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DIA DAS CRIANÇAS

Salvador recebe encontro gratuito sobre infância e direito de brincar

Evento reúne educadores, artistas e pesquisadores neste sábado, 10

Maiquele Romero*
Por Maiquele Romero*
Meg Azevedo pretende recorrer a um repertório capaz de despertar lembranças de infância
Meg Azevedo pretende recorrer a um repertório capaz de despertar lembranças de infância - Foto: Zeza Maria

Brincar, criar, experimentar e descobrir o mundo fazem parte das experiências que atravessam a infância. Para discutir o espaço que essas vivências ocupam na formação das crianças e o papel dos adultos nesse processo, a Inovarte realiza, neste sábado, 10, o 1º Encontro da Cultura da Infância, no Espaço Boca de Brasa Cajazeiras.

O evento gratuito reúne educadores, artistas, pesquisadores e profissionais que atuam com crianças para refletir sobre a pergunta “Que infância queremos cultivar?”.

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A “Inovarte - Educar para Ser Humano”, iniciativa que atua com formação e projetos voltados à infância, aproximando educação, arte, cultura e desenvolvimento humano, criou o encontro a partir da experiência nas escolas com a percepção de uma sobrecarga entre professores diante da quantidade de métodos e expectativas que envolvem o trabalho com a infância.

Segundo Filipe Lima, pedagogo, psicopedagogo, artista e fundador da instituição, esse cenário pode fazer com que o foco na criança seja deixado em segundo plano.

“Antes de olharmos para o método, primeiro precisamos olhar para a criança”, afirma Filipe. Para ele, o desenvolvimento precisa ser compreendido como um processo que envolve experiências como brincar, criar, explorar e experimentar. “Precisamos falar sobre o direito da criança de viver sua infância, sem tanta pressa de antecipar etapas e transformar cada experiência em desempenho ou resultado”, comenta.

Por isso, a programação do evento foi organizada para que a reflexão aconteça também por meio da experiência. Depois do credenciamento, café de boas-vindas e acolhimento musical, Filipe apresenta a proposta do encontro.

Filipe Lima (pedagogo, psicopedagogo, e artista)
Filipe Lima (pedagogo, psicopedagogo, e artista) - Foto: Divulgação

Em seguida, a cantora, multi-instrumentista, arranjadora, compositora e professora baiana Meg Azevedo conduz uma experiência com canções que atravessaram diferentes gerações.

Depois, o encontro volta-se ao brincar com a participação de Miriam Teles von Hauenschild, pedagoga, educadora e fundadora da Escola Acalento, instituição pioneira na prática da Pedagogia Waldorf na Bahia.

Criada pelo filósofo austríaco Rudolf Steiner em 1919, a abordagem busca o desenvolvimento integral do ser humano a partir das dimensões do pensar, sentir e querer.

Miriam Teles von Hauenschild, pedagoga e educadora
Miriam Teles von Hauenschild, pedagoga e educadora - Foto: Arquivo Pessoal

A música e o mundo

Com mais de 40 anos de carreira nos palcos e quase quatro décadas de atuação como professora de canto e instrumentos, Meg Azevedo pretende recorrer a um repertório capaz de despertar lembranças de infância nos participantes.

Para a artista, as canções ajudam a acessar experiências guardadas ao longo da vida. “A música cria um ambiente de uma sinestesia, que é a junção de vários sentidos, olfato, paladar, memória auditiva, vai juntando coisas”, explica. Ela relaciona essa capacidade às próprias lembranças, como os discos e repertórios que ouvia com o pai durante a infância.

A música também pode ser uma ferramenta de desenvolvimento infantil. Meg destaca que experiências musicais trabalham aspectos como coordenação motora, lateralidade, ritmo e percepção de espaço e tempo.

A artista, que é uma pessoa com TDAH e autista nível 2 de suporte, relaciona parte dessa experiência à própria dificuldade de propriocepção, a percepção do próprio corpo e de seus movimentos no espaço. Ela conta que costuma esbarrar e derrubar objetos e vê nas experiências musicais uma possibilidade de desenvolver, desde a infância, relações mais conscientes com o corpo e o ambiente.

Essa perspectiva também atravessa a forma como Meg pensa a educação. Defensora do anticapacitismo, ela considera importante que educadores reconheçam diferentes formas de vivenciar o mundo e evitem que pessoas neurodivergentes sintam que precisam esconder suas características para se adaptar aos ambientes.

Para a artista, falar sobre essas questões também é uma maneira de combater a desinformação e as violências que atingem grupos historicamente discriminados.

O espaço para brincar

A pedagoga Miriam Teles von Hauenschild propõe uma reflexão sobre os ritmos da infância, a imaginação, a autonomia, a natureza e o brincar livre, acompanhada de uma experiência prática com jogos e brincadeiras.

Para a pedagoga, respeitar as diferentes etapas do desenvolvimento infantil é um dos princípios centrais da Pedagogia Waldorf. “O princípio primordial é respeito às etapas de desenvolvimento que cada criança vive”, afirma. A partir dessa perspectiva, ela defende que o adulto acompanhe o crescimento sem antecipar processos e reconheça as particularidades de cada fase.

O brincar livre ocupa papel central nessa visão. Segundo Miriam, a experiência permite que as crianças elaborem sentimentos e situações que ainda não conseguem compreender plenamente. “Brincadeira é algo que reorganiza todo o ser humano, e as crianças principalmente”, diz.

A educadora também alerta para as consequências da redução do espaço destinado ao brincar. “Quando não tem espaço para a experiência do brincar, a criança vira um mini-adulto e há muito pouca possibilidade de criatividade e de bom humor e de estar presente no mundo de forma mais alegre, mais viva”, explica.

A reflexão sobre a memória retorna em outro momento da programação, conduzido por Filipe, que convida o público a recordar pessoas, lugares, músicas e brincadeiras que marcaram suas próprias infâncias.

O encontro termina com a “grande roda”, que reúne convidados e participantes para discutir o papel das famílias, escolas e comunidades, seguida pela experiência “semeando o amanhã”. Cada participante será convidado a registrar uma palavra, desejo, compromisso ou reflexão para levar à relação cotidiana com as infâncias.

A frase da escritora Lya Luft, “A infância é um chão que pisamos a vida inteira”, ajuda a dimensionar a importância desse período para a formação de cada pessoa. Como um solo que precisa ser cuidado para que diferentes possibilidades possam florescer, a infância também é permeada por experiências que vão além da educação formal.

1º Encontro da Cultura da Infância – A Infância que Queremos Cultivar

  • Quando: sábado (10)
  • Horário: das 9h às 13h
  • Onde: Espaço Boca de Brasa Cajazeiras (Avenida Engenheiro Raymundo Carlos Nery)
  • Entrada gratuita, mediante inscrição pelo Sympla

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.

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