ECONOMIA
Após Casas Bahia, gigante dos móveis também pede recuperação judicial
Disputa familiar, perda de garantias e restrição de crédito levaram a Marabraz a acumular dívida


A Marabraz, uma das tradicionais redes de móveis voltadas ao público de renda popular, entrou com pedido de recuperação judicial após enfrentar uma sequência de problemas financeiros e societários. A empresa acumula um passivo estimado em R$ 140 milhões, valor que ainda pode sofrer alterações durante o processo.
A crise, que já vinha sendo percebida pelos consumidores por meio do fechamento de lojas e da redução da operação, tem como um dos principais pontos uma disputa dentro da própria família responsável pelo negócio.
Segundo informações apresentadas no pedido de recuperação judicial, a ruptura entre os integrantes do grupo afetou diretamente o modelo de financiamento utilizado pela empresa durante décadas.
“As disputas societárias e familiares alteraram substancialmente o modelo de financiamento que, durante décadas, sustentou a operação”, afirma a Marabraz na petição.
Briga familiar afetou estrutura financeira da Marabraz
A história da Marabraz começou com Abdul Hamid Mohamad Fares, imigrante libanês que chegou ao Brasil na década de 1950. Em 1965, ele abriu a Credi-Fares, na Vila Nova Cachoeirinha, em São Paulo.
Após a morte de Abdul, em 1978, os filhos deram continuidade aos negócios. Anos depois, em 1986, a família adquiriu a marca Lojas Marabraz, nome inspirado em “Maravilhas do Braz”.
A rede cresceu ao longo das décadas seguintes, ampliou o número de unidades, construiu centros de distribuição e ganhou projeção nacional com campanhas protagonizadas por Zezé Di Camargo & Luciano e pelo conhecido slogan “Lojas Marabraz, preço menor, ninguém faz”.
Paralelamente à expansão das lojas, parte dos recursos gerados pelo negócio foi direcionada para a compra de imóveis. Esses ativos ficaram concentrados em uma estrutura patrimonial separada da operação da varejista.
Os imóveis, no entanto, não tinham apenas função patrimonial. Eles também eram utilizados como garantias para a obtenção de empréstimos bancários.
Na prática, a estrutura permitia que a empresa recorresse aos bancos para financiar a compra de mercadorias, manter estoques e sustentar o funcionamento das lojas, utilizando o patrimônio imobiliário como respaldo para as operações.
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Disputa entre gerações mudou acesso ao crédito
O modelo começou a ser afetado quando a família entrou em conflito.
Segundo a apuração citada no material, a holding que concentrava parte dos principais imóveis ligados ao grupo ficou sob o controle da geração mais nova, formada por integrantes das duas famílias envolvidas na empresa.
Com o rompimento entre os familiares, os imóveis deixaram de estar disponíveis para garantir novas operações da Marabraz.
Em 2024, Nasser e Jamel, integrantes da segunda geração, recorreram à Justiça contra filhos e sobrinhos para tentar recuperar participações na holding que haviam sido transferidas aos herdeiros.
A dupla venceu em primeira instância, em março de 2025. Porém, em setembro do mesmo ano, o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) reverteu a decisão.
Com isso, a Marabraz perdeu o acesso aos imóveis como garantia para novos empréstimos. A consequência foi direta sobre o custo e a disponibilidade de crédito.
Bancos reduziram limites e aumentaram custos
De acordo com a companhia, a mudança na estrutura de garantias provocou uma reação das instituições financeiras.
Bancos passaram a exigir novos ativos como garantia, reduziram limites de crédito, elevaram os custos dos empréstimos e, em determinadas situações, deixaram de renovar linhas utilizadas pela empresa.
A situação ganhou peso porque o varejo depende diretamente de capital de giro. Antes mesmo de receber pelas vendas, a empresa precisa desembolsar recursos para manter estoques, pagar fornecedores, funcionários, aluguel, logística e outros custos da operação.
Com menos crédito disponível, uma parcela maior do caixa passou a ser direcionada para o pagamento de compromissos financeiros de curto prazo.
A própria Marabraz descreve no processo um ciclo de deterioração financeira, em que a redução do crédito afetou a liquidez da companhia e, consequentemente, aumentou a percepção de risco por parte dos bancos.
Crise aconteceu em meio a dificuldades no varejo
A disputa familiar ocorreu em um período em que as empresas do varejo também enfrentavam um cenário mais difícil.
O setor de móveis e bens duráveis foi afetado nos últimos anos pelo custo do crédito e pela necessidade de financiar estoques e vendas parceladas. Ao mesmo tempo, consumidores passaram a sentir mais o impacto das parcelas, enquanto as empresas precisavam lidar com juros maiores.
Para a Marabraz, a combinação foi ainda mais complicada porque a empresa já havia perdido parte da capacidade histórica de obter crédito.
Antes de recorrer à recuperação judicial, a rede também passou por fechamento de unidades e demissões.
A estratégia apresentada agora, segundo a apuração citada no material, não seria concentrar esforços em uma nova redução da operação, mas tentar recuperar as atividades da companhia.
Empresa já enfrentava pedido de falência
Outro fator pesou na decisão de recorrer à recuperação judicial.
A Comercial de Móveis Jordanésia, empresa que desde 2017 concentra as operações realizadas sob a marca Marabraz, já era alvo de um pedido de falência distribuído em 2025.
O processo foi analisado pela 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, justamente a mesma unidade judicial onde a recuperação foi protocolada.
A empresa responsável pela reestruturação é o escritório Campana Pacca.
Segundo a própria petição, a falência da Jordanésia chegou a ser decretada. A companhia, então, recorreu da decisão.
O recurso recebeu efeito suspensivo da 1ª Câmara de Direito Empresarial do TJ-SP, interrompendo os efeitos da decretação enquanto o caso segue em análise.
Foi nesse contexto que cinco empresas ligadas à Marabraz apresentaram juntas o pedido de recuperação judicial: Jordanésia, SVC Jaraguá Comercial, Comercial Móveis das Nações, Comercial Zena Móveis e Monta Móveis.
Dívida chega a R$ 140 milhões
O grupo possui débitos com instituições financeiras, fornecedores e outros credores, além de dívidas trabalhistas.
As instituições financeiras concentram alguns dos maiores valores individuais, enquanto os débitos com fornecedores aparecem distribuídos em um número maior de credores.
O passivo inicialmente submetido à recuperação judicial é estimado em cerca de R$ 140 milhões.
O valor, entretanto, ainda pode ser alterado durante o processo, diante de possíveis habilitações, divergências sobre os valores cobrados e decisões judiciais.
A Marabraz sustenta que a origem da crise está na dificuldade financeira provocada pela restrição de crédito, e não em uma perda da capacidade de operação.
Na petição, a companhia afirma que o problema não teria relação com “perda de capacidade operacional”, “problemas de gestão”, enfraquecimento da marca ou ausência de demanda.
A empresa também defende que a marca continua tendo força entre consumidores de renda popular e que suas lojas ainda possuem capacidade de movimentar mercadorias.
Marabraz tenta manter operação após crise familiar
O processo de recuperação judicial agora coloca em avaliação uma estrutura construída pela família ao longo de décadas.
Durante anos, a operação das lojas e o patrimônio imobiliário funcionaram de maneira integrada. Enquanto as unidades geravam receita, os imóveis serviam como garantia para a obtenção do crédito necessário à manutenção e expansão do negócio.
A ruptura familiar acabou afetando justamente essa estrutura, em um momento de maior pressão sobre o custo do crédito.
Agora, a Marabraz terá que buscar alternativas para manter suas operações e financiar o funcionamento das lojas sem contar com o mesmo modelo de garantias que sustentou a expansão da rede ao longo dos anos.


