BRASIL
Após 298 lojas fechadas e 3 mil demissões, CEO das Casas Bahia prevê 2027 ainda pior
Empresa fechou unidades e reduziu funcionários em meio à crise financeira e recuperação judicial


A crise financeira que levou o Grupo Casas Bahia a fechar centenas de lojas, promover milhares de demissões e recorrer novamente à Justiça para reorganizar suas dívidas pode ganhar novos contornos no próximo ano. Apesar das medidas adotadas para reduzir despesas e preservar o caixa, a própria direção da companhia não trabalha com uma melhora do cenário econômico.
Renato Franklin, CEO das Casas Bahia, afirmou que a empresa considera que 2027 poderá ser ainda mais difícil do que 2026, em uma sinalização de que a reestruturação atualmente em curso deve ocorrer em um ambiente ainda desafiador para o varejo.
"Não trabalhamos com melhora no cenário macro. Consideramos que 2027 será pior que 2026."
A declaração ajuda a dimensionar o momento enfrentado pela varejista. Depois de anos acumulando prejuízos e tentando reorganizar sua estrutura financeira, a companhia passou a adotar medidas mais profundas para reduzir o tamanho da operação e diminuir os custos necessários para manter o negócio funcionando.
Quase 30% das lojas são fechadas
Uma das principais medidas foi o encerramento de 298 unidades, número equivalente a cerca de 28,7% das pouco mais de mil lojas que a empresa mantinha no país, considerando os dados de março.
A redução ocorreu de forma concentrada, diferentemente de períodos anteriores, quando o fechamento de unidades aconteceu de maneira mais gradual. A estratégia faz parte de um pacote de redução de despesas que também atingiu o quadro de funcionários.
Em apenas dois dias, a empresa desligou centenas de trabalhadores e planejou novos cortes. As estimativas apontam que o número total de demissões pode chegar a aproximadamente 3 mil funcionários, o equivalente a cerca de 6,7% da força de trabalho da companhia.
A reestruturação, porém, não representa uma economia imediata. O fechamento de lojas e a redução do quadro de funcionários também geram despesas iniciais, incluindo custos relacionados às rescisões e à própria reorganização da operação.
Em Salvador, o impacto foi percebido diretamente pelos consumidores. Doze unidades das Casas Bahia encerraram as atividades na capital baiana, incluindo lojas instaladas em importantes centros de compras, como Salvador Shopping e Shopping da Bahia.
Também houve fechamento de unidades no interior do estado, como em Itabuna.
Os produtos que estavam nas lojas fechadas passaram a ser retirados e, conforme informações obtidas pela reportagem, devem ser encaminhados aos centros de distribuição ou redistribuídos para outras unidades. Não houve, inicialmente, previsão de uma grande liquidação de estoque.
De uma reestruturação para outra
O atual momento é resultado de uma crise que começou a se tornar mais evidente ainda em 2022, quando a empresa passou a registrar uma sequência de prejuízos trimestrais.
Naquele período, o varejo brasileiro ainda enfrentava os efeitos econômicos provocados pela pandemia, enquanto os juros elevados encareciam o crédito e dificultavam o consumo. A Casas Bahia já havia iniciado o fechamento de unidades consideradas menos rentáveis e buscava melhorar a geração de caixa.
Em 2023, a companhia apresentou um Plano de Transformação, com a promessa de tornar a operação mais rentável e preparar a empresa para uma retomada do crescimento.
Na época, Renato Franklin, então à frente da companhia, explicou que a prioridade seria aproveitar melhor a estrutura que já havia sido construída pela empresa, em vez de concentrar recursos em uma expansão acelerada.
"Nós entendemos que isso tudo foi feito. Construímos uma super plataforma, e ela já é grande. Então, entre investir para crescer mais essa plataforma ou pegar e rentabilizar o que tenho aqui, preferimos ganhar dinheiro com o que tem aqui", diz.
Mesmo com cortes de lojas e postos de trabalho, porém, a recuperação esperada não ocorreu na velocidade necessária.
Recuperação extrajudicial não foi suficiente
Em 2024, a companhia recorreu à recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas. O mecanismo permitiu o alongamento dos compromissos financeiros com os principais credores e buscou dar fôlego para a empresa continuar operando.
A estratégia produziu resultados importantes posteriormente. Em 2025, o grupo conseguiu reduzir sua alavancagem e cortar em cerca de 75% a dívida líquida.
O problema é que a melhora da estrutura financeira não foi suficiente para eliminar a pressão sobre o caixa.
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As vendas continuaram pressionadas, enquanto as despesas financeiras permaneceram elevadas. Ao longo de 2026, a situação voltou a se deteriorar, obrigando a empresa a rever novamente sua estratégia.
No primeiro trimestre, a Casas Bahia chegou a registrar redução de R$ 2,7 bilhões na dívida líquida. Pouco depois, porém, a companhia voltou a sinalizar dificuldades para reorganizar seus compromissos.
Prejuízo bilionário e recuperação judicial
O tamanho da nova crise ficou evidente no balanço divulgado neste mês. A Casas Bahia registrou prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre.
O resultado acelerou uma nova rodada de medidas para reduzir estoques, despesas e a necessidade de capital para manter a operação.
A empresa também buscou alternativas para reforçar o caixa, inclusive por meio da captação de recursos no Brasil e no exterior. Parte das negociações, entretanto, não avançou.
Com juros elevados, crédito mais restrito e maior dificuldade para obter novos recursos, a companhia chegou a uma nova etapa da reestruturação.
No domingo, 16, o Grupo Casas Bahia apresentou à Justiça um pedido de recuperação judicial, envolvendo aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas.
A medida agora coloca a companhia diante de um processo mais amplo de reorganização financeira, enquanto a operação passa por uma redução significativa.
O desafio para 2027
É nesse contexto que a avaliação de Renato Franklin ganha peso. A Casas Bahia não está apenas tentando atravessar uma crise atual: a direção da empresa já considera que o ambiente econômico do próximo ano poderá ser ainda mais adverso.
A combinação entre consumo enfraquecido, endividamento das famílias, crédito caro e despesas financeiras elevadas permanece como um dos principais obstáculos para o varejo.
Para a Casas Bahia, o desafio será fazer com que uma estrutura menor consiga gerar caixa suficiente para sustentar a operação e, ao mesmo tempo, cumprir os compromissos que serão reorganizados no processo de recuperação judicial.
O grupo chega a essa nova fase depois de sucessivas tentativas de recuperação. Primeiro, com cortes e mudanças na operação; depois, com o Plano de Transformação; em seguida, com a recuperação extrajudicial; e agora com uma recuperação judicial acompanhada de uma redução expressiva de lojas e funcionários.
A perspectiva apresentada pelo CEO indica que a empresa não espera uma solução rápida. Se 2026 já é marcado por uma das maiores reestruturações de sua história recente, a avaliação da própria direção é de que 2027 poderá exigir ainda mais da companhia.
O que é o Grupo Casas Bahia?
O Grupo Casas Bahia está entre as maiores empresas do varejo brasileiro e reúne marcas como Casas Bahia, Ponto, Extra.com.br e Bartira. O grupo também possui operações relacionadas a logística, tecnologia e serviços financeiros, incluindo o Casas Bahia Pay.
A atual estrutura empresarial começou a ser formada em 2009, quando a Casas Bahia foi incorporada à Globex, controladora do Ponto, antigo Pontofrio. Em 2010, a companhia passou a se chamar Via Varejo. Em 2021, adotou o nome Via e, dois anos depois, tornou-se oficialmente Grupo Casas Bahia.
Ao longo desse processo, a empresa ampliou sua presença no comércio eletrônico e investiu em logística, tecnologia, meios de pagamento e serviços financeiros.
Agora, diante da nova crise, a estratégia mudou novamente: em vez de expansão, a prioridade passou a ser reduzir a operação, cortar despesas, preservar caixa e reorganizar uma dívida que chegou à casa dos R$ 17,3 bilhões.
E, pela avaliação apresentada pelo próprio comando da companhia, essa recuperação terá de ser conduzida em um cenário que pode ficar ainda mais difícil em 2027.


