POLÍTICA & MEMÓRIA
Pra Frente, Brasil! Ditadura ‘abraçou’ futebol e interferiu nos rumos da Seleção
Confira a coluna Política e Memória desta semana


"Eu não escalo ministério e o presidente não escala time". A célebre frase do jornalista e treinador João Saldanha, no início de 1970, faz parte da tensão que culminou na sua demissão no comando da Seleção Brasileira às vésperas da Copa do Mundo, e retrata um período em que política e futebol, mais do que nunca, estiveram juntos.
Ainda sob o efeito da precoce eliminação para a Noruega na Copa do Mundo, a coluna Política e Memória desta semana volta até a década de 1970, nos chamados 'anos de chumbo' da ditadura militar, e explica a interferência da ditadura militar na maior paixão do povo brasileiro: o futebol.
João Sem Medo e Médici
Jornalista, técnico de futebol e militante comunista. João Saldanha assumiu a Seleção Brasileira em abril de 1969, sucedendo Aymoré Moreira, após um conturbado período do time, que havia fracassado na Copa do Mundo de 1966.
Em campo, a seleção correspondeu às expectativas, com uma campanha impecável nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, no México. Fora das quatro linhas, no entanto, João Saldanha, conhecido como 'João Sem Medo' por suas convicções políticas e seu perfil tido como 'combativo', ganhou um incômodo adversário: Emílio Garrastazu Médici.
Importante membro do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Saldanha virou uma dor de cabeça para os militares, que enxergavam no técnico uma ameaça ao regime e vigor no Brasil. O entendimento é de que o treinador usaria a projeção da seleção para denunciar os horrores da ditadura, com a existência de um dossiê com nomes de perseguidos políticos e desaparecidos.
Interferência da ditadura
A tensão entre Saldanha e Médici tomou proporções maiores com a tentativa de interferência do presidente nos rumos da Seleção Brasileira. Enquanto o técnico tinha seus favoritos, o ditador tentava impor seus gostos no time, a exemplo da convocação de Dadá Maravilha.
A utilização de Pelé, maior jogador brasileiro de todos os tempos, como uma ferramenta de promoção do país, a exemplo das honrarias após o milésimo gol do atleta, em 1969, em Brasília, também era um ponto de atrito entre treinador e ditadura.
Na tentativa de conter o movimento dos militares, Saldanha deu uma polêmica entrevista, no início de 1970. Na ocasião, perguntado sobre os 'pedidos' do presidente, o técnico 'barrou' as pretensões da ditadura.
Eu não escalo ministério e o presidente não escala time
João Saldanha, técnico da Seleção Brasil
A repercussão, no entanto, desencadeou uma crise que culminou na demissão do técnico em março, dois meses antes do começo do mundial no México.
Após a demissão de João Saldanha, Médici e os militares continuaram com o plano de intervenção no futebol brasileiro, participando do processo de escolha do sucessor do treinador.

O jornal A Tarde trouxe os detalhes do processo de escolha do novo técnico da seleção, às vésperas da Copa do Mundo. Na edição de março de 1970, o 'Centenário' dedicou um espaço falar da conversa entre o então ministro Jarbas Passarinho com o presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange.
"O Ministro Jarbas Passarinho, da Educação, no encontro que manteve ontem com o Sr. João Havelange, Presidente da CBD, autorizou que seja feita uma reavaliação nas condições físicas de alguns jogadores acusados pelo ex-técnico João Saldanha de estarem jogando doentes a contragosto da cúpula da CBD", diz trecho da reportagem do impresso.
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O escolhido foi Mário Zagallo, jogador campeão do mundo pela seleção em 1958 e 1962, acalmando os ânimos da ditadura.
Pra frente, Brasil!
Agora com as interferências da ditadura aceitas pela Seleção Brasileira, os militares usaram da campanha do tricampeonato para passar uma imagem de Brasil unido, mesmo com todos os problemas políticos que aconteciam no país naquele momento.

Sobre o mote 'pra frente, Brasil!', como cantava o jingle, a ditadura 'surfou' na popularidade do time comandado por Zagallo à beira do gramado, abafando os 'horrores' do regime.
Em campo, o Brasil respondeu à altura, vencendo a terceira Copa do Mundo. Os militares receberam a delegação campeã, no Palácio do Planalto.
Nos anos seguintes, a CBD continuou com seu processo de uso do futebol para promover o discurso de unidade no país, incentivando a criação de um campeonato nacional organizado e que passasse a ideia de integração.
A CBD foi extinta em 1979, após resolução da FIFA que previa a criação de uma entidade voltada apenas para o futebol, diminuindo também a influência da ditadura militar, já nos seus anos finais, nos rumos do esporte.


