SUCESSO ABSOLUTO
Lizzie Borden: o que é real e ficção na nova série TOP 1 da Netflix
Nova temporada de Monstro resgata um dos crimes mais famosos dos Estados Unidos


A quarta temporada de Monstro, da Netflix, chegou ao catálogo na última quinta-feira, 17 de setembro, com uma nova versão do caso de Lizzie Borden, mulher acusada de assassinar o pai e a madrasta a machadadas em 1892, em Massachusetts.
Interpretada por Ella Beatty, a personagem está no centro da nova produção da antologia criminal, que alcançou o primeiro lugar entre as mais vistas no Brasil.
A história acompanha um dos crimes mais conhecidos dos Estados Unidos e recupera acontecimentos documentados, mas também modifica relações, datas e episódios do caso.
Vicky Krieps interpreta Bridget Sullivan, empregada e principal aliada de Lizzie na série. Charlie Hunnam vive Andrew Borden, pai da protagonista, enquanto Rebecca Hall interpreta Abby Borden, sua madrasta.
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O assassinato de Andrew e Abby Borden
Em 4 de agosto de 1892, a americana Lizzie Borden encontrou o corpo do pai sem vida, Andrew Borden, deitado no sofá, com o rosto e a cabeça ensanguentados. No cômodo ao lado, também morta, estava Abby Borden, mulher de Andrew e madrasta de Lizzie.
Uma semana depois, a jovem, descrita por uma reportagem da revista Time da época como "solteirona de 32 anos", foi indiciada. Para a polícia, Lizzie havia matado o casal Borden.
Antes das mortes, Andrew e Abby vinham se sentindo mal. Segundo o The New York Times, Abby chegou a consultar um médico e contou suas suspeitas de envenenamento. Andrew, no entanto, achou bobagem ser examinado.
Até a empregada da casa estava doente no dia da morte dos patrões. Ela foi a pessoa quem Lizzie chamou quando encontrou o pai sem vida. Segundo a perícia, Abby, de 64 anos, morreu antes de Andrew, de 70.
A filha mais velha de Andrew, Emma, não estava em casa naquele dia. Um hóspede de Andrew também não estava na residência.
Lizzie foi absolvida pelo tribunal
Parte de uma família abastada, Lizzie foi presa sete dias depois das mortes, após algumas contradições em seu depoimento. Ela foi levada a julgamento no ano seguinte, em um processo que chamou atenção da imprensa local e nacional.
O advogado da ré defendeu a tese de que sua cliente não seria capaz de dar 18 machadadas na madrasta e 11 no pai. A defesa também destacou que Lizzie tinha um comportamento reconhecido como exemplar pela comunidade.
Na época, ela era professora e membro da Women’s Christian Temperance Union, uma instituição de mulheres cristãs que promovia a sobriedade e o Evangelho.
A arma do crime nunca foi encontrada. Também foram apresentados depoimentos que levantavam suspeitas contra Lizzie. Um farmacêutico afirmou que ela teria tentado comprar uma substância venenosa dias antes do crime. Uma amiga disse ainda que teria visto Lizzie queimando um vestido dias depois das mortes.
As evidências, porém, não foram suficientes para condená-la. Lizzie e seu advogado conseguiram convencer o júri de 12 homens — somente pessoas do sexo masculino eram admitidas como juradas na época — de que ela "não era culpada" pela morte do pai e da madrasta. Apesar da absolvição, nenhum outro suspeito foi apontado pelas autoridades.
O que é real e ficção em Monstro
A produção de Ryan Murphy e Ian Brennan mantém alguns elementos documentados do caso, mas altera outros pontos centrais da história.
Um dos exemplos envolve Andrew Borden. Na série, ele é apresentado como marceneiro que fabrica móveis e, principalmente, caixões. A profissão tem base real, mas não existem indícios de que ele mutilasse corpos para que coubessem nos produtos.
A trama também cria explicações médicas e relações que não têm comprovação histórica. Na ficção, Lizzie sofre com menstruações extremas e dolorosas e a família conclui que ela teria hímen imperfurado. Não há evidências dessa condição nos registros do caso.
Outra mudança envolve o casamento de Andrew com Abby, madrasta de Lizzie. Em “Monstro”, os dois se casam poucas semanas após a morte da primeira mulher dele, Sarah Morse. Documentos indicam, entretanto, que o casamento ocorreu dois anos depois.

A série cria uma tentativa de envenenamento
O roteiro ainda inventa tentativas de envenenamento e uma parceria direta no crime. Na produção, Lizzie e Bridget tentam matar Andrew e Abby por intoxicação alimentar antes de planejarem o ataque com machados. Não há registro de doença causada por ostras estragadas.
A família, no entanto, realmente enfrentou episódios de intoxicação. Os registros mencionam problemas relacionados ao consumo de peixe-espada e caldo de carneiro.
Lizzie e Bridget tiveram um romance?
Um dos principais elementos modificados pela série é a relação entre Lizzie e Bridget Sullivan.
Na produção, as duas mantêm um relacionamento amoroso e também atuam como aliadas no planejamento dos assassinatos. Na vida real, porém, não há evidência de que Lizzie e Bridget tenham tido envolvimento amoroso ou trabalhado juntas para organizar as mortes.

Bridget era empregada da família Borden e estava na casa no dia do crime. Foi também uma das pessoas que estava doente antes das mortes.
A relação entre as duas personagens não é uma novidade completa nas representações ficcionais de Lizzie Borden. Em 2018, Kristen Stewart interpretou Bridget Sullivan no filme 'Lizzy', estrelado por Chloe Sevigny no papel principal. A produção também apresentou um relacionamento homossexual entre as personagens.
Essa relação havia sido imaginada anteriormente no romance “Lizzie: A Novel: A Chilling Psychological Thriller” (“Um Romance Arrepiante de Suspense Psicológico”), de Evan Hunter, publicado em 1984. O livro apresenta uma interpretação ficcional das possíveis motivações da suposta assassina.
Morte de Bertha também aparece na trama
Um dos episódios de “Monstro” inclui um "teste" de assassinato envolvendo Bertha Manchester, amiga da família. A morte de Bertha aconteceu de fato, mas não foi atribuída a Lizzie ou Bridget. Jose Correa de Mello foi acusado pelo crime.
A série também antecipa encontros e cria conexões entre personagens que não correspondem à cronologia histórica.
Na trama, Lizzie conhece a atriz Nance O'Neil por causa de seu interesse por teatro e recebe dela uma espécie de treinamento para o julgamento. As duas, porém, só teriam se encontrado anos depois do processo de Lizzie Borden.
A ligação com Aileen Wuornos
Na produção, Lizzie é responsável pela morte do pai e da madrasta, mas a série mantém o resultado real do julgamento e mostra sua absolvição.
Depois disso, o roteiro acrescenta outro elemento sem conexão histórica comprovada: uma ligação entre a história de Lizzie e a de Aileen Wuornos, serial killer real. Não existem evidências de relação entre os dois casos.
Por que o caso continua despertando interesse?
Um século depois dos crimes, acredita-se que Lizzie tenha sido mesmo a assassina. A falta de respostas definitivas, no entanto, mantém diferentes hipóteses sobre o que aconteceu naquela casa em 1892.
Uma das possibilidades levantadas ao longo dos anos envolve a relação de Lizzie com a madrasta. Há quem diga que ela nunca teria superado o segundo casamento do pai e que sua relação com Abby era considerada péssima.
Outra hipótese está relacionada ao dinheiro. Lizzie e a irmã estariam financeiramente no aperto, embora o pai fosse rico e gastasse muito com a nova esposa.
Mesmo com as suspeitas, Lizzie foi absolvida e nenhum outro suspeito foi apontado pelas autoridades.
Caso já virou filme e série diversas vezes
A falta de respostas concretas fez com que a história de Lizzie Borden fosse contada diversas vezes, especialmente na televisão.
Em 1975, o filme para a TV 'The Legend of Lizzie Borden' rendeu um Emmy para a protagonista, Elizabeth Montgomery. Em 2014, outra produção para a televisão levou Christina Ricci ao papel principal em 'Lizzie Borden Took an Ax' (“Lizzie Borden pegou um machado”).
Já em 2018, foi a vez de 'Lizzy', filme protagonizado por Chloe Sevigny, com Kristen Stewart interpretando Bridget Sullivan. Agora, o caso volta ao centro da cultura pop com a quarta temporada da antologia Monstro, da Netflix.
Nova temporada de Monstro chega à Netflix
A produção de Ryan Murphy e Ian Brennan já contou histórias de criminosos famosos dos Estados Unidos, como Jeffrey Drahmer, os irmãos Lyle e Erik Menendez e Ed Gein.
Pela primeira vez, a antologia coloca uma mulher no centro da narrativa com “Monstro: A história de Lizzie Borden”. A série combina acontecimentos históricos com elementos criados para a dramaturgia e apresenta uma nova interpretação de um dos casos criminais mais conhecidos dos Estados Unidos.
A história de Lizzie Borden, porém, continua marcada pela mesma questão que atravessou mais de um século: embora tenha sido absolvida, ela nunca deixou de ser considerada uma possível responsável pelas mortes de Andrew e Abby Borden.


