TEATRO
Cia Favelinha chega a Salvador com espetáculos e batalha de dança
Turnê reúne apresentações e disputa nacional de dança no Pelourinho


Depois de passar por Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, a Cia Favelinha desembarca em Salvador nesta sexta-feira, 9, com a circulação nacional do projeto Favelinha na Estrada.
A programação reúne os espetáculos Gambiarra e Brinco de Ouro, apresentados no Teatro Jorge Amado, na Pituba, além da Disputa Nervosa Nacional, batalha de dança que acontece no sábado, 10, no Largo Tereza Batista, no Centro Histórico. Os ingressos podem ser obtidos através da plataforma da Sympla.
Criada a partir do Centro Cultural Lá da Favelinha, no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, a companhia utiliza linguagens como funk, passinho, capoeira, samba, vogue e rebolado para colocar em cena experiências das periferias brasileiras.
Nesta edição, o projeto percorre 16 capitais do país com dois espetáculos e uma competição nacional dedicada às danças do funk.
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A proposta, segundo o idealizador Kadu Anjos, é apresentar a produção cultural do Aglomerado da Serra e, ao mesmo tempo, estabelecer trocas com diferentes periferias brasileiras.
Para o diretor Léo Garcia, Gambiarra e Brinco de Ouro apresentam duas formas diferentes de construção artística dentro da mesma companhia. Enquanto uma das obras parte de uma referência dramatúrgica definida, a outra nasce da escuta e das experiências dos próprios intérpretes.
“Brinco de Ouro é um trabalho muito voltado aos indivíduos que participaram do processo criativo. Muita troca, muita escuta, minha observação a partir da imersão que eu fiz no Aglomerado da Serra e a organização do que os artistas queriam falar. ‘Gambiarra’ já vem de um ponto de referência que eu trago pronto”, explica o diretor.
Inspirado no livro O Amor é Marginal, de Thamara Selva, Gambiarra discute transformação, afetos familiares, religiosidade e memória. Para Garcia, um dos principais pontos da montagem é apresentar outras narrativas sobre a periferia para além daquelas construídas somente a partir da dor.
“Gambiarra fala da transformação de forma e função. O principal é a revolução a partir do amor: não colocar as nossas dores como a nossa única fala”, afirma. A dramaturgia também incorpora conhecimentos transmitidos pela tradição oral e coloca o funk como elemento central dessa narrativa.
Já Brinco de Ouro parte das experiências dos sete artistas envolvidos no processo criativo e se apoia no conceito de tempo espiralar desenvolvido pela pesquisadora Leda Martins. No palco, diferentes referências da cultura negra e periférica se encontram por meio da capoeira, do samba, do vogue, do passinho e do rebolado.

As particularidades das duas obras também aparecem na forma como foram construídas. Em Gambiarra, o diretor utiliza memórias familiares e cenas cotidianas como ponto de partida para a criação dos signos apresentados ao público. Em Brinco de Ouro, a dramaturgia nasceu principalmente da observação e da escuta dos artistas.
Periferias em diálogo
Salvador integra uma circulação que, entre 2026 e 2027, deve passar por 16 estados brasileiros. A presença em diferentes regiões, segundo os integrantes da companhia, também transforma as obras a partir do contato com novos públicos.
Para Léo Garcia, cada apresentação funciona como uma espécie de troca entre o território de origem do grupo e a cidade que recebe os espetáculos.
“A gente chega nos lugares não para conquistar, não para invadir, mas no sentido de pedir licença, pedir a bênção: ‘viemos de tal lugar, queremos trocar. A nossa gíria é essa, nosso movimento é esse. Como é que é o de vocês?’”, diz o diretor.
A intérprete Tiphany Gomes Rodrigues percebe essa aproximação especialmente quando a companhia encontra manifestações culturais diferentes das de Belo Horizonte. Para ela, apesar das particularidades de cada região, as experiências das periferias criam pontos de identificação.
“Por mais que cada estado tenha a sua cultura muito particular, o funk é o fio condutor dessa comunicação”, afirma. A artista cita ainda o contato com manifestações como o pagodão baiano e o brega funk durante a circulação.
Tiphany também destaca que levar a companhia para outras regiões amplia a dimensão do trabalho desenvolvido no Aglomerado da Serra.
“A gente entende que a mensagem que está levando não é só sobre a Favelinha, não é só sobre a Serra. A gente acaba sendo porta-voz de muitas pessoas ao redor do país”, afirma Tiphany.
Essa ocupação de novos espaços ganha outra dimensão ao chegar aos teatros.
Segundo Crizin, intérprete e responsável também pela tradução em Libras integrada aos espetáculos, em alguns dos equipamentos visitados durante a circulação aquela foi a primeira vez que o funk ocupou o palco.
“Levar a cultura periférica para lugares onde ela nunca tinha entrado antes é histórico”, afirma. Para ele, a experiência de circular também fortalece a formação artística do grupo e amplia o contato com diferentes realidades culturais do país.
Acessibilidade em cena
A acessibilidade também faz parte da própria construção artística das apresentações.
Os espetáculos contam com audiodescrição e tradução em Libras, mas, no caso desta última, o intérprete não permanece isolado na lateral do palco. Crizin participa das coreografias junto ao elenco, incorporando a Libras aos movimentos e à dramaturgia.
“A acessibilidade aqui não é um recurso no canto do palco, é a Libras com estética na própria cena. Tirar o intérprete da lateral e colocá-lo no meio do elenco, integrado à dança, ao funk e ao ritmo, transforma o espetáculo em algo praticamente bilíngue”, explica.
Segundo Kadu Anjos, o projeto também oferece audiodescrição por meio de recurso digital e estrutura voltada a pessoas com mobilidade reduzida. A intenção é fazer com que os diferentes recursos estejam integrados à experiência do público.
Para Crizin, que é CODA – sigla utilizada para filhos ouvintes de pais surdos –, a presença da comunidade surda nas apresentações tem sido um dos pontos marcantes da circulação.
Ele afirma que a integração entre Libras e dança também modifica a maneira como essas pessoas acompanham o espetáculo. “Mais do que incluir, isso desperta identificação e desejo de ocupar a arte. Hoje já vemos surdos querendo dançar, rimar e produzir”, afirma.
Programação
A passagem da Cia Favelinha por Salvador começa nesta sexta-feira, 9, no Teatro Jorge Amado, na Pituba. Às 18h30, o grupo apresenta Gambiarra, montagem que combina danças do funk, manifestações populares, audiovisual e artes visuais para falar de afeto, religiosidade, memória e transformação.
Na sequência, às 20h, sobe ao palco Brinco de Ouro. Com sete artistas em cena, o espetáculo reúne diferentes referências afro-diaspóricas e linguagens das periferias urbanas, entre elas capoeira, samba, vogue, passinho e rebolado.
Os dois espetáculos têm duração de 60 minutos, classificação indicativa de 16 anos e ingressos a partir de R$ 5.
No sábado, 10, a programação deixa o teatro e ocupa o Largo Tereza Batista, no Centro Histórico.
A partir das 16h, acontece a Disputa Nervosa Nacional, competição voltada às danças do funk que reúne artistas de diferentes regiões do país. A participação é gratuita, mediante inscrição prévia.
Favelinha na Estrada
Gambiarra
- Data: sexta-feira, 9
- Horário: 18h30
- Onde: Teatro Jorge Amado (Av. Manoel Dias da Silva, 2177 – Pituba)
- Ingressos a partir de R$ 5 (Sympla)
Brinco de Ouro
- Data: sexta-feira, 9
- Horário: 20h
- Onde: Teatro Jorge Amado
- Ingressos a partir de R$ 5 (Sympla)
Disputa Nervosa Nacional
- Data: sábado, 10
- Horário: 16h
- Onde: Largo Tereza Batista (Pelourinho)
- Entrada gratuita
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.


