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MULHERES REAIS

Quem foi Maria antes de virar santa? Peça revisita história da mãe de Jesus

Premiado espetáculo sobre Maria de Nazaré chega a Salvador nesta sexta-feira

Eugênio Afonso
Por Eugênio Afonso
Espetáculo ‘Em Nome da Mãe’ revisita Maria de Nazaré sob olhar feminino
Espetáculo ‘Em Nome da Mãe’ revisita Maria de Nazaré sob olhar feminino - Foto: Divulgação | Elisa Mendes

O mais emblemático símbolo feminino da milenar cultura judaico-cristã está na pauta do dia. Maria de Nazaré é o cerne da narrativa do premiado espetáculo teatral Em Nome Da Mãe.

Protagonizado pela atriz mineira Suzana Nascimento, 48, que também assina dramaturgia e concepção, o monólogo entra em cartaz amanhã, às 20h, para uma curta temporada, no Teatro Sesc Casa do Comércio.

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A montagem propõe novas leituras sobre uma história profundamente enraizada na cultura ocidental e revisita a trajetória da mãe de Jesus sob uma perspectiva feminina, humana e contemporânea.

“O propósito é falar da nossa sociedade, principalmente no que diz respeito às mulheres. A partir da história de Maria de Nazaré, que é uma figura icônica, emblemática, tão antiga e mítica, o espetáculo traça paralelos com a nossa realidade de hoje”, conta Nascimento.

“Investiga comportamentos e hábitos que perduraram ao longo do tempo e como nós, ainda hoje, sentimos os danos da força do patriarcado sobre o feminino”, complementa a intérprete.

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Sociedade patriarcal

Com direção da atriz e diretora paulistana Miwa Yanagizawa, 61, Em Nome da Mãe é inspirado na obra homônima do escritor italiano Erri de Luca e propõe uma reflexão sobre a condição feminina e as estruturas patriarcais que atravessam séculos de história.

“A história de Maria funciona como ponto de partida para pensar sobre mulheres de diferentes épocas, suas escolhas, seus corpos, seus medos e sua autonomia”, exemplifica Miwa.

Em cena, a protagonista Maria de Nazaré toma a palavra e conta sua íntima e árdua jornada durante a gestação. Aqui, ela deixa de ser apenas símbolo religioso para assumir o papel de narradora da própria história.

A ideia é humanizar uma das figuras mais míticas do imaginário ocidental, – até porque muito antes de ser declarada santa existiu uma mulher de carne e osso –, contando a história de uma adolescente pobre, noiva e grávida fora do casamento, vivendo em uma sociedade patriarcal e conservadora em que mulheres acusadas de adultério eram condenadas ao apedrejamento.

Imagem ilustrativa da imagem Quem foi Maria antes de virar santa? Peça revisita história da mãe de Jesus
Foto: Divulgação | Julio Ricardo

“Então, é também desromantizar a história que foi construída sobre ela para que a gente possa enxergar a humanidade presente nessa mulher e perceber como a opressão que pode ter sido exercida sobre ela continua, de outras formas, sobre as mulheres até hoje, em 2026”, ressalta Suzana.

“É um espetáculo que exalta a figura feminina, mas que convida os homens a participarem dessa discussão. Não é um ataque aos homens. É um espetáculo que mostra o que nós podemos fazer também por uma sociedade mais igualitária entre gêneros”, alinhava.

Narrativa secular

Ao trazer para o palco a voz daquela que, ao longo dos séculos, foi reconhecida como santa e tentar humanizá-la, Suzana confessa que teve medo de estar mexendo em vespeiro.

“Mas é incrível como o espetáculo tira Maria do campo da questão religiosa e traz a Maria humana. A peça não está questionando a figura de Maria. Ao contrário: está defendendo essa figura, porque, claramente, existe um apagamento. E a gente está aqui para mostrar a força dela e como podemos trazer essa força à tona. Então, as pessoas que assistem à peça, inclusive as mais religiosas, saem muito felizes”, reconhece a atriz.

“Se você pensar, Maria tem seis falas na Bíblia. São só seis falas. E nenhuma parte das Escrituras Sagradas descreve o que ela sentiu de verdade diante de tudo que aconteceu, inclusive diante da morte do filho. Nenhum lugar se aprofunda nessa humanidade dela”, arremata.

Maria de Nazaré é, na peça, uma adolescente que poderia ser uma garota dos dias de hoje. “É uma menina que recebe uma missão e que, por isso, tem a vida completamente transformada. É obrigada a viajar no seu nono mês de gestação e a parir sozinha em outra cidade, num estábulo para animais, sem o mínimo de saneamento básico. E não há nenhum romantismo na vida dessa menina na peça”, destaca Suzana.

Em Nome da Mãe quer, através da figura da virgem Maria, estabelecer conexões entre uma realidade vivida há mais de dois mil anos e questões ainda presentes na contemporaneidade.

Para a atriz, a conclusão que se chega é a de que essa Maria que todos conhecemos é uma Maria criada por homens. “Então, a peça vem justamente olhar para essa Maria sob o ponto de vista íntimo, humano e feminino e não santificado, materno simplesmente e a partir do olhar masculino”.

“Apesar de ela ser tão venerada, ela está sempre abaixo. Ela não faz parte da Santíssima Trindade, por exemplo. A Santíssima Trindade é o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Ela sofre um apagamento como mulher sujeito. Então, a peça conclui que é preciso falar sim, de uma mulher como ela, porque assim como ela, tantas e tantas mulheres pelo mundo também sofreram apagamento e continuam sofrendo opressões”.

Artista completa

No espetáculo, Suzana – premiada como Melhor Atriz na FITA – Festa Internacional de Teatro de Angra dos Reis – vive três dimensões dessa mulher: a jovem Maria, que enfrenta os desafios da gravidez; a anciã, carregando memória e sabedoria ancestral; e a mulher contemporânea que lida com dilemas e conquistas do presente.

Miwa garante que o público vai ver uma interpretação magistral, épica e íntima ao mesmo tempo.

“Suzana narra e vive uma história conhecida por todos, porém, sob uma nova perspectiva. O público vai acompanhar a jovem Mirian (Maria, mãe de Jesus) assumindo a palavra e contando sua própria trajetória. Um espetáculo surpreendente e reflexivo que emociona e faz rir”, diz.

E diz ainda que Suzana é fabulosa. “Uma das melhores atrizes de sua geração, uma artista completa: atua, escreve, faz comédia, drama, tragédia, conta causos como ninguém e também dirige. Um presente poder dirigi-la porque, além dela possuir inúmeros recursos artísticos, sua relação com o ofício é de quem coloca a vida e a arte sempre em diálogo, algo que eu prezo demais”, finaliza.

Em Nome Da Mãe vai muito além da religiosidade e investiga as relações entre essa narrativa milenar e a sociedade atual, expondo, por exemplo, alguns comportamentos machistas que persistem até os dias de hoje.

Em Nome da Mãe / 25, 26 e 27 de setembro / Sexta e sábado: 20h, Domingo: 17h / Teatro Sesc Casa do Comércio / R$ 140 (inteira) e R$ 70 (meia), mezanino: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia) / Vendas: Sympla e Bilheteria do Teatro

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