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“Morte e Vida Madalena” transforma caos do cinema em comédia
Filme de Guto Parente acompanha produtora grávida durante gravação caótica no Ceará


Saudemos os produtores. Ou melhor, às produtoras! Filmes sobre filmes são um exercício de metalinguagem pouco experimentado no cinema brasileiro. Mais incomum ainda é centrar uma história como essa na figura mais convergente de uma realização cinematográfica e a menos visível e conhecida do grande público: a produtora.
E assim mesmo no feminino, uma vez que este posto tem sido um espaço ocupado majoritariamente por mulheres ao longo da história do cinema, especialmente no caso brasileiro. Esta é a figura que organiza, planeja e coordena as equipes criativas que atuam na realização de um filme.
Mas é mais conhecida também como aquela que resolve os perrengues de todo o dia – e todo dia parece nascer com problemas novos –, a malabarista dos egos, do dinheiro e das intempéries que porventura saltam no caminho de um e de outro envolvido na feitura de uma obra audiovisual.
Morte e Vida Madalena, de Guto Parente, é um retrato bem-humorado da produção de um filme de baixo orçamento feito no Ceará. A protagonista (Noá Bonoba) está prestes a explodir, não porque carrega uma barriga no seu oitavo (e meio) mês de gravidez, mas porque o inferno astral resolveu cercá-la.
Seu ex-marido, Davi (Marcus Curvelo), suposto pai de seu filho e também diretor do filme, simplesmente some no primeiro dia de gravação (aparentemente, não é a primeira vez que ele faz isso), deixando a produção à deriva, ao mesmo tempo em que as dificuldades e problemas de cada um no set somam-se às dificuldades de realização de qualquer filme independente.
É preciso, portanto, encontrar outro diretor em meio à equipe, enquanto a produtora batalha para conseguir receber o financiamento que já havia sido destinado ao projeto.
Desse caos total, Parente cria uma comédia irreverente, mas muito consciente do peso desses perrengues para uma equipe de filmagens, a partir de um lugar que ele e todos os envolvidos ali conhecem muito bem.
Há ameaça de greve, morte de familiares de outros membros da equipe, atores e seus excessos, paqueras que nascem nos bastidores, denúncias dos populares onde o filme está sendo rodado, além dos conflitos pessoais e profissionais da abençoada produtora.
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Humor sutil
O diretor, que já havia flertado com a comédia no longa anterior, Estranho Caminho, parece ter feito agora um filme claramente com intuitos cômicos, apesar de apostar em um tom muito mais contido, menos histriônico e mais sutil, quase como se as piadas e sacadas engraçadas fossem meramente casuais. Não é um humor que ridiculariza ou pretende arrancar gargalhadas a qualquer custo.
A própria atuação de Bonoba equilibra o stress do momento com certa placidez nas tomadas de ação, como se não fosse dado a ela o direito de perder a linha, já que isso comprometeria a vida de todos ali. Ambos os filmes (o que vemos e o que está sendo feito por dentro da tela) estão em suas mãos.
O elenco como um todo ajuda a compor esse caminho de desacertos tragicômicos. O ator baiano – e também cineasta – Marcus Curvelo dá um show de timing cômico ao representar a inoperância paralisantes de seu personagem, e é uma presença sentida mesmo quando desaparece, deixando todos na mão.
Oswaldo, o ator tresloucado que passa a assumir a direção do filme, para desespero do restante da equipe, vivido pelo sempre incrível Tavinho Teixeira, é o polo oposto com sua afetação e irresponsabilidade pueril.
Este pode ser visto como um filme para iniciados, voltado para a classe de artistas do audiovisual, que facilmente vai se reconhecer nas muitas situações retratadas. Há, claro, um conhecimento de causa que ajuda muito que os realizadores saibam muito bem do que estão falando. Por outro lado, é possível pensar na universalidade que existe nos perrengues de um ambiente de trabalho em que tudo parece fadado a dar errado.
Traços de melancolia
Morte e Vida Madalena começa com a perda do pai da protagonista. Roteirista, foi ele quem escreveu o texto do filme em que eles estão agora trabalhando. A persistência em continuar tocando o projeto, mesmo com o sumiço do diretor, é uma forma de honrar a memória do pai de Madá.
Apesar de passarem pelo caminho do cômico, as ideias de luto e continuidade são temas que também permeiam a trama. É como se um traço de melancolia estivesse presente na atmosfera a todo o momento, dando corpo à via crucis que a personagem precisa passar para completar seu trabalho.
Faz pensar em que medida compensa tanto sacrifício em prol da arte, dessa feita com poucos recursos, mas muito desejo e empenho (não necessariamente na mesma medida por todos). Grávida e lidando com o falecimento paterno, Madalena atravessa limiares, entre vida e morte, e faz disso criação, mesmo que por trás dos bastidores.
Morte e Vida Madalena / Dir.: Guto Parente / Com Noá Bonoba, Nataly Rocha, Tavinho Teixeira, Marcus Curvelo, David Santos, Honório Felix, Linga Acácio, Jenniffer Joingley, Rodrigo Fernandes, Souma, Tavares Neto, Tuan Fernandes, Armando Praça, Lui Fontelene / Salas e horários: cinema.atarde.com.br


