Juliana Ribeiro lança Preta Brasileira, disco em que reafirma o lugar da mulher negra e artista

Publicado sábado, 12 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 11/06/2021, 22:56 | Autor: Eugênio Afonso

Quando se fala na nova geração de sambistas baianas, quer dizer, nem tão nova assim, afinal já lá se vão 20 anos de carreira, a soteropolitana Juliana Ribeiro é, sem dúvida, um dos nomes de ponta. Em janeiro do ano passado, a cantora fez, no Teatro Castro Alves (TCA), afinal ainda vivíamos tempos pré-pandêmicos, o show Preta Brasileira, um pré-lançamento do disco que estaria por vir.

Logo em seguida, mais precisamente em março, a pandemia chegou entre nós e estacionou todos os projetos culturais. Agora, mais de um ano depois, a também compositora e historiadora baiana, acaba de lançar, nas mais prestigiadas plataformas virtuais de música, seu segundo disco: Preta Brasileira – Estúdio Vivo.

“O disco tem o propósito de desaguar uma série de composições que estavam guardadas na gaveta e precisavam sair. Um ponto de vista diferente, uma leitura social, uma forma de se expressar que faz parte do cotidiano da mulher preta brasileira que muitas vezes não encontrava lugar na canção. Afirmar cada vez mais esse lugar de mulher negra artista”, conta Juliana.

Gravado em Massarandupió, praia baiana do litoral norte famosa pela prática do naturismo, o álbum chega recheado de canções autorais e de renomados compositores nordestinos, como Gerônimo, Roque Ferreira, João do Vale e Riachão, padrinho musical da artista.

“O álbum só tem canções em que a mulher é protagonista de sua história. A multiplicidade feminina faz parte do disco. Não tem nenhuma música onde um homem descreve a mulher. São elas que estão falando a partir do seu próprio lugar de fala. Tem a religiosidade, a raiva, o amor e a entrega femininas”, contextualiza a cantora.

Claves afro-atlânticas

Com sonoridade da diáspora africana, do samba, do jazz, além dos ritmos latinos, o álbum tem 11 músicas. A que dá nome ao disco foi composta depois da artista ter participado do documentário Go Brazil Go, do cineasta estadunidense Spike Lee, em 2014.

“Esses 20 anos de carreira foram de muita descoberta e muitos aprofundamentos, e esse disco é um grande guarda-chuva para as minhas próprias composições, aspirações, intrigações”, relata Juliana.

Outra canção, a autoral Dragão de Gaudí conta com participação especial da também baiana Vânia Abreu e tem trompete nos arranjos em uma clara influência da cantora nigeriana Sade Adu, que estourou em 1984 com a icônica Smooth Operator.

Tem ainda Rainha Ginga, composição de Juliana em parceria com Lia Chaves, que reverencia a lendária diva negra do samba Clementina de Jesus, e Ella, uma ‘chula-jazz’, também autoral, sobre matriarcas, sambadeiras e ialorixás.

Canções inéditas de grandes nomes nacionais, como Roque Ferreira, foram compostas especialmente para o álbum, como a chula corrida Lindomar e Mulher: Pessoa que Fala, com o luxuoso piano do músico e ator Fernando Marinho e a sanfona de Cicinho de Assis.

Do padrinho musical vem Panela no Fogo, e de Gerônimo, Lapa e Vevé Calazans tem Bela Oxum, uma canção que Juliana ganhou de presente quando estava grávida da filha Sonora, hoje com um ano. A faixa Pra Matar Preconceito, de Raul Di Caprio e Manú da Cuíca, lembra um samba funkeado.

E o disco ganha ainda Sonora, canção feita pelo músico e professor César Batista, marido da cantora, e a emblemática Carcará, clássico de João do Vale e José Cândido.

“Sabia que tinha que fazer outra releitura de Carcará, ainda mais algo que Bethânia cantou, tem que ser feito de outra forma. Aí o arranjo traz esse cheiro de Cuba, essas claves afro-cubanas”, detalha a cantora, sempre observando que esse é um disco em que predominam os ritmos das claves afro-atlânticas, mas também é de samba.

Contemporâneo e pulsante

E mesmo não conseguindo acompanhar mais de perto, como gostaria, o trabalho da nova geração de artistas baianos, Juliana é fã do pessoal que tem chegado com novas propostas musicais.

“Acho genial essa geração de 20 anos, acho maravilhosa. É uma galera que já vem com o pé na porta, não pede licença, simplesmente vai lá e faz. É uma liberdade conquistada que veio de outras gerações”, acredita a compositora.

Para ela, a música está surgindo com uma outra linguagem e é importante que as pessoas estejam desarmadas para ouvir esses novos trabalhos. “O novo, o diferente precisa ser escutado acima de tudo, e tem coisas muito boas e representativas. Tem um lugar aí musical de fala, contemporâneo, bonito, pulsante que nos representa, a todos e todas nós”, finaliza a cantora.

Com direção musical de Marcus Bezerra, Preta Brasileira – Estúdio Vivo tem apoio do Estado da Bahia, através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia, via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, governo federal.

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