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NOVO FILME

Novo filme de J.J. Abrams mistura dinossauros e viagem no tempo

Produção combina ficção científica e aventura para discutir fé, ciência e os conflitos familiares

João Paulo Barreto  | Especial A TARDE
Por João Paulo Barreto | Especial A TARDE
Cena de O Fim da Rua
Cena de O Fim da Rua - Foto: Divulgação

Na cena de abertura de O Fim da Rua, novo filme do cineasta David Robert Mitchell, um diálogo sobre Cosmos, clássica série documental de Carl Sagan, dita os rumos que o texto assinado pelo diretor do jovem clássico Corrente do Mal (It Follows, 2014) pretende seguir em uma reflexão entre o apego pragmático da ciência versus a fé em algum deus que lhe conceda um mínimo de conforto mental diante do caos de uma situação absurda.

Na tal citação, o astrônomo e cientista planetário compara a existência dos seres humanos no mundo à fugacidade da vida de um inseto. "Somos como borboletas que voam por um dia e acham que é para sempre”.

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Em seu roteiro que aborda propostas narrativas envolvendo o conceito astronômico dos buracos de minhoca, fendas temporais, viagem no tempo e coloca uma pacata família do começo dos anos 1980 diante da aparição de dinossauros e outros seres jurássicos na rua onde vivem, Mitchell apresenta fatos importantes de se frisar em tempos atuais.

Em uma época na qual a imbecilidade oportunista de negacionistas e terraplanistas ganhou voz, a proposta de frisar que o brotar de uma planta que surge em um jardim na época atual seria algo improvável, uma vez que a extinção daquela espécie aconteceu há 200 milhões de anos se torna um ponto apropriado do momento em que o filme estreia. Em um período no qual pessoas afirmam que a Terra existe há seis mil anos, é com um sorriso de canto de boca que essa cena é encarada.

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Marca de Abrams

Mas claro que, com uma premissa tão fantasiosa e contando com a produção de J.J. Abrams, o filme de Mitchell não ficaria restrito somente a discussões filosóficas voltadas a uma análise da existência dos seres humanos na Terra, tampouco manteria unicamente um clima de tensão sobrenatural que emulasse o mesmo que o diretor trouxe com maestria a seu filme de 2014, Corrente do Mal.

Desta forma, a partir dessa ideia que parece oriunda de um episódio de The Twilight Zone, clássica séria batizada no Brasil de Além da Imaginação, o diretor do jovem clássico de terror de doze anos atrás cria um ritmo de aventura que se equilibra com esmero pelo mistério que o absurdo de sua trama oferece.

Afinal, estamos falando de um roteiro no qual, de repente, dinossauros e outros seres jurássicos são vistos em plena década de 1980 nos subúrbios de uma cidade dos Estados Unidos.

E se a década há quarenta anos é pontuada neste momento, é justamente para salientar como uma das marcas do diretor de Super 8, filme de 2011, surge no roteiro de Mitchell de modo orgânico, com a presença do seu elenco adolescente descobrindo uma maturidade que não sabiam que possuíam enquanto pedalam suas bicicletas por ruas que julgavam seguras, mas que os levarão por caminhos tortuosos.

E nessa mescla de modos de criação cinematográfica dentro de uma proposta divertida de narrativa, O Fim da Rua une duas mentes inquietas em um resultado de entretenimento que consegue ser brutal e sanguinolento quando necessário, afinal estamos falando de carnívoros e brutais dinossauros, mas que, também, pontua uma narrativa profunda em sua análise dos dramas daquela família que se vê diante de um acontecimento insano.

É quando os personagens vividos por Ewan McGregor e Anne Hathaway, junto ao elenco adolescente, encaram a tal surreal situação que estão vivendo de maneira pragmática, tentando encontrar alguma lógica para tudo aquilo enquanto sentam-se no chão em círculo.

Aspectos psicológicos

A cena em questão é destacada aqui por conta não somente do seu diálogo, que encontra em seu texto a vazão religiosa de se abordar a busca de uma segurança mental através da fé em uma religião diante do caos e do medo da morte, mas, também, pelo modo como Mitchell decidiu filmá-la, colocando seus personagens em enquadramentos de rostos sobrepostos (ou overlaping face), estilo notoriamente utilizado e que teve uma das tomadas mais marcantes da história do cinema com uma clássica cena de Persona (1966), na qual Ingmar Bergman enquadra Liv Ullmann e Bibi Andersson em um momento pivotal de sua trama.

O uso a referência é clara e salienta por parte de Mitchell justamente o modo como o nonsense de todo aquele pesadelo real afetou cada um de seus quatro personagens centrais de maneira psicológica.

Mas voltando ao já citado aspecto gore e sanguinolento citado, O Fim da Rua constrói com dureza seus momentos de tensão diante da resposta violenta que seus personagens precisam dar àqueles acontecimentos.

Claro que, após a franquia Jurassic Park esgotar as possibilidades de inovações visuais quanto ao tema, a utilização de dinossauros em cena acaba seguindo uma cartilha de momentos aterradores.

Assim, lá estão as cenas nas quais um carro que serve como refúgio é atacado por uma espécie que remete a um T-Rex e pterodáctilos atacam do céu o vizinho que, em um estado de loucura (olha aí outra análise psicológica da estupidez humana) sobe no telhado para atirar (!?) nas criaturas com um calibre .38. Mas o momento em que uma espécie de enguia marítima gigante e silenciosa adentra à casa ainda figura como o mais horripilante dessa fábula.

Com a solução de um final feliz construído a partir das possibilidades criativas que o tema da viagem do tempo traz, O Fim da Rua consegue encerrar sua história destacando sua raiz nas criativas tramas oriundas da Twilight Zone. Uma boa sessão da tarde.

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