A TARDE MEMÓRIA
Macaúbas, o barão que era contra o uso da palmatória
Professor baiano era abolicionista e militou nacionalmente contra os castigos físicos nas escolas


Castro Alves ainda era um garoto de 13 anos quando começou a defender a liberdade em versos. Mas, o primeiro louvor a essa nobre causa foi para o seu professor Abílio César Borges, fundador e diretor do Ginásio Baiano e titulado Barão de Macaúbas por D. Pedro II. No poema ‘Ao natalício do meu diretor’, datado de 9 de setembro de 1860, o adolescente chama Abílio de “O anjo que à mocidade, dos rigores libertou”. A referência era uma homenagem ao aniversário do mestre e ao fato de Abílio, também abolicionista, ser militante ativo na campanha pela extinção dos castigos físicos nas escolas. Ele não gostava de palmatória e defendia que a educação precisava ocorrer sem punições extremas ou imposição de medo aos estudantes.
Abílio nasceu em 9 de setembro de 1824, em Rio de Contas, na Chapada Diamantina, “em meio a efervescência da transição do Brasil colonial para imperial”, explica a pesquisadora e historiadora da educação Júlia Paranhos, que pesquisa a vida do Barão de Macaúbas em seu doutorado pela Escola de Educação da Universidade Federal da Bahia (Ufba): “Acredito que ele foi fortemente influenciado pelas tensões presentes naquele momento", diz.

Após terminar o antigo curso ginasial na cidade natal, Abílio se mudou para Salvador, em 1838. Na capital concluiu seus estudos no Colégio Conceição e ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, em 1841. Ainda como estudante e junto com outros jovens intelectuais, fundou o Instituto Literário da Bahia, um prelúdio para a futura Academia de Letras da Bahia. No instituto, se reuniam nomes importantes da literatura baiana da época, para saraus e debates. Cinco anos depois de começar a faculdade, pediu transferência para a Escola de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formou 1847.
Formado e de volta à terra natal, ele começou a clinicar e, pouco depois, se casou com uma das irmãs do Barão de Cotegipe, Francisca Antônia Wanderley. É nessa época que o médico se muda para a vila de São Francisco das Chagas da Barra do Rio Grande, atual município de Barra, para trabalhar como médico no Hospital São Pedro, atendendo principalmente vítimas de varíola. Permaneceu alguns anos no atendimento clínico e deu início à vida pública e política, assumindo a presidência da Câmara da Vila da Barra.
Dignidade humana
Na vila, Abílio César faz o primeiro discurso em favor da abolição dos castigos corporais não só nas escolas, mas em outras situações onde eram aplicados, como contra pessoas escravizadas e detentos. De acordo com Júlia Paranhos, ele expulsou de Barra um cidadão que havia agredido outra pessoa e afirmou: "Aqui em Barra é uma terra de direitos. A terra se faz pela lei, não pela agressão corporal", cita a historiadora, apontando no personagem uma perspectiva humanista e respeitosa no trato das relações humanas.
Foi também na vila de Barra que ele deu início à trajetória como educador e diretor de escola, no Ateneu Barrense. "É interessante perceber as redes de relação que formavam a Bahia no Império do Brasil. Ele havia se casado com a Francisca Antônia Wanderley, irmã do Barão de Cotegipe, que foi o responsável pela intermediação da compra de um terreno em Salvador que, posteriormente, seria o local onde o Ginásio Baiano foi instalado. Mas antes desse fato, Abílio foi convidado para ser Diretor da Instrução Pública da Província da Bahia, e é ali que ele começa a fazer seus discursos sobre uma educação humanista, respeitosa e livre de castigos", acrescenta a doutoranda.
Entre as principais frentes de atuação de Abílio na área de educação estavam a inovação pedagógica e curricular; a defesa de uma formação integral que ultrapassava a simples alfabetização e valorizava o fortalecimento das disciplinas artísticas e culturais; a valorização do magistério, defendendo melhores condições de trabalho e formação adequada; e sua pauta principal, o fim dos castigos físicos, porque o uso da palmatória na época era regra. Ele defendia que o aprendizado deveria ocorrer pelo estímulo e pelo respeito.
O velho modelo
Os discursos de Abílio circularam por muito tempo não apenas na Bahia, mas também na capital do império, o Rio de Janeiro, e de lá para outras províncias. Mas, suas campanhas contra os castigos corporais logo começaram a incomodar. Reportagem em A TARDE com a história do educador, publicada na edição de 15 de fevereiro de 1991, informa que foi o repúdio de Abílio às práticas bárbaras na educação que levou à sua demissão como diretor de Instrução. A exoneração foi determinada pelo senador João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, então presidente da província da Bahia. "Deixando o cargo público, dedicou-se à direção do seu colégio, onde experimenta os seus princípios pedagógicos", diz o texto.
O Ginásio Baiano, fundado por Abílio César Borges em 1858, sob o lema Mens sana in corpore sano (mente sã em corpo são, em tradução livre do latim), praticava a educação humanizada defendida por seu fundador, que incentivava exercícios físicos como parte essencial da formação dos alunos; assim como a oferta de disciplinas voltadas para a cultura e as artes. Entre as atividades realizadas no Ginásio Baiano, eram promovidos eventos literários e culturais, os "outeiros poéticos", onde estudantes e poetas renomados apresentavam produções artísticas. Entre os primeiros estava o adolescente Castro Alves. A alusão ao poema onde o estudante louvava seu mestre pela ausência de castigos corporais no Ginásio Baiano aparece em A TARDE, em reportagem sobre os 110 anos de nascimento de Castro Alves, em 14 de março de 1957.

As edições de A TARDE trazem muitas referências ao futuro Barão de Macaúbas. Uma delas descreve a rotina rígida dos alunos do seu ginásio, porque embora fosse contrário aos castigos físicos, era adepto de disciplina: "Cinco horas da manhã era hora de levantar. Pontualmente. Um quarto de hora depois, vestido, tendo arrumado a cama e lavado o rosto, o aluno devia estar na sala de estudo, onde, feita uma ligeira oração, estudava as lições do dia durante duas horas", detalha o jornalista Jorge Calmon, que foi diretor de redação de A TARDE e atuou no jornal durante mais de seis décadas, em artigo publicado na edição de 28 de novembro de 2000.
Pedagogia renovada
A nova pedagogia proposta por Abílio, explica Júlia Paranhos, tem em parte raízes na formação acadêmica inicial do educador em medicina. Foi nesse curso que ele entendeu a importância de cuidar e respeitar o corpo do outro. "O ato de não castigar o corpo foi revolucionário para a época, digo até que contra hegemônico, porque vínhamos de uma herança de muita violência do período colonial, principalmente por conta do escravismo, algo que estava impregnado na sociedade. Então, ser médico na formação do Abílio, sem sombra de dúvida, foi um diferencial na sua atuação na educação e no sucesso de seus estabelecimentos educacionais", afirma a historiadora.
Com a proposta pedagógica inovadora, Abílio defendia que o pleno desenvolvimento intelectual dependia também da valorização do corpo, por isso trabalhava a partir da formação respeitosa, em que o corpo do estudante deveria ser preservado e reconhecido como parte essencial da aprendizagem. "Ele dizia que os castigos físicos não levavam a lugar algum, apenas afastava os estudantes do amor às letras", diz Júlia Paranhos.
Entre os pais, a falta da palmatória nem sempre era bem-vista. Mas os estudantes adoravam. Além de Castro Alves, destaque nas letras, muitos ex-alunos de Abílio ocuparam cargos de destaque na Bahia e no Brasil, como Rui Barbosa (político, jurista e escritor), Aristides Spínola (advogado e político), Plínio de Lima (advogado e poeta), Cezar Zama (médico, político e escritor), Sátiro Dias (médico e político), Aristides Milton (magistrado, político e historiador) e Urbano Duarte (jornalista, cronista e dramaturgo), entre outros.
A ligação entre esses nomes vai além do mestre em comum: todos eles participaram ativamente do movimento abolicionista no século XIX. "Em minha tese, tento mostrar justamente como a perspectiva abolicionista era algo presente nesse e outros espaços de educação. Grandes nomes do abolicionismo no Brasil se formaram no Ginásio Baiano e foram alunos de Abílio. Com vários deles, posteriormente, ocupando cadeiras do próprio governo, a nível provincial e imperial. É notável o número de baianos que ocupavam cargos de poder pelo país naquele período, comandando ou tocando alguma pasta, ou mesmo influenciando alguma decisão política importante para o Brasil do século XIX", acrescenta Júlia Paranhos.
Professores geniais
Para educar essas mentes que se destacariam no país, era preciso ter professores potentes. Nos primeiros anos do Ginásio Baiano, por exemplo, se destacava a presença de Ernesto Carneiro Ribeiro, professor negro cuja atuação marcou profundamente a instituição. "Depois do Barão de Macaúbas, que renovara todo o ensino secundário da Província, floresceu uma geração de grandes educadores, que deixou marcados, até hoje, os seus discípulos, João Florêncio Gomes, Luiz da França Pinto e Carneiro Ribeiro, pela devoção à educação da mocidade, contribuíram sobremodo para que mantivesse a Bahia os seus forais de cultura. Para todos ensinar foi um sacerdócio", aponta A TARDE, na edição de 13 de setembro de 1939.
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O próprio Abílio circulava por espaços e territórios variados, inclusive no exterior, em busca de referências que pudessem melhorar o sistema educacional do Brasil. "Estamos falando de um período em que o país estava na transição de colônia para império; então, uma identidade nacional estava sendo criada e muitos acreditavam que essa plena formação de estado-nação viria através da educação, por isso se investia muito", explica a historiadora.
Em 1871, Abílio deixou a direção do Ginásio Baiano e mudou-se para o Rio de Janeiro. A gestão do colégio passou então para o cônego João Nepomuceno Rocha, que renomeou a instituição como Colégio São José. Em 1876, o colégio foi adquirido por João Florêncio Gomes, ex-aluno de Abílio, que lhe deu o nome de Ginásio São José. A instituição funcionou até 1914.
Morando no Rio de Janeiro, dono de uma comenda papal, a comenda da Ordem de São Gregório Magno, concedida a ele em 1867, pelo Papa Pio IX, e com o sucesso do Ginásio Baiano no histórico, Abílio fundou na capital imperial o Colégio Abílio da Corte. Da nova instituição também saíram estudantes célebres, como o escritor Raul Pompeia, um dos alunos com quem o educador teve divergências. "O próprio livro O Ateneu é um indício disso, com Pompeia fazendo uma espécie de autobiografia para poder retratar alguns traumas. Isso mostra que não é porque a educação era livre de castigos, que não havia problemas e divergências", explica Júlia Paranhos.
Em suas pesquisas, a historiadora descobriu documentos que apontam que o engenheiro, geógrafo, escritor e historiador santoamarense Teodoro Sampaio teria sido um dos professores do colégio Abílio da Corte. Onze anos depois de fundar a instituição carioca, o barão se mudou para a cidade de Barbacena, em Minas Gerais, onde instalou o Colégio Abílio de Barbacena. O título de nobreza veio em 1881. Pouco menos de um ano depois, em 3 de junho de 1882, o primeiro e único Barão Macaúbas foi elevado ao título de “Grande do Império”.
No mesmo ano, foi nomeado representante do Brasil no Congresso Pedagógico Internacional de Buenos Aires, graças a sua já conhecida fama no meio educacional. "Este era, indubitavelmente, o mais conhecido educador de seu tempo. Trinta anos de magistério consolidaram seu nome. Reformador como Pestalozzi, abolira a palmatoria e toda espécie de castigos corporais, mesmo para os alunos mais incorrigíveis", aponta A TARDE, em 5 de novembro de 1949, em a reportagem especial sobre Ruy Barbosa, um dos alunos ilustres do barão, que também publicou livros de gramática (português e francês), geografia, artes e alfabetização ao longo da carreira.

Entre eles, uma nova edição de "Os Lusíadas", de Luís de Camões, publicada em 1879, quando ele organizou e editou uma versão destinada às escolas brasileiras, na qual suprimiu estrofes consideradas impróprias para os estudantes do século XIX. "Ele foi um homem fantástico, mas a sua memória está pulverizada. Quando menciono o Barão de Macaúbas, muitos associam ao bairro de Salvador ou à cidade do interior. Falta espaço de memória e preservação que lhe deem a devida menção, por isso fico feliz quando sou convidada a falar sobre ele", afirma Júlia Paranhos.
A historiadora conta que a cada dia descobre algo novo sobre o barão, mas com muita dificuldade. "Abílio deixou um legado em Salvador: estava na ata de fundação do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, participou da Sociedade Libertadora em 7 de setembro, foi criador e fundador de instituições importantes. Na Cidade Baixa há uma escola que leva o nome dele e há até um busto dele ao lado do Colégio Central, próximo à entrada da Estação da Lapa, mas ninguém sabe que está ali, cercado de mato, esquecido. É preciso preservar essa memória, dar-lhe mais ênfase e cuidado, porque a história da educação baiana ainda tem muito a ensinar e revelar", garante.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE


