Busca interna do iBahia
HOME > colunistas > A TARDE MEMÓRIA

A TARDE MEMÓRIA

Primeiros bebês de proveta da Bahia nasceram nos anos 1990

Desenvolvimento da fertilização in vitro permitiu que ciência ultrapassasse barreiras da biologia

Priscila Dórea*
Por Priscila Dórea*
Dra. Bela Zausner, uma das pioneiras em reprodução assistida na Bahia, Rosângela e Ronaldo, o primeiro bebê de proveta nascido na Bahia, em 1992
Dra. Bela Zausner, uma das pioneiras em reprodução assistida na Bahia, Rosângela e Ronaldo, o primeiro bebê de proveta nascido na Bahia, em 1992 - Foto: Cedoc A TARDE/6.3.1993

O primeiro bebê de proveta na Bahia nasceu em 1992, em Salvador. Um ano depois, cinco crianças já haviam sido geradas por fertilização in vitro (FIV) no Estado. O avanço científico que possibilitou esses nascimentos levou décadas e começou ainda nos anos 1920, mas os primeiros resultados no mundo só apareceram no final da década de 1970. Cientistas e médicos, também baianos, inclusive, contribuíram para essa revolução. No começo, parecia impossível e foi preciso muita pesquisa para que a ciência transcendesse a biologia e alterasse não só o que se entendia como infertilidade no passado, mas até mesmo o que se convencionou chamar de família.

"O primeiro bebê de proveta baiano nasceu ontem pela manhã, em Salvador, no Hospital Santo Amaro. Ronaldo da Silva Lima Júnior nasceu de parto cesariana e permaneceu todo o dia na unidade neonatal apenas por precaução. Filho da professora primária Rosângela Castro Lima, 30, e Ronaldo Silva Lima, técnico em engenharia, de 31 anos. [...] Tanto a criança como sua mãe passam bem, conforme garantiu a especialista Bela Zausner, única mulher na América Latina a coordenar um centro de Fertilização Assistida", explica a reportagem de A TARDE de 1º de julho de 1992.

Tudo sobre A Tarde Memória em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Bela Zausner foi pioneira da inseminação artificial na Bahia, lembra a ginecologista Isa Rocha, especialista em reprodução humana da clínica IVI Salvador: "Primeiro, tivemos o professor Elsimar Coutinho, que foi um grande cientista nessa parte de hormônios. Na parte de reprodução assistida, tivemos a doutora Bela Zausner. E, a partir daí, grandes centros de reprodução assistida começaram a se consolidar no estado. O Nordeste, assim como o Brasil, sempre teve a Bahia como referência em reprodução assistida", afirma.

Na reportagem de 1992, Bela Zausner, que morreu em 2024, falou sobre o quanto foi recompensador trabalhar em prol do nascimento de Ronaldo Júnior. Ela também revelou que chorou durante o parto da mãe do menino, Rosângela. Na época, a médica coordenava o laboratório Gênese, da Fundação José Silveira. Sete meses após a chegada do primeiro bebê, o centro já havia auxiliado aproximadamente mil mulheres em diferentes tratamentos de fertilidade. "Todos se sentem um pouco pai e mãe de Júnior, que ao visitar o laboratório promove uma festa, ficando de braço em braço”, diz outra edição de A TARDE, de 6 de março de 1993. A reportagem, na época, havia acompanhado os exames de rotina do bebê, então com 8 meses de vida.

Em 1994, a Bahia já tinha cinco bebês de proveta nascidos no estado, o quinto havia nascido no início de outubro de 1993. A TARDE noticiou o aniversário do bebê: "Luís Felipe Lima, está completando um ano de vida, uma data que vai ser comemorada pela família com uma grande festa. Os pais do garoto aproveitaram este mês para tirar férias e poder dedicar mais tempo aos preparativos", traz a edição do jornal de 16 de outubro daquele ano.

Primeiro bebê de proveta baiano saindo da maternidade em julho de 1992
Primeiro bebê de proveta baiano saindo da maternidade em julho de 1992 - Foto: Geraldo Ataíde/Cedoc A TARDE/4.7.1992

História e tabu

Apesar do enorme avanço científico representado pelos bebês concebidos por fertilização in vitro nos primórdios da técnica e da esperança para quem lidava com a infertilidade, até então, como se fosse uma fatalidade irreversível, o preconceito e as dúvidas eram inúmeros. Nos anos iniciais da FIV no Brasil, muita gente ainda questionava a segurança do procedimento e a saúde das crianças. As famílias enfrentavam de olhares curiosos a críticas religiosas.

Em 1982, o Vaticano criticou as pesquisas sobre FIV que avançavam rapidamente. "A Rádio do Vaticano criticou ontem o fenômeno dos bebês de proveta, afirmando que o desejo de ter filhos é admirável, mas que os cientistas se aventuram no terreno da moralidade. 'Tanto do ponto de vista moral como social é inaceitável que os embriões humanos sejam tirados de seu lugar natural e sejam congelados’ (...), disse a rádio, citando um documento de bispos australianos que 'se sentiram na obrigação de concluir que a fertilização de proveta é inaceitável'", noticiou A TARDE, em 3 de setembro daquele ano.

Apesar das críticas, com o tempo as famílias pioneiras se tornaram símbolo de coragem e resiliência. Ao mostrar que os filhos cresciam saudáveis e felizes, ajudaram a derrubar tabus e abriram caminho para que a FIV fosse reconhecida como um recurso legítimo da medicina reprodutiva.

A primeira criança de proveta do mundo, a inglesa Louise Brown, nasceu em 1978, e muita coisa mudou na FIV em quase cinco décadas. A técnica, por exemplo, deixou de ser um experimento ousado para se tornar um caminho para muitas pessoas que queriam conceber. No Brasil, Anna Paula Bettencourt Caldeira, nascida em outubro de 1984, foi a primeira criança brasileira e da América Latina a ser concebida por fertilização in vitro. Muito antes da britânica e da brasileira do Paraná, no entanto, já ocorriam pesquisas na área.

Luiz Felipe foi o quinto bebê baiano nascido por FIV nos anos 1990
Luiz Felipe foi o quinto bebê baiano nascido por FIV nos anos 1990 - Foto: Walter Carvalho/Cedoc A TARDE/13.10.1994

No início da década de 1920, os estudos sobre fertilidade deram os primeiros passos. Em 1923, o anatomista Edgar Allen e o bioquímico Edward Doisy identificaram o estrogênio; e, em 1929, o embriologista George W. Corner e o ginecologista Willard M. Allen, a progesterona. Nos anos seguintes, as pesquisas para reverter e tratar os casos de infertilidade cresceram no mundo e, na década de 1950, cientistas começaram a realizar os primeiros testes de FIV. Enquanto eles ocorriam, surgiam os primeiros medicamentos para aumentar a fertilidade, tendo como principal efeito a indução da ovulação.

Foi apenas em 1961 que, pela primeira vez, um oócito humano, gameta imaturo que se desenvolve nos ovários e depois se torna um óvulo maduro, foi coletado por laparoscopia. Quatro anos depois, em 1965, o fisiologista britânico Robert Edwards e os médicos norte-americanos Georgeanna Seegar Jones e Howard Jones realizaram a primeira experiência bem-sucedida de fertilização de óvulos humanos em placas de Petri.

Esse avanço abriu caminho para as pesquisas que culminaram no nascimento de Louise Brown em 25 de julho de 1978, em Oldham, no interior da Inglaterra. Os pais da menina faziam parte do grupo de pacientes atendidos por Robert Edwards e Patrick Steptoe, que haviam desenvolvido um novo protocolo de fertilização in vitro. Pelo pioneirismo iniciado nos anos 1960, Robert Edwards e Patrick Steptoe (de forma póstuma) receberam o Nobel de Medicina, em 2010.

Leia Também:

A TARDE MEMÓRIA

Simões Filho é tema de tese de doutorado nos 140 de seu nascimento
Simões Filho é tema de tese de doutorado nos 140 de seu nascimento imagem

A TARDE MEMÓRIA

Macaúbas, o barão que era contra o uso da palmatória
Macaúbas, o barão que era contra o uso da palmatória imagem

A TARDE MEMÓRIA

Salvador sediou a primeira prova de rua da Stock Car Brasil há 17 anos
Salvador sediou a primeira prova de rua da Stock Car Brasil há 17 anos imagem

Dificuldades vencidas

No Brasil, o primeiro bebê de proveta viria seis anos depois de Louise, em 7 de outubro de 1984. "Esse nascimento mostrou que o Brasil vinha muito bem na manipulação de gametas, apesar das dificuldades da época. Os laboratórios, muitas vezes, eram ajustados às salas cirúrgicas pré-existentes e a troca de ideias não era algo fácil. A comunicação ainda era muito ruim", acrescenta a ginecologista e especialista em reprodução humana Wendy Delmondes, que coordena o Centro de Reprodução Humana Mater Dei Salvador

Apesar dos obstáculos para o primeiro nascimento por FIV no Brasil, ele trouxe uma esperança real para quem sofria com a infertilidade, acrescenta a Dra. Wendy. "As pessoas viram que havia uma solução em seu próprio país. A infertilidade deixou de ser vista como uma fatalidade irreversível. E quando a gente foi além e teve o nascimento do primeiro bebê concebido pela FIV na Bahia, isso nos fez perceber que não precisávamos mais tanto dos centros de reprodução do Sudeste. Ficou claro que os laboratórios de reprodução assistida podiam ser replicáveis em outros estados", acrescenta.

Na atualidade, a reprodução assistida se tornou também uma alternativa para casais homoafetivos e mães solteiras por opção, sem falar nas ações de doação de óvulos e barriga solidária que muitas pessoas empreendem para ajudar outras. Debates éticos foram iniciados e ainda acontecem, pautando, inclusive, as questões legais. No Brasil, explica Wendy Delmondes, não há leis federais que regem a reprodução assistida, mas diretrizes e práticas regulamentadas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).

Antes dos desafios éticos, porém, vieram os técnicos, ainda nos primórdios da FIV no país. O principal era a baixa taxa de sucesso por embrião transferido, "em torno de 5%", segundo Wendy Delmondes. Para superar esse índice, era comum transferir vários embriões de uma só vez e recorrer a uma estimulação ovariana mais forte, o que contribuía para as gestações múltiplas e a síndrome do hiper estímulo. "Lembro que nos congressos de ginecologia e obstetrícia havia muitos debates entre especialistas em reprodução assistida e pediatria, pois as gestações múltiplas traziam grande impacto, sobretudo pela prematuridade. O que queríamos era realizar sonhos, mas sem os riscos”, diz.

Avanços

A ciência evoluiu e a reprodução assistida reuniu importantes marcos como a introdução da técnica de Injeção Intracitoplasmática de Espermatozoide (ICSI), em 1994, que injeta um único espermatozoide diretamente no óvulo. "Foi uma grande revolução na medicina reprodutiva, principalmente para os casos severos de infertilidade masculina. Em 2005, surgiu a vitrificação de óvulos, uma técnica de congelamento que mudou nossa prática. Lembro que, durante minha formação, sempre havia a expectativa em saber se o embrião descongelaria de forma eficaz. Com a vitrificação, passamos a alcançar taxas de recuperação superiores a 95%, tanto de embriões quanto de óvulos", acrescenta a ginecologista Isa Rocha.

Em setembro de 2004 foi realizado com sucesso o primeiro transplante de tecido ovariano após criopreservação, um procedimento que retira fragmentos do córtex do ovário, os armazena em baixas temperaturas e depois os reimplanta para preservar a fertilidade e a função hormonal. A paciente foi uma mulher belga que, após descobrir um câncer, congelou o tecido ovariano. Sete anos depois, ao reimplantar o material, deu à luz ao primeiro bebê vivo registrado a partir da técnica.

Equipe de médicos responsável pelo nascimento do primeiro bebê de proveta baiano
Equipe de médicos responsável pelo nascimento do primeiro bebê de proveta baiano - Foto: Carolina Azevedo/Cedoc A TARDE/30.6.1992

As mudanças desde a primeira FIV de sucesso foram inúmeras, aponta Wendy Delmondes: "Na transferência, nas orientações pós-transferência, na forma e no momento de fazer a estimulação ovariana. O congelamento de óvulos e embriões, por exemplo, permitiu não apenas que a gente realizasse estudos genéticos e cortou a necessidade de descarte de excedentes, mas também foi incrivelmente esperançoso para quem recebe o diagnóstico de câncer, pois com o tratamento da quimioterapia, há a possibilidade de perder a fertilidade”.

E tudo isso caminhou junto com mudanças sociais. Com o passar das décadas, cada vez mais mulheres passaram a postergar a gravidez, por exemplo. “Quando a formação da família é adiada, pode haver um prejuízo importante na função reprodutiva. Com a possibilidade de congelar óvulos, se tornou possível planejar melhor a maternidade e esse foi outro grande marco. Além disso, temos visto cada vez mais transferências de embrião único. Como hoje conseguimos congelar melhor os embriões, podemos descongelar e transferir apenas um por vez. Se não houver sucesso, recorremos aos outros que ficaram preservados, mantendo uma boa taxa de eficácia na transferência”, acrescenta a Dra. Isa Rocha.

As pesquisas e estudos sobre reprodução assistida continuam até hoje. "Falar de avanços tecnológicos em reprodução assistida atualmente é falar de inteligência artificial, que visa uma manipulação mínima tanto nos gametas quanto nos embriões já formados. Temos visto o desenvolvimento de softwares capazes de analisar e selecionar o óvulo e o embrião com maior probabilidade estatística de êxito", enumera Isa Rocha.

Atualmente, o Brasil já tem mais de 80 mil bebês nascidos por meio da reprodução assistida, segundo a Rede Latino-Americana de Reprodução Assistida (Redlara). Dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio), da Agência Nacional de Saúde (Anvisa), apontam que em 2025 foram realizados 62.997 ciclos de fertilização, 12,5% a mais que em 2024.

"Antigamente, um bebê concebido por FIV causava espanto. Hoje, ele é visto de forma muito mais natural e acolhedora, o que traz tranquilidade para quem passa pelo processo, pois não se sente sozinha nessa jornada. A medicina reprodutiva atualmente é vista como uma especialidade consolidada, segura e aceita. A reprodução assistida, assim como o próprio Conselho Federal de Medicina, acompanha as mudanças na dinâmica da formação das famílias brasileiras e segue abraçando-as", afirma Wendy Delmondes.

Reportagem anuncia: A Bahia já tem seu primeiro bebê de proveta

Download
3105.39kb

Crédito: Cedoc A TARDE/1.7.1992

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

fertilização in vitro

Relacionadas

Mais lidas