DIA DAS CRIANÇAS
O futuro é negro: nova geração de atores projeta o cinema do amanhã
Novos talentos falam sobre representatividade, sonhos e as mudanças que esperam ver nas telas


No dia 12 de outubro, enquanto o Brasil celebra o Dia das Crianças, data que também coincide com o feriado de Nossa Senhora Aparecida, três jovens atores mirins olham para o cinema não apenas como espectadores, mas como parte da geração que poderá construir as próximas histórias do audiovisual.
Vindos de diferentes experiências com teatro, televisão, dublagem e cinema, Yuri Gomes, de 12 anos, Peu Sena, de 11, e Flor de Maria Cruz Rodrigues, de 9, imaginam as telas do futuro a partir dos próprios sonhos.
Em entrevistas exclusivas ao Cineinsite A TARDE, os três falaram sobre os personagens que gostariam de interpretar, as histórias que ainda sentem falta de ver, o impacto das novas tecnologias e, principalmente, o espaço que crianças negras podem ocupar no cinema brasileiro.
As respostas apontam para um futuro que mistura fantasia, tecnologia, representatividade e histórias de diferentes regiões do país. Para eles, porém, imaginar o cinema daqui a alguns anos também significa pensar em quem estará diante das câmeras e em quem conseguirá se reconhecer no que aparece na tela.
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Yuri já viveu uma experiência que muitos atores adultos ainda sonham alcançar. Morador de Salvador e participante do Projeto Axé, ele foi selecionado aos 10 anos, entre mais de 600 crianças, para estrelar Feito Pipa, de Allan Deberton.
O longa foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027. A indicação oficial ainda depende da seleção da Academia norte-americana, que divulgará os indicados em janeiro de 2027.
No filme, Yuri interpreta Gugu, um menino que vive com a avó no sertão cearense e precisa lidar com o agravamento do Alzheimer dela e com a possibilidade de passar a morar com o pai. O elenco também conta com Teca Pereira e Lázaro Ramos. O longa foi filmado em Quixadá e chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro.
Para Yuri, entretanto, o trabalho representa mais do que um primeiro papel no cinema. É também o começo de uma carreira que ele já imagina longa. “Eu imagino que vai ser de muito sucesso, de muita prosperidade, porque vai ser uma carreira linda. Eu imagino que vou fazer muito sucesso lá na frente, porque se eu estou fazendo agora, vou fazer muito mais lá na frente”.

E os planos não param no cinema. “Eu quero fazer bastante novela, bastante filme, bastante série, várias coisas que trabalhem e que se relacionem com o cinema”.
A experiência diante das câmeras também fez com que o menino descobrisse um desejo profissional que pretende levar para o futuro.
O cinema é uma coisa que eu amo muito, e eu estou gostando muito da experiência também de ser ator. Por isso que eu quero ser um ator de muitos trabalhos lá na frente e de muito sucesso também. Yuri Gomes - Ator baiano
Um futuro que começa na infância
A trajetória de Yuri se cruza com uma discussão maior sobre a presença de crianças negras no audiovisual brasileiro. O estudo Gênero e Raça no Cinema Brasileiro, de Marcia Rangel Candido, Luiz Augusto Campos, João Feres Júnior e Poema Eurístenes Portela, analisou 198 dos filmes brasileiros de maior público entre 1995 e 2015 e 6.450 personagens com relevância narrativa.
Entre os personagens de 10 a 14 anos, pessoas pretas e pardas chegaram a representar 48% do grupo analisado. Os próprios autores, porém, mostram que essa presença não significava necessariamente diversidade de representação: crianças e adolescentes negros apareciam muitas vezes associados a contextos de marginalização, violência e vulnerabilidade.
No conjunto da pesquisa, os personagens brancos correspondiam à maioria. Homens brancos representavam 50% dos personagens, enquanto mulheres brancas correspondiam a 26%.
Homens pretos e pardos somavam 16% e mulheres pretas e pardas, apenas 2%. Entre os protagonistas, a diferença também era expressiva: 56% eram homens brancos, 31% mulheres brancas, 11% homens pretos ou pardos e apenas 2% mulheres pretas ou pardas.
A discussão ganha outra dimensão quando se olha especificamente para a infância negra. No estudo “Tornar-se negro” na infância: os desdobramentos do racismo a partir da representatividade negra no cinema infanto-juvenil, Alice Soares Chaves e Mônica Eulália da Silva Januzzi analisaram as falas de cinco crianças e adolescentes negros por meio de estratégias lúdicas de pesquisa-ação.
As autoras concluíram que a negritude infantojuvenil tem sido invisibilizada e diminuída na representação social, com impactos nos processos de identidade, silenciamento e subalternização.
É nesse espaço entre a presença e a possibilidade de se reconhecer que a fala de Flor de Maria ganha força.
“Eu queria me enxergar mais nelas”
Aos 9 anos, Flor de Maria já reúne experiências no teatro e no audiovisual. Ela começou a atuar aos 5 anos e, desde então, participou de montagens como Meio Ambiente Começa em Casa, Cinderela Cacheada, As Aventuras em Leiturândia, Bala Perdida, O Amanhã Nunca Morre, A Bruxinha que Era Boa e Flicts. No audiovisual, protagonizou o curta-metragem A Cor da Patroa.

A atuação, no entanto, não é a única forma encontrada por Flor para se aproximar das histórias. A menina também é contadora de histórias e cantora e usa as redes sociais para compartilhar narrativas e indicar livros da literatura preta, incentivando a leitura e ampliando a discussão sobre representatividade.
Quando pensa no cinema do futuro, a atriz não fala primeiro sobre tecnologia ou efeitos especiais. Ela fala sobre conseguir se enxergar nas personagens.
Quando eu for adulta eu acho que o cinema vai ser diferente. O que eu queria que mudasse é que eu conseguisse me enxergar nas protagonistas e princesas, principalmente da Disney. Flor de Maria - Atriz
A atriz complementa: “Eu queria me enxergar mais nelas, com princesas negras, e conseguisse me sentir como elas e me sentir na história de um jeito diferente”.
A reivindicação de Flor conversa diretamente com os dados sobre a representação de mulheres negras no cinema brasileiro. No estudo de Candido, Campos, Feres Júnior e Eurístenes Portela, mulheres pretas e pardas representavam apenas 2% do conjunto de personagens analisados e 2% dos protagonistas.

Também há um recorte específico sobre a participação de pessoas negras no cinema brasileiro. Em um levantamento da Agência Nacional do Cinema (ANCINE) sobre os filmes lançados em 2016, pessoas negras correspondiam a 13,3% do elenco dos 97 filmes de ficção analisados, enquanto mulheres negras representavam apenas 5%. Em 42,2% das produções, não foi identificado nenhum ator ou atriz negro no elenco analisado.
É um levantamento referente a 2016, mas ajuda a dimensionar por que a presença de novas gerações de atores negros ainda é uma discussão relevante. Para Flor, a transformação passa justamente pela possibilidade de encontrar mais protagonistas parecidas com ela.
E, se pudesse escolher uma história para ajudar a construir esse futuro, ela já sabe qual seria. "O tipo de filme que eu gostaria de fazer quando eu crescer é um clube de princesas que ensinam várias coisas diferentes para várias pessoas, e a personagem que eu quero interpretar é a Tiana", disse a atriz.
E quando imagina o cinema que gostaria de encontrar quando crescer, a atriz amplia ainda mais o desejo:
O que eu gostaria de ver no cinema do futuro é mais filmes sobre inspiração, mais personagens, mais protagonistas negros e mais pessoas negras frequentando esses lugares. Flor de Maria - Atriz
Uma história que vem de longe
A vontade de Flor de ocupar esse espaço não surge em um cinema sem referências. A Bahia tem uma trajetória extensa de produção audiovisual. A Filmografia Baiana, projeto vinculado ao Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas (CECULT) da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), reúne atualmente 2.238 obras audiovisuais produzidas no estado entre 1910 e 2026, entre filmes, documentários, animações, séries e videoarte.
Dentro dessa história estão obras fundamentais para pensar a presença negra nas telas. Em Barravento (1962), de Glauber Rocha, a narrativa se desenvolve em uma comunidade de pescadores negros na Bahia.
Décadas depois, Ó Paí, Ó (2007), de Monique Gardenberg, levou para o cinema personagens negros e histórias ambientadas no Pelourinho, tornando-se uma das produções mais conhecidas sobre o cotidiano e a cultura do Centro Histórico de Salvador.
Já no cinema contemporâneo produzido no Recôncavo Baiano, nomes como Glenda Nicácio e Ary Rosa ampliaram essa presença com filmes como Café com Canela (2017), Ilha (2018) e Até o Fim (2020), construindo narrativas centradas em personagens negros.
A trajetória também passa por artistas como Lázaro Ramos, nascido em Salvador, ator que expandiu sua atuação para a direção, roteiro e produção. No cenário nacional, referências como Cidade de Deus também ajudam a compreender como personagens negros e jovens atores passaram a ocupar posições de destaque no cinema brasileiro.
Mais recentemente, produções como Marte Um, de Gabriel Martins, e Mato Seco em Chamas, de Adirley Queirós e Joana Pimenta, integram uma geração de filmes que amplia as possibilidades de representação negra no audiovisual.
Essa história ajuda a formar a ponte entre quem veio antes e quem está começando agora. E Flor não pensa apenas em estar na frente da câmera. Ela acredita que crianças também podem participar da transformação do próprio cinema.
Eu acho que crianças podem ajudar a mudar o cinema, elas podem ajudar ensinando, elas podem ajudar falando e elas podem ajudar trazendo mais esse assunto para os cinemas de hoje em dia. Flor de Maria - Atriz
A perspectiva também aparece quando Flor pensa em outras crianças que desejam seguir o mesmo caminho. “Eu diria para essa criança que ela pode chegar lá. Ela tem que querer, lutar sempre para conseguir, mas todo sonho que ela quiser, toda profissão, tudo que ela quiser ser, seja lá se for ator, cantor, médico, ela pode conseguir, porque ela é capaz de fazer tudo que ela deseja”.
No próprio futuro, a atriz já enxerga uma parceria que gostaria de realizar: “O meu maior sonho no cinema é poder fazer vários filmes e ser reconhecida com esses filmes e através desse trabalho. E uma pessoa com quem eu gostaria muito de fazer esse trabalho é a atriz Taís Araújo, que eu aprecio muito”.
Entre tecnologia, fantasia e novas histórias
Se Flor pensa no futuro principalmente pela perspectiva da representação, Peu Sena, de 11 anos, olha para as transformações tecnológicas que podem mudar a maneira de produzir e assistir a filmes.
Com trabalhos como Guardião (2025), de Eduardo Tosta, a dublagem da animação Norma (2025) e O Melhor da Vida (2026), o ator já experimentou diferentes formatos do audiovisual.
Para ele, a tecnologia terá um papel importante nas próximas décadas. “Eu acho que vamos ter muitas mudanças no futuro por causa de novas tecnologias usadas para gravação e produção dos filmes”.

Mas existe uma mudança que ele não gostaria de ver.
O que eu quero que mude, é que as produções hoje em dia são muito baseadas na IA. Eu acho que as produções originais, que são humanas, estão perdendo espaço e, na minha opinião, acho que deveriam continuar permanecendo trabalhos reais. Peu Sena - Ator
A tecnologia, para Peu, pode transformar a experiência cinematográfica sem necessariamente substituir a dimensão humana da produção. Uma das possibilidades que imagina para o futuro é levar novas experiências acessíveis para espaços diferentes. “Colocar as sessões de 3D e 4D ao ar livre seria interessante de ver. Seria muito acessível a todos os tipos de pessoas”.
Mas, antes mesmo de imaginar como serão as salas, Peu pensa sobre o que estará dentro delas. Quando perguntado sobre as histórias que ainda faltam no cinema voltado para crianças e adolescentes, ele aponta para uma questão que também atravessa a própria produção audiovisual brasileira: a diversidade regional.
Na minha opinião, faltam histórias que retratam a cultura das diversas regiões brasileiras. Eu sinto falta, porque tem várias histórias que ainda não foram contadas, e eu acho que poderiam dar boas histórias de filmes e séries. Peu Sena - Ator
A resposta amplia a discussão para além da representação racial. Para o ator, o futuro do cinema também passa pela possibilidade de diferentes regiões do país contarem suas próprias histórias.
Peu, porém, também quer atravessar fronteiras. O ator mirim sonha com produções de fantasia e mitologia e tem um personagem específico em mente: “Eu tenho muita vontade de fazer algum filme de fantasia ou de mitologia grega, nórdica e egípcia, mas o personagem que eu queria fazer é o Odisseu, do filme A Odisseia, de Homero”.
Yuri também imagina um cinema grandioso, mas por outro caminho. Depois da experiência em Feito Pipa, ele gostaria de entrar em um universo próximo dos filmes de aventura e fantasia. “O tipo de filme que eu queria fazer é tipo um filme igual a ‘Power Rangers’, que tivesse coisas de monstro, que eu pudesse combater, lutar com eles, eu gosto assim”.

E o sonho de Yuri também passa por conhecer novos lugares. Entre os destinos que gostaria de levar para as telas está Dubai. “Eu queria fazer um filme nesse estilo em Dubai. Eu gosto muito de lá, é um país lindo. Eu vejo na internet, eu acho lá muito lindo. Eu queria muito e eu sonho com isso”.
A criança não é apenas coadjuvante

Além de pensar nos próprios sonhos, Peu também reflete sobre o papel dos atores mirins na construção das histórias. Para ele, crianças precisam aparecer nas telas com mais força narrativa.
Mostrar um lado diferente e fora da realidade que as pessoas estão acostumadas, vendo atores mirins nos filmes, mostrando eles com imponência, destaque e mostrando que eles não são só participantes, mas são relevantes para a construção da história. Peu Sena - Ator
A ideia também dialoga com a própria pauta do futuro do cinema: não se trata apenas de aumentar o número de crianças em cena, mas de pensar quais personagens elas interpretam, quais histórias protagonizam e quais lugares ocupam dentro da narrativa.
Para chegar até lá, Peu sabe que o caminho exige preparação. “É uma caminhada muito longa. Você precisa de muito estudo e dedicação, mas, se você quer mesmo seguir nessa área, você vai ter que continuar estudando e não desistir do seu desejo e do seu sonho”.
Seu objetivo é chegar ainda mais longe. “Que meu trabalho seja reconhecido por várias premiações, trabalhar com o diretor Walter Salles e trabalhar em Hollywood ou no Rio de Janeiro”.
“As crianças também podem transformar o cinema”
A fala de Yuri também aponta para essa possibilidade. Depois de chegar ao cinema sem experiência anterior, o ator já encara o próprio trabalho como uma oportunidade de abrir novos caminhos.
Para Yuri, descobrir que faria Gugu foi motivo de alegria.
Quando eu descobri que eu ia fazer esse filme com esse papel, muito importante, muito maravilhoso, foi uma sensação de alegria. Eu fiquei muito alegre, de verdade, em saber que eu ia fazer o Gugu no filme 'Feito Pipa' e estar representando o Brasil no Oscar está sendo uma coisa muito legal mesmo para mim. Yuri Gomes - Ator
A dimensão da experiência também aparece quando ele fala sobre a responsabilidade de estrear justamente em uma produção que ganhou projeção internacional.
“Eu estou amando muito isso. É uma responsabilidade e tanta, mas é muito emocionante para mim, que esse é o meu primeiro trabalho, e é muito gratificante. Eu estou muito grato. Tenho que agradecer muito a Deus, sou muito grato por tudo que aconteceu na minha vida”, disse o ator.
E, para Yuri, crianças que começam a atuar hoje podem ter participação direta na transformação do audiovisual.
Eu acho muito importante que as crianças se interessem por algo que vai mudar a vida delas, que vai trazer elas para o caminho bom. E eu acho isso incrível, que as crianças também podem sonhar e podem transformar o planeta Terra, o Brasil e o cinema brasileiro. Yuri Gomes - Ator
Um futuro que já começou
Entre o desejo de Flor por mais princesas negras, a vontade de Peu de conhecer histórias que ainda não chegaram às telas e os planos de Yuri para uma carreira cada vez maior, os três atores mirins já começam a pensar no cinema que querem construir.
Mais do que imaginar os personagens que gostariam de interpretar, eles também falam sobre o espaço que pretendem ocupar nas telas. Flor quer se reconhecer nas protagonistas. Peu busca histórias de diferentes regiões do Brasil. Yuri pensa em filmes, séries, novelas e aventuras de fantasia.
Para os três, o cinema também é um espaço de possibilidades. Flor resume esse desejo ao falar com outras crianças que sonham em seguir caminhos semelhantes:
Eu diria para essa criança que ela pode chegar lá. Ela tem que querer, lutar sempre para conseguir, mas todo sonho que ela quiser, toda profissão, tudo que ela quiser ser, seja lá se for ator, cantor, médico, ela pode conseguir, porque ela é capaz de fazer tudo que o sonho dela deseja. Flor de Maria - Atriz
A próxima geração, assim, já começa a olhar para as telas não apenas como lugar de representação, mas também como espaço para imaginar novos personagens, histórias e futuros.


