CRIMES
Bahia em alerta: setor de combustíveis vira epicentro de fraudes bilionárias
Lavagem de dinheiro, sonegação e adulteração afetam consumidores e a arrecadação do estado

Por Andrêzza Moura

Por trás das bombas que garantem a mobilidade do país corre um fluxo financeiro que ultrapassa R$ 1 trilhão anuais e que vem sendo desviado por engrenagens criminosas cada vez mais sofisticadas. Do crime organizado a empresas com dívidas tributárias bilionárias, o setor de combustíveis tornou-se epicentro de fraudes complexas e altamente lucrativas.
Investigações como Carbono Oculto e Poço de Lobato, conduzidas pela Receita Federal, Ministério Público e forças policiais, revelam um cenário que vai muito além dos conhecidos “cartéis de preço” - que por anos, foi a principal preocupação dos consumidores.

Hoje, o problema é mais profundo: lavagem de dinheiro, sonegação bilionária, adulteração e uso de postos como fachada compõem o que especialistas chamam de economia do crime, capaz de movimentar cifras que rivalizam com setores formais inteiros.
Entre os atores identificados nesse cenário estão o Primeiro Comando da Capital (PCC) e grupos empresariais de grande porte, como a Refit, marcado por dívidas tributárias bilionárias e que operam em esquemas que atravessam toda a cadeia de combustíveis.
Segundo informações do Instituto Combustível Legal (ICL), repassadas ao G1, o setor de combustíveis perde cerca de R$ 29 bilhões por ano em fraudes e sonegação. Desse total, aproximadamente R$ 14 bilhões correspondem à sonegação de impostos, enquanto outros R$ 15 bilhões resultam de fraudes operacionais e adulterações.
Ainda conforme o ICL, esse rombo bilionário corrói a arrecadação, afasta investimentos e impacta diretamente o consumidor, que muitas das vezes financia estruturas criminosas sem perceber.
O novo rosto do crime: do poço ao posto
Indícios apontam que a “vitrine do crime” está justamente no posto de combustível, onde surgem os preços anormalmente baixos, o combustível adulterado e bombas que entregam menos do que mostram. Mas, como revelam as investigações, essa é apenas a face visível de um esquema muito mais complexo, que se estende por fazendas de cana-de-açúcar, refinarias, distribuidoras, postos piratas, fintechs e até fundos de investimento.
A Operação Carbono Oculto identificou que o PCC controlava 40 fundos, com patrimônio de mais de R$ 30 bilhões.
Já a megaoperação envolvendo o Grupo Refit revelou um esquema que drenava R$ 350 milhões por mês apenas em São Paulo, o equivalente à construção de um hospital de médio porte por mês, segundo o governo paulista.
As investigações mostraram que o esquema criminoso se espalhou por causa de falhas nas regras, pouca comunicação entre os órgãos de fiscalização e da facilidade de usar postos para misturar dinheiro legal com dinheiro ilegal. As maquininhas de cartão, por exemplo, acabaram virando uma ferramenta importante para lavar esse dinheiro.
Bahia entra no radar das grandes operações
Nos últimos anos, a Bahia passou a aparecer em algumas das maiores operações nacionais de combate a fraudes no setor de combustíveis. Embora não seja protagonista dos esquemas, o estado aparece como parte da logística e da estrutura financeira usada por grupos criminosos.

A Operação Primus, deflagrada em 16 de outubro deste ano pela Polícia Civil da Bahia, pela gência Nacional do Petróleo (ANP) e pela Secretaria da Fazenda do Estado da Bahia (Sefaz-BA), investigou uma rede de cerca de 200 postos no estado que funcionariam como fachada para adulteração, ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro.
À época, sete pessoas foram presas e o pedido de bloqueio judicial chegou a R$ 6,5 bilhões. A operação atingiu cidades como Feira de Santana, Conceição do Jacuípe, Alagoinhas e Itaberaba, além de ter reflexos em São Paulo e Rio de Janeiro.

A Carbono Oculto, apesar de nacional, também envolveu estruturas na Bahia. O esquema investigado movimentou R$ 52 bilhões em 4 anos, por meio de postos que recebiam grandes somas em espécie e operavam com tributos muito abaixo do esperado.
Mais recentemente, a Operação Poço de Lobato, deflagrada nesta quinta-feira, 27, incluiu a Bahia entre os estados investigados por participação em um dos maiores esquemas de sonegação do país, com dívidas superiores a R$ 26 bilhões. A operação apura fraudes em toda a cadeia: importação, refino, distribuição e venda de combustíveis.

SALVADOR: fiscalização constante, mas sem indícios de lavagem de dinheiro
Embora Salvador e a Região Metropolitana (RMS) estejam no roteiro de operações de fiscalização, não há, até o momento, informações públicas que apontem lavagem de dinheiro em postos específicos.
A capital baiana tem sido alvo principalmente de ações de controle de qualidade e checagem de bombas, como a Operação Posto Legal, que fiscalizou dezenas de postos entre 2023 e 2025. Há registros recentes de irregularidades como venda de produtos vencidos ou volume fora do padrão, problemas sérios, mas distintos dos esquemas bilionários de lavagem.

Já operações mais complexas, como a Primus, citam Salvador como base institucional, mas não há lista pública que mostre quantos ou quais postos da capital estão entre os investigados por fraudes estruturadas. Em geral, os casos mais graves divulgados envolvem municípios do interior ou redes com atuação interestadual.
O que está por trás do preço baixo?
Segundo especialistas, parte dos postos envolvidos em fraudes consegue oferecer preços artificialmente baixos porque sonega impostos ou vende combustível adulterado. Isso atrai o consumidor, mas corrói o mercado e empurra empresas regulares para fora do setor, como ocorreu no Rio de Janeiro, onde distribuidoras menores não conseguiram competir com estruturas fraudulentas.

Essa é uma mudança significativa em relação ao temor que marcou o setor nas décadas anteriores. Se antes a preocupação central eram os cartéis de preço, hoje o risco é abastecer em um posto que, sem que o consumidor perceba, pode financiar corrupção e o crime organizado.
O cenário atual mostra que as fraudes vão muito além do preço cobrado na bomba e envolvem toda a cadeia de combustíveis. O setor enfrenta vulnerabilidades estruturais conhecidas pelos órgãos de fiscalização, como orçamento reduzido e falta de fiscais da ANP, pouca integração entre Receita Federal, secretarias estaduais, Ministério Público e forças policiais, uso de fintechs e “contas-bolsão” para ocultar dinheiro, empresas de fachada que somam dívidas e desaparecem, e baixa rastreabilidade do combustível, especialmente nas chamadas bombas brancas.
Leia Também:
Para o ICL, a Operação Poço de Lobato reforça a urgência de combater a sonegação estruturada no setor de combustíveis. A entidade destaca que a aprovação do Projeto de Lei Complementar (PLP) 125/2022, já aprovado por unanimidade no Senado e atualmente parado na Câmara, é fundamental para enfrentar devedores contumazes e desmontar as complexas estruturas de sonegação que comprometem a arrecadação.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes



