DIREITO E TRIBUTOS
Sua empresa está preparada para a Reforma Tributária ou apenas adiando decisões?
Confira a coluna Direitos & Tributos

A Reforma Tributária promete simplificar o sistema, reduzir distorções e trazer mais previsibilidade. Mas uma pergunta incomoda: se todo mundo sabe que a mudança está vindo, por que tantas empresas continuam adiando as decisões mais óbvias?
Talvez a resposta não esteja na complexidade da legislação. Esteja na forma como decidimos.
Por muito tempo, imaginamos que as empresas decidiam de forma essencialmente racional, pesando custos, benefícios e riscos. A economia comportamental desmontou essa ideia. Decisões também nascem de experiências anteriores, de receios e, sobretudo, do impulso de preservar aquilo que já conhecemos.
Dois conceitos explicam esse comportamento. O efeito dotação nos faz atribuir mais valor àquilo que já possuímos. O viés do status quo nos leva a preferir a situação atual, mesmo quando existem alternativas melhores.
Parece teoria de manual. Mas basta olhar para a Reforma Tributária para ver que não é.
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Durante décadas, empresas construíram processos, contratos, sistemas, cadeias logísticas e modelos de negócio moldados ao sistema tributário atual. Treinaram equipes para operar dentro dessa lógica. Parametrizaram tecnologias para essas regras. Agora, boa parte dessa estrutura precisa ser revista. E é exatamente aí que nasce a resistência.
Muitas empresas não estão adiando decisões por falta de informação. Estão adiando porque abandonar um modelo conhecido parece mais arriscado do que continuar nele.
Só que, desta vez, ficar parado também é uma decisão. E é a decisão mais perigosa de todas.
Enquanto uma empresa espera que todas as regras estejam definitivamente esclarecidas, a concorrente já está simulando impactos, revisando contratos, treinando equipes, ajustando sistemas, mapeando créditos e desenhando processos. Uma sai na frente. A outra corre atrás do prejuízo, no sentido literal da palavra.
Esse é um dos riscos menos discutidos da Reforma Tributária: o custo da inércia. E inércia, em matéria tributária, tem nome e sobrenome: passivo fiscal, perda de crédito, contrato mal calibrado, decisão tomada tarde demais para evitar o dano.
Ao longo desta coluna, tenho insistido que a Reforma Tributária vai muito além da troca de tributos. Ela alcança o fluxo de caixa, os contratos, a cadeia de fornecedores, a tecnologia, o valuation da empresa e a própria agenda da alta administração.
Mas existe algo anterior a tudo isso: a capacidade de decidir diante da mudança. E decidir, aqui, significa colocar o compliance fiscal no centro da estratégia, não como obrigação acessória, mas como condição de sobrevivência competitiva.
Por isso, a pergunta mais importante deste momento não é “minha empresa já entendeu a Reforma Tributária?”. A pergunta é outra: “quais decisões nós já sabemos que precisamos tomar, e continuamos empurrando com a barriga?”.
Esperar também é uma escolha. Em períodos de transformação, pode ser a escolha mais cara que uma empresa vai fazer. A Reforma Tributária deixou de ser uma discussão sobre tributos. Ela virou uma discussão sobre sobrevivência estratégica.
E estratégia não é apenas decidir para onde ir.
É ter a coragem de perceber, hoje, que o momento de começar a se mover já chegou.


