CRÍTICA
Vale o ingresso? Cara-de-Barro é um dos melhores filmes da DC
Longa aposta no terror para apresentar uma das facetas mais interessantes do novo DCU


A DC Studios encontra no terror uma oportunidade de explorar caminhos pouco convencionais para suas histórias de super-heróis. Com estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 22, Cara-de-Barro representa uma das apostas mais corajosas do universo cinematográfico desenvolvido por James Gunn e Peter Safran.
Longe das aventuras tradicionais de heróis, o longa dirigido por James Watkins transforma um dos antagonistas menos conhecidos do Batman em protagonista de uma história perturbadora, trágica e, surpreendentemente, divertida.
Estrelado por Tom Rhys Harries, o filme acompanha Matt Hagen, um ator em ascensão cuja carreira promissora é destruída após um encontro violento com um chefe do crime de Gotham City.
Quando perde o rosto, justamente seu principal instrumento de trabalho, ele também vê desaparecer a fama, o reconhecimento e as oportunidades que conquistou. Sem perspectivas, o artista recorre a um procedimento experimental de regeneração celular que promete devolver sua aparência, mas desencadeia consequências devastadoras.
A partir dessa premissa, Cara-de-Barro constrói uma narrativa que mistura terror corporal (body horror), ficção científica, suspense psicológico e elementos de tragédia, sem abandonar completamente o humor. O resultado é um filme que entende as possibilidades de seu personagem e encontra na transformação física uma maneira de discutir algo muito mais complexo: o que resta de alguém quando tudo aquilo que sustentava sua identidade deixa de existir?
Mais do que uma história de origem de um vilão do Batman, o longa é uma produção que demonstra como adaptações de quadrinhos podem se desprender das fórmulas mais recorrentes do gênero. Mesmo com algumas limitações no roteiro, a obra se destaca pelo conjunto de atuações, pela criatividade visual e pela disposição de experimentar.
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Um vilão que encontra sua própria história
Criado durante a Era de Ouro dos quadrinhos, Cara-de-Barro integra a extensa galeria de antagonistas do Batman desde a década de 1940. Ao longo das diferentes versões do personagem, a identidade do vilão passou por transformações, mas a relação com a atuação, a aparência e a capacidade de assumir outros rostos permanece entre os elementos mais interessantes de sua mitologia.
No cinema, a escolha por Matt Hagen permite que a produção explore justamente essa conexão entre identidade e espetáculo. Interpretado por Tom Rhys Harries, o protagonista é apresentado como um ator talentoso, carismático e consciente de seu magnetismo, mas que não parece completamente consumido pelo próprio sucesso.
Recém-indicado ao Oscar, Matt vive um momento de ascensão profissional. A conquista é recebida com entusiasmo, mas também revela uma dimensão mais íntima do personagem, que encontra na memória da mãe uma maneira de compartilhar uma felicidade que o reconhecimento público, por si só, não consegue preencher.
A construção inicial é importante para que o espectador compreenda o tamanho da perda que vem a seguir. Matt não perde apenas uma carreira promissora: ele tem sua relação com o mundo radicalmente modificada por uma violência que atinge diretamente a maneira como se reconhece e é reconhecido pelos outros.
A tragédia começa quando o ator se envolve com Mia Torres (Joana Ribeiro), uma atriz em ascensão que mantém uma relação com o mafioso Markos Szabo (David Dencik). A situação desencadeia uma reação brutal, e o rosto de Matt é desfigurado.
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A sequência, apresentada sem prolongar desnecessariamente a preparação, estabelece o tom da obra. Em pouco tempo, a narrativa retira do protagonista aquilo que parecia garantir seu futuro e expõe a fragilidade de uma indústria que frequentemente transforma aparência em mercadoria.
Abandonado por empresários, afastado de oportunidades profissionais e sem conseguir encontrar justiça diante dos responsáveis por sua condição, Matt passa a experimentar uma forma de exclusão que vai muito além das consequências físicas da agressão.
É nesse contexto que a trama encontra sua força. Embora a história acompanhe a origem de um vilão, o filme não trata sua transformação como um simples caminho até a próxima ameaça a ser derrotada. Existe um esforço real para compreender o processo psicológico que conduz o personagem a escolhas cada vez mais extremas.
A aparência como identidade e instrumento de poder
Um dos aspectos mais interessantes de Cara-de-Barro é a maneira como a profissão de Matt se relaciona diretamente com os poderes que ele desenvolve. Para um ator, interpretar significa experimentar outras identidades, construir gestos, vozes e comportamentos capazes de convencer o público de que existe alguém diferente diante da câmera. Matt, entretanto, descobre que essa capacidade de transformação pode ultrapassar os limites da atuação.
Depois de procurar a cientista Caitlyn Corr (Naomi Ackie), responsável por pesquisas com tecnologia celular experimental, ele aceita participar de um procedimento que promete regenerar tecidos danificados. A experiência recupera sua aparência, mas os efeitos colaterais passam a comprometer tanto seu corpo quanto sua sanidade.
A partir daí, a relação entre performance e identidade ganha uma dimensão ainda mais perturbadora. Se antes Matt precisava interpretar personagens para trabalhar, agora sua própria existência passa a depender de uma capacidade de assumir outras formas.
A transformação, nesse sentido, não funciona apenas como um recurso visual para justificar os poderes do antagonista. Ela também dialoga com a instabilidade de uma vida construída sobre a imagem pública e com a dificuldade de distinguir aquilo que alguém é daquilo que aprendeu a representar.
O filme encontra boas oportunidades para explorar essa ideia, especialmente quando aproxima a habilidade de metamorfose do protagonista das exigências de uma indústria que valoriza a aparência acima de tantas outras características.
Há, inclusive, uma crítica à lógica da fama e à maneira como o sucesso pode depender de fatores que escapam completamente ao controle de quem trabalha para conquistá-lo. Matt se esforçou para transformar sua origem humilde em uma trajetória de reconhecimento, mas descobre que sua posição social não é suficiente para protegê-lo da violência e da corrupção.
Gotham, nesse cenário, é menos um simples pano de fundo reconhecível para os fãs e mais um ambiente que alimenta a tragédia. A cidade é apresentada como um lugar onde dinheiro, influência e intimidação podem determinar quem tem acesso à justiça e quem será abandonado.

A produção também evita transformar o passado do personagem em uma explicação definitiva para todas as suas atitudes. Embora existam referências à sua trajetória anterior, o filme se concentra principalmente nas decisões tomadas durante a história, permitindo que a deterioração de Matt seja acompanhada sem reduzir sua transformação a uma justificativa simplista. Essa escolha favorece a construção do antagonista e impede que a narrativa dependa exclusivamente de um passado traumático para explicar sua violência.
Tom Rhys Harries sustenta a transformação de Matt Hagen
Se a premissa de Cara-de-Barro já oferece possibilidades interessantes, é a atuação de Tom Rhys Harries que transforma a trajetória do protagonista em uma experiência envolvente.
O ator consegue estabelecer diferentes dimensões para Matt sem perder a continuidade emocional do personagem. No início, seu carisma aparece de maneira discreta, como o de alguém acostumado a chamar atenção, mas que ainda demonstra gratidão pelas pessoas que participaram de sua caminhada.
Depois da agressão, Harries trabalha com uma vulnerabilidade que não depende apenas da caracterização física. O desespero do personagem está presente nos silêncios, nas reações e na dificuldade de lidar com uma realidade em que sua própria imagem parece ter se tornado inimiga.
Essa dimensão humana é fundamental para que a história não se transforme apenas em uma sucessão de cenas grotescas. O espectador acompanha o sofrimento de alguém que deseja recuperar a vida que tinha, mas que, gradualmente, passa a encontrar na raiva uma forma de responder ao mundo.
Conforme Matt se torna mais imprevisível, a interpretação também ganha novas camadas. Harries transita entre a fragilidade de uma vítima, o magnetismo de uma estrela e a ameaça de alguém que começa a perder o controle sobre si mesmo.
O mérito está em não apagar completamente a humanidade do protagonista quando ele passa a agir de maneira monstruosa. Ao mesmo tempo, o longa não exige que o público concorde com suas escolhas ou que a narrativa transforme seus atos em gestos heroicos.
Essa distinção é essencial. Matt pode despertar empatia, mas a empatia não elimina as consequências de suas ações. O filme compreende que um personagem pode ser fascinante justamente por reunir contradições que não se resolvem de maneira confortável.
Harries entrega uma atuação de destaque e encontra no papel uma oportunidade de demonstrar um alcance dramático que vai além da composição de um vilão de quadrinhos. É uma performance que sustenta a história mesmo quando o roteiro acelera determinados conflitos.

Naomi Ackie e os personagens que cercam o monstro
Naomi Ackie também contribui para a força da produção ao interpretar Caitlyn Corr, cientista responsável pelo tratamento que transforma a vida de Matt. A personagem apresenta uma combinação de inteligência, ambição e vulnerabilidade.
Seus experimentos são atravessados por dificuldades profissionais e pela necessidade de encontrar reconhecimento para suas pesquisas, circunstâncias que ajudam a contextualizar as decisões tomadas ao longo da trama.
Caitlyn não é apenas a figura responsável por introduzir a tecnologia que permite a transformação do protagonista. Ela também representa os dilemas éticos de uma ciência que, diante da possibilidade de resultados extraordinários, pode ultrapassar limites que deveriam ser considerados fundamentais.
A relação entre os dois acrescenta uma camada emocional ao filme, criando momentos em que a proximidade entre os personagens contrasta com o perigo crescente da condição de Matt.

Ackie oferece uma presença convincente e funciona como contraponto à instabilidade do protagonista. Ainda assim, a cientista poderia receber um desenvolvimento mais aprofundado. Embora a escolha de concentrar a narrativa em Matt faça sentido para uma história de origem, a trajetória de Caitlyn deixa a impressão de que existiam outras possibilidades dramáticas a serem exploradas.
A personagem tem potencial para sustentar conflitos próprios, especialmente a partir das questões éticas de seu trabalho e das motivações pessoais que a conduzem. Em alguns momentos, porém, acaba ocupando uma posição mais funcional dentro da trama do que sua presença e a atuação de Ackie sugerem.
Max Minghella, como o detetive John Borrelli, noivo de Caitlyn, acrescenta outra dimensão aos acontecimentos ao aproximar a investigação policial dos conflitos pessoais que atravessam a história. David Dencik também contribui para a atmosfera de ameaça como Markos Szabo, enquanto o elenco de apoio ajuda a compor uma Gotham marcada por relações de poder e exploração.
A apresentação relativamente enxuta dos personagens, por outro lado, é um dos acertos da produção. Ao não desperdiçar tanto tempo com explicações sobre o funcionamento de um universo compartilhado, Cara-de-Barro consegue dedicar espaço ao desenvolvimento psicológico de seu protagonista.
É uma decisão que contrasta com muitas adaptações de quadrinhos contemporâneas, frequentemente ocupadas em preparar o terreno para continuações, participações especiais ou grandes encontros entre personagens. Aqui, a prioridade é outra: fazer com que a história funcione por conta própria.
O terror corporal é o grande espetáculo de Cara-de-Barro
Se as discussões sobre identidade e fama sustentam a dimensão dramática do longa, é no terror corporal que James Watkins encontra uma das ferramentas mais poderosas para transformar a história em uma experiência cinematográfica.
Conhecido por trabalhos como Sem Saída, A Mulher de Preto e Não Fale o Mal, o diretor demonstra familiaridade com situações de desconforto e tensão. Em Cara-de-Barro, essa habilidade aparece principalmente nas sequências que acompanham a deterioração física de Matt e nas tentativas de seu corpo de se adaptar às mudanças provocadas pelo tratamento.
A produção aposta em imagens que transitam entre o repulsivo e o fascinante. Pele que se transforma, ferimentos, procedimentos médicos e mutações são explorados com uma criatividade que faz o espectador sentir o desconforto das situações, mesmo quando a curiosidade fala mais alto do que a vontade de desviar o olhar.

O resultado é um terror que entende a força da repulsa como ferramenta narrativa. Nesse sentido, o filme encontra referências naturais na obra de David Cronenberg, especialmente em A Mosca, pela maneira como aproxima transformação corporal, perda de controle e deterioração da identidade.
Também existem pontos de contato com A Substância, de Coralie Fargeat, sobretudo na discussão sobre aparência e na exploração de um corpo submetido a mudanças violentas.
As comparações, entretanto, não significam que Cara-de-Barro alcance a mesma intensidade ou profundidade temática dessas produções. Em alguns momentos, a direção parece mais interessada em sugerir o grotesco do que em levar suas possibilidades até as últimas consequências.
Para quem já está familiarizado com o body horror, certas sequências poderiam ser ainda mais ousadas. A transformação de Matt oferece um campo visual muito particular, e existe espaço para que o longa explore com maior intensidade a estranheza de um corpo que deixa de obedecer às regras convencionais da anatomia.
Isso não diminui o impacto de seus melhores momentos. Pelo contrário, as sequências mais memoráveis demonstram que o filme tem criatividade suficiente para produzir imagens que permanecem na memória depois da sessão.
Os efeitos práticos e a caracterização merecem destaque pela maneira como dão materialidade à transformação. Em vez de depender exclusivamente de um espetáculo de CGI, a produção trabalha com texturas, superfícies e imagens que reforçam a sensação de que há algo fisicamente errado diante da câmera.
A direção de fotografia de Rob Hardy também contribui para a construção desse universo. Gotham aparece envolta em uma atmosfera opressiva, com ambientes que reforçam a sensação de decadência e insegurança. A iluminação e a composição visual aproximam o glamour da indústria do entretenimento de espaços degradados, criando contrastes que dialogam com a própria trajetória de Matt.
O trabalho da direção de arte e a trilha sonora de Volker Bertelmann complementam essa identidade. Os cenários reforçam a coexistência entre ambição, corrupção e desespero, enquanto a música sustenta uma tensão que não depende necessariamente de sustos repentinos.
Embora tenha momentos de violência gráfica capazes de incomodar até espectadores habituados ao gênero, o longa não precisa recorrer continuamente ao choque para manter o interesse.
Gotham sem Batman e sem a obrigação de expandir o universo
Um dos aspectos mais refrescantes de Cara-de-Barro é sua independência em relação à presença do Batman. Apesar de acompanhar um personagem historicamente ligado ao herói, o filme não precisa apresentar o Cavaleiro das Trevas para justificar sua existência. Gotham já oferece um ambiente suficientemente complexo para sustentar a história, com suas estruturas de poder, criminalidade e desigualdade.
Essa ausência também permite que a produção evite uma das armadilhas mais comuns das franquias contemporâneas: transformar cada novo lançamento em uma peça obrigatória para compreender o próximo capítulo de um universo compartilhado.
Não é necessário conhecer a trajetória de Matt Hagen nos quadrinhos, acompanhar produções anteriores da DC ou identificar referências escondidas para compreender os conflitos apresentados. A obra funciona como uma história autônoma, com começo, desenvolvimento e uma direção narrativa própria. O fato de estar inserida no DCU amplia suas possibilidades futuras, mas não se torna uma dependência para o funcionamento do filme.
Essa liberdade é especialmente importante porque o personagem escolhido está longe de possuir o reconhecimento imediato de figuras como Coringa ou Pinguim. A decisão de dedicar uma produção cinematográfica a um antagonista menos popular poderia ter resultado em uma história excessivamente dependente de referências ou em uma tentativa artificial de transformá-lo em um grande evento.

O filme encontra uma solução mais interessante: apresenta o personagem a partir de suas contradições e permite que o público descubra sua relevância por meio do drama. É também uma demonstração prática de uma das possibilidades mais interessantes para o universo desenvolvido por James Gunn: permitir que diferentes personagens encontrem linguagens cinematográficas próprias, em vez de submeter todas as histórias à mesma estrutura.
Depois de produções de super-heróis mais diretamente associadas à aventura e ao espetáculo, Cara-de-Barro representa uma mudança de direção que faz bem ao conjunto.
A DC pode continuar contando histórias sobre grandes heróis e ameaças extraordinárias, mas também tem espaço para filmes menores em escala narrativa, mais íntimos em seus conflitos e dispostos a explorar gêneros que raramente ocupam o centro das grandes franquias de quadrinhos. É nessa diversidade que o novo universo encontra uma de suas maiores oportunidades.
O que poderia ser ainda melhor
Apesar dos acertos, Cara-de-Barro não é um filme sem limitações. Entre as escolhas do roteiro, uma decisão particularmente desconfortável merece ser discutida: a utilização de uma falsa denúncia de estupro contra Matt como parte da campanha que contribui para destruir sua reputação e sua carreira.
O recurso é problemático não apenas pela maneira como é empregado, mas também pelo contexto social em que essa representação aparece. Em uma sociedade na qual mulheres que denunciam violência sexual frequentemente enfrentam descrédito, perseguição e julgamentos públicos, utilizar uma acusação falsa como mecanismo narrativo para intensificar a queda de um protagonista masculino é uma escolha controversa e desnecessária.
A trama constrói um cenário em que uma acusação dessa natureza contribui para arruinar a vida profissional de um homem famoso, enquanto figuras públicas acusadas de abuso podem preservar dinheiro, influência e acesso a oportunidades, mesmo diante de denúncias e investigações. Ao mesmo tempo, mulheres que denunciam violência podem enfrentar ataques, descredibilização e exposição midiática.
A trajetória de Matt já possui elementos suficientes para estabelecer sua vulnerabilidade: a violência praticada pelo crime organizado, a corrupção, a perda de seu rosto e o abandono pela indústria do entretenimento. A história funcionaria sem essa camada, e sua inclusão introduz uma questão delicada sem oferecer uma reflexão proporcional à gravidade do assunto. É um ponto que merece ressalvas justamente porque o restante da construção dramática demonstra maior sensibilidade ao desenvolver as contradições do protagonista.
Além dessa escolha, a narrativa apresenta algumas passagens em que o ritmo e a construção dos conflitos parecem acelerados. O início ágil funciona a favor da história, mas determinadas mudanças emocionais poderiam receber mais tempo para amadurecer. Matt passa por transformações profundas em um intervalo relativamente curto e, embora Tom Rhys Harries consiga sustentar boa parte dessas transições, algumas situações se beneficiariam de maior elaboração.
Para uma história que abraça o body horror e acompanha um personagem capaz de alterar radicalmente sua própria estrutura física, o filme poderia aproveitar melhor algumas possibilidades da premissa, especialmente nas sequências finais. Em certos trechos, a criatividade das transformações parece ceder espaço a soluções mais familiares de ação.
Essas limitações impedem Cara-de-Barro de alcançar todo o potencial de suas ideias, mas não comprometem completamente a experiência. A controvérsia da falsa denúncia deixa uma impressão incômoda que poderia ter sido evitada, enquanto as escolhas de ritmo e desenvolvimento revelam oportunidades desperdiçadas.
Ainda assim, o longa permanece envolvente e encontra uma identidade própria, mesmo quando não consegue explorar todas as suas possibilidades com a mesma profundidade.
Afinal, vale o ingresso?
Cara-de-Barro é uma ótima pedida para quem procura uma experiência de cinema diferente do que os lançamentos recentes de super-heróis costumam oferecer. Bem atuado, visualmente criativo e sustentado por uma história que encontra força nas contradições de seu protagonista, o longa é uma das produções mais interessantes da DC e um dos melhores filmes do estúdio.
A aposta em um vilão relativamente pouco conhecido, antes mesmo da introdução do Batman deste universo cinematográfico, poderia ter dado muito errado. Entretanto, a produção encontra na combinação entre terror, body horror, ficção científica, suspense psicológico e alívios cômicos uma identidade que vai além da curiosidade em torno de seu personagem.
O humor, aliás, merece reconhecimento por aparecer sem destruir a atmosfera sombria. Em vez de interromper a tensão com piadas deslocadas, a narrativa encontra momentos de absurdo que surgem naturalmente das situações e ajudam a tornar a experiência mais dinâmica. É um equilíbrio que favorece o entretenimento sem diminuir o impacto das cenas mais perturbadoras.
A síntese na apresentação dos personagens também se revela uma escolha acertada. Ao evitar explicações excessivas e não transformar a história em uma vitrine de referências ao universo compartilhado, o filme abre espaço para desenvolver melhor a trajetória psicológica de Matt e os conflitos que cercam sua transformação.

Essa concentração permite construir uma psiquê mais elaborada para o vilão, algo especialmente bem-vindo em um momento em que tantas adaptações de quadrinhos parecem mais preocupadas com a expansão de franquias do que com a complexidade de seus personagens.
Matt Hagen não é interessante apenas porque se transforma em um monstro, mas porque a narrativa dedica tempo para explorar as contradições entre a pessoa que ele era, aquela que desejava ser e o indivíduo que começa a surgir depois de sua tragédia. Tom Rhys Harries é fundamental para esse resultado, enquanto Naomi Ackie oferece um contraponto que, mesmo prejudicado pela falta de desenvolvimento, acrescenta sensibilidade à história.
A direção de James Watkins, os efeitos visuais, a caracterização e a atmosfera de Gotham completam uma experiência que encontra no desconforto e na criatividade algumas de suas maiores qualidades.
Em uma ida ao cinema, Cara-de-Barro oferece uma experiência divertida e eletrizante, sem abrir mão de momentos de tensão, repulsa e reflexão. É o tipo de produção que consegue provocar reações diferentes na mesma sessão e que encontra na tela grande o espaço ideal para suas imagens mais impactantes.
Mais importante, o longa traz algo novo e refrescante para o gênero. Não necessariamente porque inventa uma nova linguagem para o terror ou apresenta discussões inéditas sobre aparência e identidade, mas porque escolhe combinar essas ideias com um personagem de quadrinhos e permite que a história siga uma direção própria.
Essa é a DC que dá vontade de ir ao cinema: um estúdio disposto a correr riscos, experimentar gêneros e reconhecer que seus personagens podem sustentar histórias muito diferentes entre si.
Cara-de-Barro não é perfeito, mas demonstra que existe muito potencial em apostar em narrativas que não dependem de grandes batalhas, heróis conhecidos ou promessas para continuações. É um filme corajoso para este primeiro momento do DCU e um acerto que amplia as possibilidades do universo desenvolvido por James Gunn.
A expectativa é que o estúdio continue arriscando nessa direção. Se a proposta é construir um universo capaz de abrigar diferentes identidades cinematográficas, Cara-de-Barro é um argumento convincente a favor dessa ambição.
- Nota: 4/5


