ENTREVISTA
Ingrid Guimarães e Mônica Martelli vivem recomeços em nova comédia
Filme acompanha duas amigas em uma aventura inesperada e muito divertida


Nunca é tarde para recomeçar. Em Minha Melhor Amiga, essa ideia se transforma em uma viagem marcada por amizade, humor, crises e descobertas.
Estrelado por Ingrid Guimarães e Mônica Martelli, o longa acompanha duas mulheres na casa dos 50 anos que decidem sair da rotina e viajar pela Europa depois que suas filhas partem para Portugal para um intercâmbio.
Entre perrengues e situações inesperadas, a jornada também abre espaço para reflexões sobre etarismo, maternidade, liberdade e a força dos encontros femininos.
Em entrevista exclusiva ao Cineinsite A TARDE, as atrizes Ingrid Guimarães e Mônica Martelli e a diretora Susana Garcia falaram sobre os temas que atravessam a produção, que chega aos cinemas brasileiros no dia 3 de setembro.
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Para Susana, a principal mensagem do filme está justamente na possibilidade de mudar de rumo. “Nunca é tarde para recomeçar. O filme fala isso: você ressignificar a sua vida profissional, a sua vida emocional".
"Você está com medo, mas mesmo assim você vai, você rompe essa barreira. Então, é uma inspiração. Eu acho que as mulheres se identificam e se inspiram nessas personagens”, completou a diretora.
Uma amizade que sai da vida real para o cinema
Em Minha Melhor Amiga, Ingrid Guimarães e Mônica Martelli interpretam Clara e Júlia, duas amigas de longa data que vivem uma nova fase da vida depois que suas filhas, Manu, interpretada por Giulia Benite, e Isadora, vivida por Gabi Amaral, embarcam para um intercâmbio em Portugal.
Com a casa vazia, frustrações profissionais e relacionamentos atravessando momentos complicados, as duas decidem viajar também para a Europa. O que deveria ser uma oportunidade para reencontrar as filhas e aproveitar uma nova experiência acaba se transformando em uma jornada de descobertas, perrengues e revelações.
Depois de tantos anos de amizade, Guimarães e Martelli levam para a tela uma sintonia que vai além da ficção. A química entre as duas é o principal elemento que sustenta uma comédia que não tenta reinventar o gênero, mas encontra força no carisma de suas protagonistas e na naturalidade com que a amizade entre as personagens é construída.

O longa também foi filmado no Rio de Janeiro, na Espanha e em Portugal e tem inspiração em experiências das próprias atrizes. Além da amizade entre as protagonistas, Minha Melhor Amiga também se conecta às filhas de Ingrid e Mônica, Clara Guimarães e Júlia Martelli, ambas de 16 anos.
No filme, elas são representadas por Giulia Benite e Gabi Amaral, enquanto as personagens de suas mães recebem seus nomes como homenagem.
Mulheres 40+ no centro da história
Embora acompanhe duas mulheres na casa dos 50 anos, o filme se debruça sobre uma realidade que ainda aparece pouco no cinema: mulheres mais velhas que continuam desejando, mudando, errando, viajando e recomeçando.
Para Mônica Martelli, essa discussão está diretamente ligada ao momento de vida vivido por muitas mulheres.
Nós somos mulheres vivendo nesse mundo de agora. Esse mundo está fazendo a gente repensar nas nossas escolhas e no que a gente fez até aqui. Mônica Martelli - Atriz e comediante
A atriz destacou que a passagem do tempo também leva a novos questionamentos. “Quando a gente para pra pensar, existe questão do tempo. A gente já tem mais passado que futuro, então isso tem que ser falado. Então, a gente começa a pensar: ‘Eu quero...’ Como a gente está vivendo mais, o que a gente pensa?”
Na sequência, ela relacionou essa reflexão às escolhas que antes pareciam definitivas. “‘Eu quero passar meus próximos 40 anos nesse casamento, nesse trabalho?’ Estamos dando a chance às mulheres de 50 de repensar a vida, de questionar o que era o certo. É importante questionar e ressignificar tudo.”
Ingrid Guimarães também questionou por que histórias protagonizadas por mulheres acima dos 40 anos ainda são pouco frequentes nas telas. “As mulheres mais interessantes que eu conheço são as mulheres 40+. A gente é de uma geração que veio após essa libertação das nossas mães, que ainda tiveram muita dificuldade de se separar, numa época em que ninguém se separava. Então, nós somos a primeira geração a chutar a porta por causa delas.”
Eu tenho papos maravilhosos com mulheres 40+. Então, assim, elas são tão interessantes. Por que não existem mais histórias sobre nós? Ingrid Guimarães - Atriz e comediante
Para Mônica, ampliar essa representação também é uma forma de reafirmar o espaço que essas mulheres ocupam. “Temos que colocar isso na frente e na tela o tempo inteiro, porque precisamos reforçar esse lugar que a gente ocupa e quer ocupar cada vez mais.”
A força de recomeçar
Apesar de apostar no humor, Minha Melhor Amiga encontra espaço para falar sobre mudanças e sobre a sensação de precisar reconstruir a própria vida depois de anos seguindo caminhos que pareciam já definidos.
Para Susana Garcia, a possibilidade de recomeçar é o maior ensinamento da produção.
A mensagem principal é essa: nunca é tarde para recomeçar. Algo que você achava que já estava definido na sua vida, que era para sempre e não está bom, por que não mudar, ressignificar, mudar de direção? Esse é o maior ensinamento e inspiração do filme. Susana Garcia - Cineasta
A maternidade também ocupa um lugar importante na narrativa, especialmente no momento em que os filhos adolescentes começam a seguir os próprios caminhos. A diretora ressaltou que o filme tenta mostrar a importância de escutar os jovens.
“Com relação à maternidade, é importante ter escuta para os filhos adolescentes. No filme, a gente fez questão de mostrar as duas meninas cutucando as mães ali no final. Elas são as mentoras das mães", disse.
"As mães tiveram aquele olhar e decidiram ouvir aquelas filhas. Isso é uma mensagem extremamente importante”, completa a cineasta.
Essa troca entre gerações aparece como parte da transformação vivida pelas personagens. Enquanto as filhas embarcam para novas experiências e começam a construir a própria independência, Clara e Júlia também são levadas a olhar novamente para os próprios desejos e escolhas.
Quando a amizade feminina se torna o centro da história
Se há romances e relações amorosas ao redor das protagonistas, Minha Melhor Amiga não coloca esses elementos no centro absoluto da realização de suas personagens. É na amizade que o filme encontra seu maior coração.
Para Mônica Martelli, o maior impacto da produção é justamente a força do encontro entre mulheres. “A gente é inserida no mundo e numa cultura que nos fez acreditar que mulher é rival de mulher, estimularam a rivalidade feminina desde pequenininha.”
A atriz apontou para uma mudança na forma como as mulheres passaram a se relacionar e se olhar. “E agora estamos escutando mais a mulher, olhando mais para a mulher, sendo mais amorosas para a vida da mulher, não julgando mais as mulheres. Então, a amizade feminina serve para isso. Quando uma manda um conselho para a outra, a outra recebe com amor. É assim: ‘Eu estou te olhando com amor.’”

Para ela, essa amizade também pode ser essencial em momentos em que é preciso enxergar uma situação por outra perspectiva. “Muitas vezes precisamos de um toque da amiga de fora. Às vezes, a gente está atolada numa relação e, se você vê esse olhar verdadeiro e amoroso de fora, de uma amiga, isso pode te tirar de uma situação ruim ou, pelo menos, abrir um espaço para você enxergar outras coisas. Então, a força da amizade feminina é um objetivo e uma coisa muito linda no filme.”
É justamente nessa relação que a comédia funciona melhor. Mesmo seguindo uma estrutura conhecida e apostando em situações familiares para o público do gênero, o longa ganha força na maneira como Ingrid Guimarães e Mônica Martelli dividem a cena. As duas equilibram humor e emoção sem transformar suas personagens em caricaturas.
Há liberdade em envelhecer?
O filme também questiona a pressão social sobre a forma como mulheres mais velhas devem agir. Para Ingrid Guimarães, essa cobrança continua presente diariamente, inclusive para mulheres independentes e artistas.
Essa pressão existe o tempo todo, a toda hora. E mesmo a gente, que é artista, mulher independente financeiramente, sente isso diariamente. Ingrid Guimarães - Atriz e comediante
A atriz também considera corajosa uma das escolhas feitas por sua personagem. “E esse filme, eu acho muito corajoso o que minha personagem faz. Na verdade, ela toma uma atitude que pode ser questionável, mas que os homens fazem há muitos anos, muito tranquilamente, e não vira nem filme.”
Essa possibilidade de ver mulheres ocupando a tela para fazer escolhas, cometer erros e viver desejos que nem sempre são socialmente esperados aparece como uma das dimensões mais libertadoras de Minha Melhor Amiga. Ingrid acredita que essa identificação ficou evidente nas primeiras sessões do longa.
Esse filme é uma espécie de libertação feminina. Sentimos isso nas duas sessões que a gente foi, que as mulheres gritam, as mulheres batem palma. É como se fosse ali aquilo que elas não têm coragem de fazer, né? Ingrid Guimarães - Atriz e comediante
Comédia conhecida, mas com espaço para identificação
Dirigido por Susana Garcia, o longa segue caminhos bastante conhecidos das comédias nacionais e aposta em uma estrutura leve e acessível. Em alguns momentos, a narrativa funciona quase como uma sequência de situações e esquetes, enquanto temas como independência, libido, maternidade, relacionamentos e a síndrome do ninho vazio aparecem entre as piadas e os conflitos das protagonistas.
O roteiro, assinado por Patrícia Leme, Luisa Capri, Susana Garcia, Mônica Martelli, Ingrid Guimarães e Tati Bernardi, consegue desenvolver essas questões sem abandonar a proposta de entretenimento.
O filme também faz uma homenagem a Minha Vida em Marte, criando uma conexão afetiva que deve chamar a atenção de quem já acompanha a trajetória de Mônica Martelli e tem carinho pelo trabalho de Paulo Gustavo.
Giulia Benite e Gabi Amaral têm menos espaço na trama, mas ajudam a sustentar a relação entre mães e filhas. Ainda assim, é impossível ignorar que o filme pertence principalmente a Ingrid e Mônica. A dupla domina a tela e transforma a amizade construída fora dela em um dos principais atrativos da história.
Minha Melhor Amiga não pretende reinventar o gênero, e não parece precisar disso. É uma comédia sustentada por duas protagonistas que funcionam especialmente bem juntas e que encontra sua força em uma mensagem simples: a vida não termina quando os filhos crescem, quando um relacionamento chega ao fim ou quando uma escolha que parecia definitiva deixa de fazer sentido.
Entre risadas, viagens e recomeços, o filme lembra que ainda há espaço para descobrir novos caminhos e que, muitas vezes, uma amiga pode ser a pessoa que ajuda a enxergá-los.


