REVITALIZAÇÃO
Teatro Vila Velha reabre em Salvador após reforma de R$ 28,6 milhões
Espaço volta a receber o público com estrutura modernizada, acessibilidade e nova programação


O Teatro Vila Velha reabriu ao público nesta sexta-feira, 25, em Salvador, após passar por uma requalificação que recebeu investimento de R$ 28,6 milhões.
Localizado no Passeio Público, no Campo Grande, o equipamento cultural teve a estrutura modernizada, ganhou novos equipamentos e ampliou os recursos de acessibilidade. A intervenção também incluiu a requalificação do Passeio Público, que integra o conjunto histórico onde está localizado o teatro.
Do total investido, R$ 14,6 milhões foram destinados às obras físicas e R$ 14 milhões à aquisição de equipamentos. Entre as intervenções realizadas no teatro estão a implantação de um sistema de climatização, melhorias de iluminação, som, audiovisual, segurança e instalações técnicas, além da ampliação das condições de acessibilidade.
A cerimônia de reabertura reuniu o prefeito Bruno Reis, o diretor do Teatro Vila Velha, Márcio Meirelles, a ministra da Cultura, Margareth Menezes, o presidente da Fundação Gregório de Matos, Fernando Guerreiro, além de artistas e representantes do setor cultural.
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Teatro mantém proposta de transformação
Inaugurado em 1964, o Teatro Vila Velha passou por uma reforma estrutural em 1994. Na nova intervenção, a estrutura foi atualizada sem alterar as características que marcam a identidade do espaço.
Em entrevista ao portal A TARDE, Márcio Meirelles destacou que a trajetória do Vila Velha está ligada à ideia de transformação permanente.
A gente continua fazendo e refazendo sempre a mesma coisa, cada vez melhor e maior. O teatro não para. Márcio Meirelles
Segundo o diretor, a história do espaço começou antes mesmo da construção do prédio atual. “Ele começou antes de o prédio existir, em 1959, quando a Companhia dos Novos se formou. Eles começaram o Teatro Vila Velha em todas as praças, escolas, igrejas e no interior. Eles fizeram teatro enquanto construíam esse prédio. E agora, quando estava na reforma, durante dois anos, a gente continuou ocupando a cidade, ocupando outros espaços e outras cidades.”
A atuação também chegou a outros países. “Inclusive fora do país, em Portugal. O Vila Velha continua andando, não para. E agora a gente volta para a nossa casa, para o nosso prédio, e estamos de volta com o mesmo empenho, a mesma necessidade de encontros.”
Passeio Público também foi requalificado
A intervenção não ficou restrita ao prédio do teatro. O Passeio Público, construído em 1810, também passou por obras, com preservação do traçado urbanístico original e restauração de monumentos, painéis, fonte e mirante para a Baía de Todos os Santos.
O projeto incluiu ainda recursos de acessibilidade e vagas para pessoas com deficiência. Para Meirelles, a transformação do entorno está entre os principais resultados da intervenção. “O Vila volta para esse passeio público lindo, e essa, eu acho, é a nossa maior vitória. Na verdade, não é só a reforma do teatro: é ter conseguido que a reforma do teatro alavancasse a reforma do passeio público.”
O diretor também citou a utilização do espaço por crianças da Gamboa. “As crianças da Gamboa vieram aqui para plantar esses dois ipês, e uma mulher incrível, que cuida dessas crianças da Gamboa, falou: ‘Que maravilha! Agora a gente tem onde levar as crianças da Gamboa para brincar’, porque, se a gente vai para a Gamboa, você vê que realmente ali não tem espaço para as crianças brincarem.”

O acesso ao teatro ganhou uma nova passarela, elevador e escadarias. “Estamos muito felizes com a requalificação do passeio público porque é a entrada e todo o processo foi pensado para criar mais acessibilidade, com rampa, elevador e todos os dispositivos necessários a uma acessibilidade universal.”
Meirelles ressaltou que a acessibilidade precisa considerar também o percurso até o equipamento. “Não dá para ser acessível no teatro se o caminho até o teatro não for acessível. E agora está. Então, estamos muito felizes de poder cumprir nossa missão neste mundo. Passamos no mundo por alguma coisa, e a nossa missão foi fazer esse teatro funcionar.”
Estrutura ganhou novos equipamentos
Além das mudanças relacionadas à acessibilidade, o teatro recebeu novos equipamentos de som, iluminação e audiovisual, além de melhorias nas instalações técnicas, segurança e climatização.
Ao comentar a relação com o prédio, Meirelles lembrou a origem da estrutura. “Isso era um galpão industrial que foi adaptado para ser um teatro, com plateia asfaltada, foyer pavimentado com paralelepípedo, e que virou essa coisa enorme.”
O diretor também falou sobre a manutenção do espaço após a reabertura. “Sabemos que a bilheteria só não sustenta. Então, estamos abrindo de novo o programa Amigos do Vila Velha. As pessoas que acreditam, que querem investir, que querem ter seu nome também nessa história e estar em conjunto com a gente podem entrar nessa plataforma e fazer um plano de doação mensal, de R$ 10, de R$ 20, de R$ 100.”
Segundo Meirelles, o equipamento historicamente contou com recursos públicos para sua manutenção. “Esse teatro sempre foi mantido pela cidade, pelo governo do Estado, pelo governo municipal e pelo governo federal, porque é isso: é um espaço da cidade.”
Programação reúne grupos da Bahia e de outros estados
A reabertura do Teatro Vila Velha conta com apresentações musicais de artistas ligados à trajetória do espaço e à cena contemporânea baiana. Participam Bruno Barroso, Giovani Cidreira, Luiza Brito, Jadsa e Manuela Rodrigues, entre outros artistas. A programação teatral também já está definida para os próximos meses.
Segundo Meirelles, o espaço terá atividades com grupos do interior da Bahia e de outras regiões. “Temos muitos grupos do interior e muitos programas para trazer pessoas do interior para mostrar um outro teatro, uma outra cara, para encontrar outras pessoas”
O diretor também citou atividades voltadas ao teatro nordestino. “Temos uma programação mista. Amanhã temos o encontro de todos os grupos de teatro do Nordeste que estão aqui em Salvador, no Encontro do PAVIO.”
Após a reabertura, uma das primeiras ações será o programa Pé de Feijão. “A primeira coisa que vai ter aqui depois dessa abertura de hoje, sexta, dia 6, e dia 7, é o programa Pé de Feijão, com crianças das comunidades, com crianças do sistema municipal de ensino. São quatro apresentações para 800 crianças.”
Na sequência, o teatro recebe “Nilda”. “Aí depois vem Nilda, que é um espetáculo que vai fazer uma temporada longa, de outubro até novembro.”
Cristina Castro, diretora de projetos do Teatro Vila Velha, informou que a programação está organizada para os próximos meses. “Temos programação já fechada até janeiro, de teatro, de grupos de fora e de grupos daqui. A gente inicia com Nilda, que é um espetáculo que Márcio fez a direção e que tem muito a ver com a memória porque também a gente inaugura um centro específico de memória, o acervo do Vila, que tem mais de um milhão de documentos.”

Teatro amplia ações de formação
A nova fase do Vila Velha inclui projetos voltados à formação de plateia e à aproximação entre crianças e artes. Cristina Castro explicou que o teatro mantém ações direcionadas a estudantes de diferentes redes de ensino.
Nós temos um programa amplo de formação de plateia e de espectadores, que cumpre uma formação artística e uma iniciação artística, principalmente para as crianças da rede pública de ensino, de comunidades, de ONGs, mas também para a rede privada de ensino. Cristina Castro
A diretora afirmou que a infância será uma das prioridades da programação. “Nesse terceiro momento em que a gente fala do Vila, temos metas muito claras de projetos e de programação. Uma delas é com as crianças e com a infância. Temos um compromisso que a gente quer levar adiante porque entende a mudança pensando na criança também. O Vila se transforma realmente numa plataforma de conexão entre crianças e artes.”
As primeiras atividades dessa etapa começam nos dias 6 e 7. “Iniciamos já nos dias 6 e 7 com esse programa, com a vinda de 800 crianças da rede pública, de comunidades também e de organizações para ver o espetáculo Vila BCD, que é um espetáculo que fala sobre as palavras, e a gente está muito em conexão com o currículo das escolas também.”
O programa também contempla profissionais que trabalham com o público infantil.“Esse programa não é somente para crianças, mas também para quem atua junto com elas e está nesse desenvolvimento, sendo agente cultural.”

Meirelles também destacou a relação entre o teatro e a formação das crianças.“Nesse momento de muita preocupação com a infância, com a possibilidade de a gente acrescentar à educação formal um outro nível, outro plano da fantasia, da beleza, da estética, da poesia, da reflexão, da crítica, é preciso tirar as crianças das telas e colocá-las na vida real. E o teatro é a vida real.”
Vila Velha amplia conexão com grupos
Cristina Castro afirmou que a programação também prevê intercâmbio com grupos de outras regiões e de outros países. “Uma outra meta é estar em rede com o teatro e a dança. Então, a gente recebe grupos internacionais. Em novembro, vamos receber um grupo italiano, um grupo do Rio de Janeiro, um grupo de Brasília e vamos receber mais ou menos 50 diretores de grupos do Nordeste do Brasil.”
A conexão com a produção nordestina é apontada como uma das frentes da nova programação.
A conexão com o Nordeste vai ser muito grande. Então, esse programa tem como meta estabelecer redes para se conectar, porque a gente entende que sobreviver é estar em constante atividade e movimento. Não depende somente da gente, depende também de um entorno e de uma aliança que a gente faz com os outros. Cristina Castro
Acervo do Vila Velha ganha espaço próprio
A reabertura também marca uma nova etapa para a preservação da memória do Teatro Vila Velha. O acervo do espaço reúne mais de um milhão de documentos e ganhou uma área específica.
Cristina explicou que o trabalho de organização e digitalização começou no ano passado. “Isso foi fortalecido no ano passado através da Fundação Banco do Brasil. A gente começou a levantar o acervo, a digitalizar, a organizar, a higienizar e agora temos um espaço para ele, onde vamos receber pesquisadores e vamos fomentar também editais a partir daqui para a construção de novos conteúdos a partir do acervo.”
Espaço mantém papel histórico na cultura baiana
O presidente da Fundação Gregório de Matos, Fernando Guerreiro, destacou a trajetória do equipamento. “Esse teatro é um patrimônio da cidade. São 62 anos, o berço de grandes artistas, de grupos importantíssimos, e ver esse teatro voltar com o projeto original é muito importante.”
Segundo Guerreiro, a modernização não alterou a proposta original do espaço.
Ele ganhou acessibilidade, ganhou novos equipamentos, mas o projeto dele permanece. É muito importante que essa casa volte a servir novamente e democraticamente à cidade e, com certeza, novos grupos, novos artistas e artistas consagrados vão passar por esse palco. Fernando Guerreiro
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, também participou da cerimônia e relembrou sua relação com o equipamento. “Estou aqui pela minha soteropolitanidade. Sou a cidadã daqui mas sou também uma pessoa da cena da cultura e da arte. Meu primeiro show musical foi aqui, concorrendo ao Troféu Caymmi, logo quando ele surgiu, em 1985, e eu ganhei como melhor intérprete daquele momento. Me apresentei também nas peças de teatro.”
Margareth destacou a importância da reabertura para a produção cultural.
É uma entrega importante para a cena teatral não só de Salvador, mas também do Estado e do Brasil, pela história, pelo que significa o Teatro Vila Velha nesse momento. Margareth Menezes
Prefeitura destaca investimento e produção cultural
Durante a cerimônia, o prefeito Bruno Reis detalhou o investimento realizado no teatro. “Investimos R$ 14 milhões na reforma total do teatro, mais R$ 14 milhões em equipamentos. Agora, ele está todo climatizado. Esse teatro vai estar aberto ao público a partir de hoje para as apresentações musicais, teatrais, de arte e dança, estimulando esse grande potencial e as habilidades individuais que o baiano tem.”
Bruno Reis também citou o papel histórico do Vila Velha na formação de artistas.
Gil, Caetano e tantos outros grandes artistas inauguraram esse teatro, que foi palco da revelação e da produção cultural da Bahia, projetando aqui os nossos artistas que lideraram movimentos culturais no Brasil e no mundo. Bruno Reis
Para o prefeito, a nova etapa deve manter essa relação com a produção artística. “Ele agora recebe uma grande reforma, um novo Teatro Vila Velha junto com o novo Passeio Público, e espero que ele possa agora inspirar as novas gerações, que novos artistas possam ser revelados aqui, para que a Bahia, em especial Salvador, continue sendo palco de revelações de grandes artistas e possa projetar esse grande caldeirão cultural que é a nossa cidade.”
Esse equipamento tem esse propósito de resgatar a nossa memória, valorizar a nossa história, estimular o setor cultural, que é tão importante para a nossa economia, que gera milhares de empregos e renda para os soteropolitanos e baianos, e para que a gente continue tendo a capacidade de produzir novos artistas. Bruno Reis
Bruno Reis afirmou ainda que a produção cultural baiana deve continuar sendo projetada a partir do espaço. “Os artistas que vão levar essa cidade e esse estado para o Brasil e para o mundo, cantando as nossas músicas, canções, cantando a nossa cidade, contando a nossa história e fazendo com que a cidade cada vez mais possa se projetar.”
A Prefeitura também pretende atuar em parceria com a direção do teatro. “A prefeitura vai estimular, ajudando, em parceria com a direção do Teatro Vila Velha, a trazer apresentações musicais e teatrais para oferecer conteúdo ao soteropolitano e a milhares de visitantes e turistas.”
O prefeito citou ainda a possibilidade de receber grupos e coletivos culturais de diferentes regiões de Salvador. “O teatro foi fundado para estimular a nossa produção artística e cultural, para produzir novos talentos, e a gente vai estimular cada vez mais os coletivos dos bairros, os movimentos culturais que ocorrem e estão acontecendo em diversos lugares de Salvador, que agora terão um grande palco para suas apresentações.”
Economia criativa também está entre as pautas
Margareth Menezes destacou a relação entre equipamentos culturais e a movimentação do setor artístico. “Quanto mais equipamentos culturais, melhor, porque, num equipamento cultural como esse, você consegue movimentar a cena, trazer possibilidades de encontro do público com os seus artistas, gerando emprego e renda.”

A ministra também falou sobre o impacto do equipamento na economia criativa. “Não podemos perder de vista essa questão da economia criativa. Hoje, todo mundo está falando sobre isso, e uma entrega como essa impacta positivamente a vida de muitas pessoas, na cidade, mas também toda a cena da produção cultural e artística da nossa cidade e do nosso estado.”
Mais de seis décadas de história
A história do Teatro Vila Velha começou em 1959, quando foi formada a Companhia Teatro dos Novos. Antes da inauguração da atual sede, em 1964, a companhia passou por três espaços provisórios: um solar no bairro da Graça, outro no Largo da Vitória e a Galeria Oxumaré, no Passeio Público.
No primeiro ano de existência, foram mais de 100 apresentações em praças, escolas, igrejas e cidades do interior. Em 1964, o teatro foi inaugurado no Passeio Público e se consolidou como o primeiro teatro independente da Bahia.
O espaço abriga a Companhia Teatro dos Novos, primeira companhia teatral profissional da Bahia. A primeira peça apresentada no prédio pela companhia estreou em dezembro de 1964, com participação da Escola de Samba Juventude do Garcia como coro.

Em 1994, uma reforma estrutural transformou o teatro em um espaço cênico com diferentes possibilidades de configuração entre palco e plateia, além de salas de ensaio e o Cabaré dos Novos.
Agora, após a nova intervenção, o Vila Velha retoma as atividades com estrutura modernizada, novos equipamentos, acessibilidade ampliada e programação prevista para os próximos meses.


