O TCA VOLTOU
Reabertura do TCA é marcada por sincretismo cultural e identidade
O Teatro Castro Alves foi reaberto nesta quarta, 1°, após mais de três anos de portas fechadas


O coração cultural da Bahia voltou a pulsar oficialmente na noite desta quarta-feira, 1º. Após três anos e meio de portas fechadas devido ao incêndio na cobertura em janeiro de 2023, a Sala Principal do Teatro Castro Alves (TCA) foi devolvida à sociedade totalmente requalificada, em uma cerimônia que reuniu a classe artística e autoridades políticas no Campo Grande, em Salvador.
Fruto de um investimento maciço de R$ 260 milhões do Governo do Estado, o complexo reabre sob o conceito de "operação assistida", uma fase de testes técnicos que não impedirá o fluxo de espetáculos, entregando um equipamento com padrão internacional guiado por eixos de acessibilidade, restauro, sustentabilidade e segurança.
A cerimônia de reabertura, além de contar com estrelas da cultura baiana, registrou a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), da ministra da Cultura, Margareth Menezes, do governador Jerônimo Rodrigues (PT), além de diversas autoridades do Estado.
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História preservada
Jerônimo Rodrigues celebrou a conclusão da principal etapa de modernização do complexo, que também requalificou o Centro Técnico e as áreas dos corpos estáveis. Segundo o governador, mesma com a reforma, o TCA manteve a identidade que marcou a vida de diferentes gerações e irá ser um impulsionador da economia criativa na Bahia.
“Estamos entregando um teatro preparado para o futuro, sem perder a história. É um investimento que preserva um patrimônio do povo baiano, impulsiona a economia criativa, gera emprego, movimenta o turismo e garante que a Bahia continue ocupando um lugar de protagonismo na produção cultural do Brasil", comentou o governador.

Arquitetura moderna
Para o secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, o novo TCA consegue preservar sua histórica arquitetura moderna ao mesmo tempo em que salta para a vanguarda tecnológica, com um refinamento acústico assinado pelo escritório de José Augusto Nepomuceno.
“Agora, no final da nossa gestão, a gente entregar esse Teatro completamente modernizado, voltar a esse mesmo espaço agora para entregá-lo totalmente modernizado, é uma satisfação muito grande, que com certeza vem para agregar nessas minhas memórias que já são muito fortes e muito marcantes aqui do TCA”, afirmou Bruno Monteiro em A TARDE.
Não tenho como não lembrar do último momento que eu tive na sala principal, antes do incêndio, no dia 6 de janeiro de 2023, quando eu recebi o cargo de secretário de cultura. Foi um momento muito importante, um momento em que eu me apresentei pra classe artística, para a comunidade, para a população baiana, com o nosso programa de trabalho e 19 dias depois houve um incêndio e nós iniciamos todo esse processo
Bruno Monteiro - Secretário de Cultura do Estado da Bahia
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, também pontuou a tecnologia envolvendo a acústica e elogiou o projeto arquitetônico do TCA. Falando também enquanto artista, a cantora classificou o Teatro Castro Alves como um “palco sagrado de transformação”.
“Estamos recebendo uma jóia, porque olhando as paredes, o que foi feito aqui nesse Teatro Castro Alves, a nível de acústica, a nível de acomodações, a nível de espaço para a realização de ensaios, é imenso, é maravilhoso, é diferenciado. Com imenso orgulho e emoção que estou aqui hoje, participando como artista, como ministra da Cultura. Para nós, profissionais da arte e da cultura, o palco é sagrado, é o espaço de transformação, é um espaço onde a gente consegue fazer uma mudança da energia, do clima, para nós e para quem nos assiste”, ressaltou a ministra.
A solenidade
A reabertura do TCA trouxe referências dos quatro cantos do território baiano. Do Recôncavo ao Sertão, do Sul ao Oeste — a cultura do estado foi exposta como ela é: um sincretismo cultural que faz a Bahia ter uma identidade única e ser, de fato, a Bahia.
Conduzida pelo ator Jackson Costa, o início da solenidade fez referências às matrizes africanas, trazendo o espetáculo “ O Candomblé da Barroquinha”, além do cordelista e repentista, Mestre Bule Bule, que deu um show de improviso.

"Fazer teatro é um exercício de estar juntos. Então, sejamos gente juntos. O tempo agora passando aqui, você percebe? Este é o momento em que a obra se faz. O silêncio. A luz. A trilha sonora. O que é arte? Não é arte um artista sozinho. Esse palco reabre para abraçar o nosso tempo. Estamos em casa, sejamos gente juntos. Hoje, o TCA retorna, em berço e manifesto. Viva ao teatro da Bahia”, recitou Jackson Costa.
Renascimento
Não poderia haver palco mais simbólico para o reencontro da Bahia com sua própria identidade. Cinquenta e sete anos após o antológico show Barra 69, que marcou sua despedida e a de Caetano Veloso antes do exílio imposto pela ditadura militar, Gilberto Gil retornou à Sala Principal do TCA como a grande voz do espetáculo que marcou a reabertura do espaço.
E se o tempo é rei, na voz do grande mestre ele também pode e deve ser “A paz”, canção que abriu a apresentação de Gil ao lado da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba).
Emocionado diante da plateia, Gil reviveu sua conexão com o teatro, ao qual chamou de “fênix”, ao pontuar o valor do renascimento do equipamento, que já foi atingido por três incêndios.
“Essa é a terceira vez que essa casa é obrigada a se refazer, se restituir. Queimou três vezes, mas estamos aqui, as cinzas, como uma fênix, renascendo das cinzas. Viva ao Teatro Castro Alves!”, celebrou.
Em noite recheada, os anfitriões do TCA, a Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), e o Balé Teatro Castro Alves (BTCA), receberam o público em uma performance conjunta emocionante, que uniu música e dança.

Logo depois, o palco também foi abençoado por Lazzo Matumbi, que entregou o TCA ao sagrado que rege a Bahia nas canções “Sou de Nanã Ewá” e “É D'Oxum”.
Outra participação especial foi a de Virgínia Rodrigues, em apresentações viscerais de “O Canto de Ossanha” e “Yáyá Massemba”. Para a artista, “o palco do TCA é o mais importante da Bahia”. A presença feminina ganhou ainda mais força com a potência de Sued Nunes.
“Momento emblemático na história da nossa cultura. Eu sou uma semente de tudo o que esse palco plantou, do que floresceu nessa nova geração”, afirmou ela.
Em uma verdadeira “Anunciação” das boas novas, Simone se juntou a celebração e também fez questão de agradecer aos trabalhadores da obra.
“Quero pisar muitas vezes mais nesse palco. Fico feliz pelo momento que a gente está passando. Muito obrigada a todos que vestiram a camisa e suaram, a plateia será dos trabalhadores que construíram esse teatro”, declarou.

A solenidade teve direção artística de Elísio Lopes e direção musical do maestro Carlos Prazeres e de Manno Góes.
Novo TCA
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Teatro Castro Alves passou por ampla modernização, com restauração das fachadas, requalificação da Sala Principal e do foyer histórico, implantação de novos sistemas de iluminação, sonorização e mecânica cênica, ampliação da acessibilidade, construção do Edifício Lâmina, além da atualização dos sistemas de segurança, infraestrutura e sustentabilidade.
A acessibilidade é um dos destaques da requalificação. Um novo edifício anexo garante circulação autônoma por todos os espaços do complexo, além da implantação de lugares reservados para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.
O teatro passa a contar ainda com cabines para audiodescrição, interpretação em Libras e estrutura para legendagem simultânea. Já as ações de sustentabilidade incluem sistema de captação de águas pluviais, iluminação em LED e reaproveitamento de materiais utilizados durante a obra.


