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A TARDE MEMÓRIA

Salvador sediou a primeira prova de rua da Stock Car Brasil há 17 anos

Mesmo sem tradição no automobilismo, evento na capital foi um dos mais importantes de 2009

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Carros desfilaram pelas ruas da Barra antes da corrida de Stock Car, que ocorreu em circuito montado no CAB
Carros desfilaram pelas ruas da Barra antes da corrida de Stock Car, que ocorreu em circuito montado no CAB - Foto: Marco Aurélio Martins/Cedoc A TARDE/7.8.2009

Salvador protagonizou um capítulo importante para o automobilismo brasileiro há 17 anos. Pela primeira vez, a Stock Car Brasil deixou os autódromos tradicionais para acelerar em um circuito de rua montado no Centro Administrativo da Bahia (CAB). O ano era 2009 e mais de 47 mil pessoas, o maior público da competição naquela temporada, acompanharam de perto a corrida que marcou também a chegada da Stock Car ao Nordeste. Dias antes da competição, a capital já estava rendida à velocidade e vibrava com os carros de alta potência e seus pilotos. Até desfile na orla da Barra teve.

O Grande Prêmio da Bahia (GP Bahia) da Stock Car fez parte do calendário da competição de 2009 até 2014. Na primeira edição em Salvador, a modalidade havia recém completado 30 anos e o novo circuito marcou uma mudança na categoria, pois foi o primeiro GP da Stock Car realizado em uma pista de rua. "Lembro muito bem que em 9 de agosto de 2009, quando foi dada a bandeirada de largada, eu e Carlos Col, o CEO da Stock Car, nos abraçamos na pista, na área dos boxes, e choramos", conta a jornalista especializada em automobilismo e responsável por trazer a corrida para Salvador, Selma Morais, que na época era a presidente da Federação de Automobilismo da Bahia.

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Ela conta que chorou porque "era a Bahia e o Nordeste fazendo o maior evento do automobilismo brasileiro". Já Carlos Col, diz Selma, chorou por ter conseguido convencer todos os pilotos e seus patrocinadores que o GP Bahia era viável. "Cada piloto tem uma equipe enorme por trás e convencer todas essas pessoas a virem correr numa prova de rua no Nordeste foi o maior desafio, porque ele tinha que mudar a imagem de que o Nordeste não era capaz de fazer isso. Ele vibrou quando conseguiu fazer a primeira etapa e disse que tudo havia saído muito melhor do que imaginava", recorda.

Carros da Stock Car durante os treinos no CAB antes da corrida na sexta etapa do GP de 2009
Carros da Stock Car durante os treinos no CAB antes da corrida na sexta etapa do GP de 2009 - Foto: Eduardo Martins/Cedoc A TARDE/8.8.2009

O traçado do CAB usado na criação do circuito, que em 2010 recebeu o nome de Circuito Ayrton Senna, tem cinco curvas e 2.774 metros de extensão. Naquele primeiro ano, ele passou por inúmeras modificações e ainda que não fosse perfeito, agradou público, pilotos e equipes. "Para se ter uma ideia da força e da beleza dessa prova, mesmo ela não tendo ponto de ultrapassagem, porque a pista era muito estreita, todos os pilotos que participaram amaram o circuito, as festas da Bahia, a receptividade do público; e queriam voltar. E voltaram por mais cinco anos consecutivos, até o encerramento do contrato. Esse foi o ponto mais emocionante para mim", afirma a jornalista.

Preparativos

Na semana da prova, dias antes da corrida que foi a 6ª daquela temporada, os pilotos cumpriram agenda em Salvador. Um dos eventos foi uma carreata promocional com quatro pilotos, entre o Farol da Barra e o Rio Vermelho. "As emoções reservadas ao GP Bahia de Stock Car, domingo, a partir das 11 horas, foram sentidas ontem na atitude coletiva de operários da construção civil, os quais interromperam as atividades e se debruçam nas janelas de um prédio em Ondina, de onde acompanharam a passagem da carreata da Stock Car", relata a edição de A TARDE de 7 de agosto de 2009.

Diego Freitas, que é baiano e foi quem desenhou o traçado da pista no CAB que convenceu a Stock Car a vir para Salvador, Daniel Serra, Paulo Salustiano e Ricardo Maurício foram os quatro pilotos que desfilaram na Orla. "A reação [dos operários] se repetiu entre estudantes, turistas, pessoas se exercitando e, inclusive, batedores da Polícia Militar. Enquanto fechavam as ruas para a passagem dos carros, os PMs aproveitaram para guardar imagens nos celulares e câmeras fotográficas", continua a matéria.

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Os veículos da carreata não eram os das corridas, mas similares e usados para divulgar a Stock Car. Outra oportunidade de ver as máquinas velozes de perto aconteceu em uma exposição onde dois carros ficaram disponíveis para a apreciação do público, em um shopping center, dias antes da prova.

Para apresentar a Stock Car aos baianos, A TARDE também promoveu em sua sede, na Avenida Tancredo Neves, um bate-papo entre leitores do jornal e os pilotos Max Wilson, Ricardo Maurício, Antonio Pizzonia e João Marcelo. "Sabe o que faz da Stock Car a categoria mais competitiva do país? Carros equipados com peças de um mesmo fornecedor, em que as mudanças são apenas alguns ajustes feitos pelas equipes. Essa e outras curiosidades foram discutidas durante o bate-papo realizado ontem, na sede de A TARDE", informa o jornal, na edição do dia 7 de agosto de 2009. No encontro, os pilotos falaram sobre a segurança da pista, o novo circuito de rua e suas expectativas para a prova.

"As expectativas são sempre as melhores, principalmente o primeiro ano que a gente vem para o Nordeste, para Salvador, uma pista de rua que também a gente nunca teve na Stock Car, então acho que a expectativa de todos os pilotos são as melhores. Então vamos ver, esperar que o tempo dê uma ajudada aí para todo mundo e amanhã a gente vai começar a treinar. Vamos ver o que a gente vai achar da pista, mas até o momento acho que o povo baiano está numa estrutura muito bacana e a pista é super legal", afirmou o piloto Ricardo Maurício, em entrevista à WebTV A TARDE, na época.

Carros da Stock Car durante os treinos no CAB antes da corrida na sexta etapa do GP de 2009
Carros da Stock Car durante os treinos no CAB antes da corrida na sexta etapa do GP de 2009 - Foto: Fernando Vivas/Cedoc A TARDE/8.8.2009

A curiosidade do público cresceu ainda mais durante os treinos livres, para que os pilotos conhecessem o circuito do CAB; e classificatórios, que definiram a ordem dos pilotos na largada. Os treinos eram fechados para o grande público, mas a população dava um jeito. "Salvador adora velocidade e o povo já entrou no clima da Stock Car. Tanto que, ontem, houve treino fechado ao público e muita gente se aglomerou nos alambrados e até em cima dos prédios do CAB para assistir às máquinas rodarem na pista", explica a edição do A TARDE Esporte Clube de 8 de agosto de 2009, véspera da corrida.

Desafios

A empolgação do público, mesmo entre quem não tinha interesse anterior pelo automobilismo, criou grandes expectativas para a prova baiana; e Selma Morais e sua equipe se empenharam para atendê-las. "Trazer a corrida para a Bahia foi muito complicado e difícil", afirma. Ela conta que foi em um evento da Chevrolet, em um jantar com o então diretor de comunicação no Brasil da marca norte-americana de automóveis, o jornalista Pedro Luiz Dias, que ele perguntou para Selma por que ela não levava a Stock Car para a Bahia. O primeiro ponto levantado por ela foi que não seria possível, já que não havia autódromo. E ele respondeu com um simples "isso é o mínimo, faz na rua".

Pedro Luiz Dias garantiu o apoio da marca se Selma trouxesse o Stock Car. "Voltei para Salvador alucinada. E falei com meia dúzia de pessoas de confiança sobre a ideia. Qual foi o resultado? Disseram que eu estava louca, que era um sonho inatingível", conta. Na época, a Stock Car já era um dos maiores eventos automobilístico do país, com 30 anos de existência e nenhuma prova de rua no histórico. Mas, aos olhos de Selma, a Bahia podia mudar isso. "Não foi fácil, mas eu trouxe pessoas da prefeitura de Salvador e do governo do Estado e demos o primeiro passo. Mas ainda precisava convencer a própria Stock Car, pilotos e patrocinadores", relata.

Selma então levou o pilota Diego Freitas e o empresário e piloto Dumas Marques para o CAB, para descobrir como eles poderiam transformar as vias do centro administrativo em um autódromo. Diego Freitas desenhou o traçado da prova e Selma o enviou para o CEO da Stock Car. Ele olhou, afirmou que era maravilhoso e perguntou onde era. "Quando eu disse que era em Salvador, ele enlouqueceu. A partir daí foi impressionante. Ele veio quatro vezes a Salvador, sempre em segredo, eu ia diretamente buscá-lo no aeroporto e o levava para o CAB, onde ele percorria todas as vias e prédios, olhando, medindo e perguntando para onde cada uma das ruas dava", recorda.

Com tudo mapeado, Carlos Col voltou para São Paulo e alguns dias depois mandou mensagem para Selma dizendo que se ela conseguisse convencer a prefeitura e o governo, a Stock Car viria para a Bahia. "Eu só pensei: Ai, meu amigo, não desafia baiano não, porque baiano é danado", brinca. Ela procurou os governos do município e do estado e recebeu grande apoio.

Com a corrida confirmada, tudo ficou um pouco mais fácil, mas ainda havia preocupações, pois a dúvida da Stock Car era se a Bahia tinha condições de preparar o autódromo. "Falei para eles que a gente preparava o maior Carnaval do mundo, como não íamos conseguir fazer um autódromo? E não deu outra. Toda a estrutura da Stock Car foi feita por empresas da Bahia: camarotes, arquibancadas, boxes, guardrails e as proteções de concreto ao longo de todo o circuito. Tudo foi feito de uma forma tão maravilhosa, que foi exportado depois para Ribeirão Preto, a segunda cidade no Brasil a ter uma prova da Stock Car de rua, e depois para São Paulo", recorda Selma.

Carros desfilaram pelas ruas da Barra dias antes da corrida de Stock, que ocorreu em circuito montado no CAB
Carros desfilaram pelas ruas da Barra dias antes da corrida de Stock, que ocorreu em circuito montado no CAB - Foto: Marco Aurélio Martins/Cedoc A TARDE/7.8.2009

O setor hoteleiro na época também ficou muito movimentado, com gente do Brasil inteiro vindo para Salvador por causa da corrida. "Financeiramente, a Stock Car foi uma maravilha para a Bahia. Foi injetado na Bahia cerca de R$12 milhões só em ISS (Imposto Sobre Serviços de Qualquer Natureza). Fora a injeção na hotelaria, na gastronomia, aeroporto, táxi. Foi uma movimentação financeira enorme ao longo das edições. A Stock Car também fazia algumas ações muito bonitas, como levar os carros para o Farol da Barra e para a Igreja do Bonfim, plantava árvores em vários pontos da cidade e diversas outras ações durante a semana de provas. Salvador viveu um belo momento no automobilismo na época da Stock Car", aponta Selma Morais.

O dia da corrida

Entre 2007 e 2009, o Grande Prêmio de Stock Car foi patrocinado pela empresa de telecomunicações Nextel, Então, o nome oficial da corrida em 2009 em Salvador foi Copa Nextel Stock Car. Essa era a corrida principal, que logo depois foi seguida pela Stock Jr., uma divisão para pilotos em formação. Na primeira corrida, vários pilotos baianos como Diego Freitas, Patrick Gonçalves e Máriozinho, participaram. "Eles foram fantásticos e aproximaram o público da Stock Car. O público vibrava muito com a participação dos pilotos da Bahia. Isso foi muito forte para o automobilismo da Bahia", diz Selma.

A edição de A TARDE do dia seguinte ao evento, 10 de agosto de 2009, noticiou que "a realização da Stock Car nas vias de Salvador foi um marco histórico para a categoria que, ontem, registrou seu maior público, 47 mil pessoas". Ao final do campeonato, que ainda teria os GPs no Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Paraná, Distrito Federal, Rio Grande do Sul e São Paulo, a Bahia se manteve em primeiro lugar no ranking de público. Cacá Bueno, o piloto que ganhou o GP Bahia, o único GP que ele alcançou o 1º lugar no pódio naquela temporada, foi o grande vencedor da Stock Car 2009.

Acompanhando de perto o desempenho do filho, o narrador esportivo Galvão Bueno estava no GP Bahia e pediu a vitória como presente de Dia dos Pais, que naquele ano foi celebrado exatamente no dia da corrida. "Após os 50 minutos de prova, lá estava Galvão na área reservada ao pódio. Emocionado, recebeu um abraço caloroso do filho e afirmou: 'Devemos isso a vocês baianos. É o axé da Bahia! Aqui tem uma energia especial'. Cacá rendeu homenagens ao pai e à mãe (Lúcia), que segundo ele, foi muitas vezes mãe e pai ao mesmo tempo. 'Tenho muito orgulho da família em que fui criado, dos pais que eu tenho. A vitória quando a gente ganha é de todos', disse Cacá", segundo registra a reportagem de A TARDE.

Cacá Bueno venceu o GP Bahia da Stock Car em 2009. Primeira prova de rua do evento de automobilismo
Cacá Bueno venceu o GP Bahia da Stock Car em 2009. Primeira prova de rua do evento de automobilismo - Foto: Marco Aurélio Martins/Cedoc A TARDE/9.8.2009

Para Selma, um dos principais legados que o GP Bahia da Stock Car deixou foi a capacidade do estado em realizar um evento daquele porte. "Um legado de competência, capacidade, força e garra dos baianos, algo inegável. Por outro lado, há a decepção, pois a gente não conseguiu fincar mais raízes e de fato desenvolver o automobilismo, mesmo tendo essa base tão forte. E isso me deixa muito triste, pois conseguimos traçar as primeiras linhas para construir um autódromo, kartódromo, pista de velocidade na terra, pista de motociclismo, pista de arrancada, e tudo isso ficou para trás. Mas é importante lembrar que a Bahia já teve isso", reflete Selma Morais.

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*Com as colaborações de Tallita Lopes e Olga Leiria

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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