à medida em que o risco à vida humana crescia, porque a narrativa passa a ser relativizada. Digger cava fundo no escárnio, mas depois parece se arrepender de seus gestos de rebeldia que passam a soar, portanto, muito mais infantis do que pareciam.
‘Digger’ / Dir.: Alejandro G. Iñárritu / Com Tom Cruise, Riz Ahmed, John Goodman, Sandra Hüller, Michael Stuhlbarg, Jesse Plemons / Salas e horários: cinema.atarde.com.br


