POLÍTICA & MEMÓRIA
Deputado baiano usou loteria para esquema e ganhou fama de sortudo
Coluna Política e Memória resgata história de João Alves


Todo mundo sempre sonhou em ganhar na loteria para resolver seus problemas financeiros, comprar uma casa de frente para o mar, vivendo de sombra e água fresca. Aparentemente, o deputado federal baiano João Alves de Almeida (m.2004) não ficou apenas na vontade, já que se tornou 'recordista' em premiações.
Pelo menos, foi essa a desculpa dada pelo parlamentar durante seu depoimento na histórica CPI do Orçamento, na década de 1990.
A coluna Política e Memória desta semana resgata um dos momentos mais lembrados dos conturbados anos 1990 na Câmara dos Deputados.
João Alves e longa trajetória na Câmara
João Alves de Almeida começou sua trajetória política pelo antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) pela Bahia, apesar de ser natural de Maceió, em Alagoas.
Seu primeiro mandato se deu em 1963, pouco antes do golpe militar do ano seguinte. De lá, só saiu na década de 1990, quando renunciou do cargo por conta do escândalo.
No início dos anos 90, pós-impeachment do presidente Fernando Collor, um novo escândalo balançou as estruturas da política. João Alves foi a peça central da crise, que teve como origem a Comissão de Orçamento da Câmara dos Deputados.
Na época, o parlamentar baiano atuava na condição de relator do colegiado, o que facilitou no seu papel dentro do futuro esquema de corrupção.
Os anões do orçamento
João Alves liderou o esquema dos 'anões do orçamento', que consistia no desvio de recursos do Orçamento para obras de assistência social (algumas geridas pelos próprios deputados).
O grupo, que recebeu o nome de 'anões' por conta do status político de baixa relevância em Brasília, se tornou alvo de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que ficou conhecida como CPI do Orçamento.
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Segundo noticiários da época, os 'anões do Orçamento' também mantinham acordos com empreiteiras para a inclusão de emendas parlamentares em obras. A cereja do bolo, no entanto, era a forma que o dinheiro era 'lavado'.
João Alves e a sorte na loteria
Apontado como líder do esquema de desvio de recursos do Orçamento da União, João Alves protagonizou um dos momentos mais lembrados da CPI, quando prestou depoimento rebatendo todas as acusações.
Para justificar o acúmulo de fortuna em pouco tempo, com uma movimentação 300 vezes maior que o seu patrimônio, o deputado baiano afirmou ter vencido mais de 200 vezes na loteria.
A fórmula, segundo João Alves, era 'divina'.
Depois que eu deixei esse tal de Orçamento, Deus me ajudou e eu comecei a ganhar dinheiro João Alves de Almeida
A tal sorte descrita pelo deputado não era nada além da tática de comprar uma série de bilhetes premiados na loteria para que pudesse lavar o dinheiro dos recursos desviados.
Em março de 1994, quando esteve prestes a ter seu mandato cassado, o parlamentar baiano renunciou ao mandato de deputado federal, em uma clara tentativa de evitar a perda dos seus direitos políticos.
Após a renúncia, o deputado não se aventurou mais pelas urnas, se aposentando da política. Em novembro de 2004, dez anos depois de deixar o Parlamento, João Alves de Almeida morreu, aos 85 anos.
A história, no entanto, sempre traz as aventuras e polêmicas do deputado 'sortudo' em período eleitoral.


