CONJUNTURA POLÍTICA
O palanque baiano de Flávio Bolsonaro
Confira a coluna Conjuntura Política desta segunda-feira


A campanha está lançada oficialmente desde ontem, e a primeira certeza que ela confirma é a repetição da equidistância presidencial calculada por ACM Neto, presente nos materiais de campanha, nos discursos de rua e na vinculação exclusiva à pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD), colega de partido de longa data. Foi, por sinal, a melhor "pergunta nacional" de todo o debate da Band na semana passada.
O cálculo do "tanto faz" repete o roteiro de 2022. Naquele ano, ACM Neto evitou erguer, de forma consistente, um palanque nacional próprio: Soraya Thronicke, candidata a presidente pelo União Brasil, terminou a corrida com 0,51% dos votos sem esforço visível dele para angariar votos na Bahia, enquanto Neto trabalhava para abrir espaço eleitoral a Ciro Gomes e ajudava a costurar a indicação da vice-prefeita de Salvador, Ana Paula Matos, para a vice de Ciro.
O embaralhamento do palanque presidencial busca criar uma faixa diversionista, uma zona de conforto entre Neto e o eleitorado lulista baiano, mas não apaga o lugar de Flávio Bolsonaro dentro do próprio palanque netista. Ainda em pré-campanha, o presidenciável do PL já anunciou apoio oficial a João Roma e a Ângelo Coronel, os dois candidatos ao Senado na chapa de Neto, e sinalizou publicamente que concentrará esforços para derrotar o PT no estado.
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Esconder Flávio será tarefa difícil. Primeiro porque o próprio candidato de oposição a Lula não pode abrir mão de fazer campanha no quarto maior colégio eleitoral do país, justamente onde precisa crescer em relação ao percentual que seu pai obteve na eleição passada. Segundo porque a estratégia de nacionalização trabalha na Bahia a favor do adversário: a imagem de Lula tende a se fundir com a campanha de reeleição de Jerônimo Rodrigues.
Os dados sugerem, ainda, que parte do eleitorado lulista das grandes cidades baianas fez um realinhamento pontual: votou em Rui Costa de forma consistente em 2014 e 2018, e caminhou com Neto em 2022. Com a disputa se nacionalizando, porém, a campanha de Jerônimo corre para reforçar a vinculação entre seu nome e o de Lula, movimento que pode atrapalhar os planos de ACM Neto de surfar na volatilidade eleitoral do lulismo.
A Quaest de julho sinaliza 57% de aprovação ao governo de Jerônimo, 62% de aprovação pessoal a Lula e 47% do eleitorado baiano dizendo que quer um governador lulista eleito em 2026. Qual aceno ACM Neto dispõe, então, junto a esse eleitorado? Nenhum, ao menos até aqui. A aposta do ex-prefeito e de sua coordenação de campanha é que o voto lulista pode dar meia-volta, apostando na incapacidade de Jerônimo de selar pactos e compromissos nas agendas de saúde e segurança pública. Tarefa difícil, quase impossível, mas é a única cartada que ACM Neto parece disposto a jogar.
*Cientista Político, Professor do Mestrado Profissional em Governança e Políticas Públicas (UNILAB) e pesquisador da UFRB. E-mail: [email protected].


