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CINEMA NACIONAL

Documentário sobre contracultura ganha pré-estreia em Salvador

Sessão no Cine Glauber Rocha acontece antes da estreia nacional

Beatriz Santos
Por
Cena de Nem Tudo É Paz e Amor
Cena de Nem Tudo É Paz e Amor - Foto: Divulgação

Salvador recebe nesta quarta-feira, 26, às 19h30, a pré-estreia de Nem tudo é paz e amor, novo documentário de Betão Aguiar que revisita a contracultura brasileira dos anos 1970 a partir das memórias de filhos e familiares de artistas que viveram de perto aquele período.

A sessão será realizada no Cine Glauber Rocha, e o longa entra em cartaz na quinta-feira, 27, em todas as capitais brasileiras.

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Com 86 minutos, o filme se afasta de uma narrativa centrada apenas nos grandes nomes da música e da arte para olhar o que acontecia dentro das casas e das famílias atravessadas pela Tropicália, pelos Novos Baianos, pela psicodelia e pelas transformações comportamentais daquele período.

Nomes como Moreno Veloso, Nara Gil, Beto Lee, Anelis Assumpção, Helena Ignez, Paulinho Boca de Cantor, Marília Aguiar e Sarah Sheeva estão entre os entrevistados do documentário, que reúne lembranças, conflitos, experiências e consequências de crescer em meio a uma geração que buscava romper padrões.

Um olhar para quem cresceu perto da revolução

Enquanto movimentos culturais dos anos 1970 transformavam a música, o cinema e o comportamento no Brasil, uma nova geração acompanhava essas mudanças de dentro de casa.

É por esse caminho que Nem tudo é paz e amor constrói sua narrativa. O documentário recupera o período por meio das histórias de quem viveu a liberdade e a efervescência artística não necessariamente nos palcos, mas nos quintais, nas salas de estar e no cotidiano das famílias.

Os relatos, porém, não se limitam à nostalgia. Ao lado de episódios marcados por encontros com grandes artistas e pela convivência com figuras importantes da cultura brasileira, surgem também lembranças de ausência, exílio, conflitos familiares, contato precoce com drogas e experiências difíceis.

“As nossas famílias não obedeciam ao formato tradicional e em alguns momentos isso era lindo, em outros, confuso”, diz Moreno Veloso em trecho do longa-metragem.

Ele também recorda situações que ajudam a revelar o ambiente incomum em que cresceu: “Imagine chegar da escola à tardinha e encontrar uma festa com Tim Maia cantando na sala da sua casa? No outro dia, uma visita do Milton Nascimento, aquela voz... Tudo ali, ao alcance. Havia muitas maravilhas, sim, mas também dificuldades”, pondera.

A partir dessas memórias, o longa amplia o debate sobre parentalidade e relações entre pais e filhos. Estão em cena diferentes experiências, como a da mãe que não acredita ter errado na criação, da filha que viveu sem o pai exilado, da atriz que precisou deixar o país e do filho que teve contato com drogas ainda cedo.

Um projeto que mudou de direção

A origem do documentário está em uma ideia de Jasmin Pinho, amiga de adolescência de Betão Aguiar, que morreu em 2020. Inicialmente convidado para participar do filme como personagem, o diretor acabou assumindo a condução do projeto após a morte da idealizadora.

“Quando Jasmin e Aza Pinho, sua prima, me convidaram para participar do filme como um dos personagens, me permiti olhar para os aspectos difíceis da nossa formação. Compartilhávamos muitas bagagens familiares como filhos de pais que ousaram sonhar um mundo diferente e romper padrões, inclusive na nossa criação. Percebi que certos vazios pediam respostas”, conta Betão Aguiar.

Filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor, um dos pilares dos Novos Baianos, ele assumiu posteriormente a direção da produção.

“Com a partida precoce de Jasmin, o projeto ficou em aberto. De personagem, acabei assumindo a direção do filme, com o convite generoso de sua irmã, minha parceira de produção, Minom Pinho. Amigos e familiares caminham conosco nessa jornada, ampliando o debate e compartilhando reflexões”, ele completa.

Minom Pinho, irmã de Jasmin, também participa do documentário e assina a produção executiva ao lado de Betão. Durante o processo, ela revisitou experiências da própria infância.

“A produção do filme acendia em mim questões da minha infância sui generis e ao mesmo tempo envolvia um processo de luto. Foi desafiador e terapêutico, mas o que interessa é que é muito belo poder realizar o sonho criativo de alguém que você ama e que já nem está mais aqui”, ressalta.

Cinema de invenção e imagens de arquivo

A reconstrução do período também passa pela linguagem do próprio filme. Nem tudo é paz e amor dialoga com o Cinema de Invenção, vertente radical, experimental e anárquica do Cinema Marginal brasileiro entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970.

O longa incorpora trechos de obras de cineastas como Glauber Rocha, Júlio Bressane, Neville de Almeida, Andrea Tonacci e Edgard Navarro, além de fotografias pessoais e filmagens em Super-8.

Entre os materiais utilizados estão ainda cenas do documentário de Solano Ribeiro sobre os Novos Baianos, lançado em 1973, e imagens do acervo de Pedrinho de Moraes, filho de Vinícius de Moraes, que conviveu com o grupo e registrou parte da rotina dos músicos no sítio onde viviam, em Jacarepaguá.

A montagem é assinada pelo editor e roteirista Marco Korodi, enquanto a fotografia fica a cargo de Fabio Burtin e Bruno Graziano. Os recursos analógicos utilizados ajudam a aproximar o filme do imaginário visual do período, sem transformar o documentário em uma reconstrução histórica convencional.

Música aproxima diferentes gerações

A trilha sonora também evita ficar restrita ao repertório dos anos 1970. Clássicos do período aparecem ao lado de composições contemporâneas de Cidadão Instigado, Kiko Dinucci, Raíssa Spada, Gui Amabis, Luiza Villa, Picanha de Chernobill e Maurício Takara.

“Eles expandem a visão do que é ser contracultura no Brasil, inclusive nos dias de hoje”, pontua o diretor, que também assina a trilha sonora.

A proposta é aproximar diferentes tempos e mostrar como parte das discussões levantadas por aquela geração continua presente em debates atuais sobre comportamento, arte e relações familiares.

Chegada aos cinemas

Antes de chegar ao circuito comercial, o documentário teve três sessões oficiais e uma exibição extra durante o 18º Festival In-Edit Brasil, todas esgotadas.

Após a primeira exibição pública do filme, realizada em junho, o músico Maurício Pereira comentou a experiência de assistir ao longa. “Vemos na tela uma geração de artistas que nutriu a minha, mas não é só uma conversa sobre arte, é sobre afeto. Assistir ao filme me deu vontade de sair correndo pra casa e abraçar meus filhos”, disse emocionado.

O lançamento foi acompanhado por um circuito de pré-estreias em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Após a sessão no Cine Glauber Rocha, o filme chega ao circuito comercial nesta quinta-feira.

O universo musical que atravessa o documentário também será tema de um espetáculo da banda Orfeu Menino, que apresentará clássicos ligados ao período. A apresentação está marcada para o dia 3 de setembro, no Cine Belas Artes, em São Paulo.

Entre a memória e os conflitos familiares

Mesmo ao tratar de um período frequentemente associado à liberdade e à criatividade, o documentário evita apresentar a contracultura como uma experiência sem contradições.

A proposta de Betão Aguiar é observar como as escolhas daquela geração foram recebidas por quem cresceu ao redor delas e como os conflitos dessas famílias continuam reverberando.

“Quis realizar um filme capaz de dialogar com a história da arte criada no Brasil nos anos 1970, uma produção fundante na nossa identidade cultural, com a personalidade desses artistas e com as conquistas sociais da contracultura no país. Tudo isso sem didatismo, guiado por uma pulsão experiencial. Há ali o desejo de rir de situações delicadas que a vida e as escolhas dos meus pais me trouxeram, como um antídoto à vitimização”, finaliza Betão.

Realizado com recursos da Ancine, via FSA e BRDE, o filme é uma produção da Casa Redonda e da Zapipa Produções.

Nem tudo é paz e amor

  • Pré-estreia: quarta-feira, 26, às 19h30
  • Local: Cine Glauber Rocha, Salvador
  • Estreia nacional: quinta-feira, 27, em todas as capitais brasileiras
  • Direção: Betão Aguiar
  • Duração: 86 minutos
  • Gênero: documentário
  • Distribuição: Pandora Filmes
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