ARMANDO AVENA
Quem move o mercado financeiro é o dinheiro
Confira a coluna de Armando Avena


Na tarde de segunda-feira, enquanto o país ainda discutia o resultado da eleição presidencial, meu telefone disparou e uma indagação tornou-se recorrente: a bolsa subiu quase 8% e o dólar caiu 4,1%, isso não é um sinal de que a economia avaliza um suposto governo de Flávio Bolsonaro? A resposta é não, mas nesses tempos bicudos no qual todo mundo é economista e ninguém quer ouvir explicação nenhuma, nem sei se vale a pena explicar.
De todo modo, é preciso dizer que a bolsa subir e o dólar cair não significa uma aprovação de todos os setores da economia a Flávio Bolsonaro. Significa apenas, que o mercado financeiro – o mercado de papéis – viu a possibilidade de ganhar dinheiro manejando as expectativas. Parte relevante desse mercado aposta numa eventual vitória de Flávio Bolsonaro e acredita que seu governo implantaria um forte ajuste fiscal. Então, os investidores se movimentaram antecipadamente para ganhar dinheiro com essa expectativa.
O mercado ganha dinheiro antecipando um benefício que ninguém sabe se ocorrerá. Não só porque não se sabe se Flávio vai ser eleito e, caso seja, se vai conseguir implantar o ajuste fiscal que o mercado deseja. Os agentes econômicos não esperam o fato acontecer, eles se antecipam. Compram ou vendem antes que sua expectativa esteja totalmente incorporada aos preços, justamente para ganhar dinheiro com essa mudança de expectativa.
Um exemplo simplório: a ação da Petrobras subiu quase 8% na segunda-feira. A alta não teve justificativa econômica, nem deveu-se à guerra no Oriente Médio, foi motivada apenas pelo resultado da eleição no 1º turno. Então, o investidor vende suas ações, ganha dinheiro, e fica na expectativa de depois comprar as mesmas ações pelo preço antigo. Mas a verdadeira especulação ocorre nos derivativos, nas debêntures, no aluguel de ações, nas posições de “comprados” e “vendidos” e nos mais diversos fundos e instrumentos financeiros. E aí tanto faz se o "hot money" vem do Brasil ou do exterior.
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Existe, todavia, uma questão de fundo: porque o mercado financeiro aposta em um governo de Flávio Bolsonaro?
A resposta é simples. O mercado precifica para ganhar dinheiro, mas também acredita que se Flávio chegar ao governo, poderá promover um ajuste fiscal profundo, algo como 1,5% a 2% do PIB. Para isso será necessário corte de programas sociais, redução da máquina pública, redução de subsídios empresariais, suspensão do reajuste real de salários e aposentadorias e por aí vai.
O problema é que essas mudanças não podem ser feitas rapidamente. E, se forem implementadas de maneira abrupta, podem produzir queda da demanda e desaceleração da economia. Se isso acontecer, o mesmo mercado que comemora o anúncio de um ajuste pode, posteriormente, reagir negativamente se perceber que o remédio está produzindo recessão sem entregar rapidamente os resultados esperados.
Não é possível mudar um país do tamanho e da complexidade do Brasil com choques de curto prazo, pois há obstáculos quase intransponíveis. O primeiro obstáculo é que não se pode cortar gastos obrigatórios, (90% do orçamento) sem mudar a Constituição e para isso é preciso 3/5 dos votos de parlamentares em dois turnos na Câmara e no Senado. Mesmo com o avanço na bancada do PL, verificada nas eleições, será necessário negociar com outros partidos e com o Centrão e aí entram os interesses e as emendas, tornando inviável um choque fiscal imediato como pleiteia o mercado.
O outro obstáculo é o “tesouraço” tão esperado pelo mercado financeiro e que precisará atingir aposentadorias, salário mínimo e programas sociais e as renúncias fiscais de setores empresariais. Tudo isso vai mobilizar grupos de pressão, colocar pessoas nas ruas, jornais nas trincheiras e políticos na tribuna do Congresso. E, para completar, esse novo pacto tributário, implicará em repartição de receitas, vinculações e mudanças no pacto federativo, entrando em ação outro grupo de pressão: governadores e prefeitos.
Não se sabe o resultado dessa equação, mas, se passarmos o olho na Argentina agora e no início do governo, pode ser uma crise econômica e institucional, maior ou menor a depender do que for feito.
O que se sabe é que a Bolsa subiu rapidamente nesta segunda-feira porque um fato – o resultado da eleição presidencial no primeiro turno – veio em linha com a precificação do mercado financeiro e os agentes econômicos aproveitaram para ganhar dinheiro com isso. Se, após a eleição, a expectativa de que haverá um corte fiscal forte em prazo relativamente curto não se concretizar, o mercado financeiro também vai refletir isso e a bolsa vai cair e o dólar subir. Quem move o mercado financeiro não é a política, é o dinheiro.


