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ECONOMIA

Calote bilionário: gigante coreano “limpa” conta e pede falência

Empresa criada para erguer a CSP reconhece dívidas milionárias, paralisa cobranças e revolta credores no Ceará

Iarla Queiroz

Por Iarla Queiroz

19/01/2026 - 17:22 h
calote pode chegar a R$ 1 bilhão
calote pode chegar a R$ 1 bilhão -

A gigante sul-coreana Posco Engineering & Construction Co deixou no Brasil um passivo que pode alcançar R$ 1 bilhão— e apenas R$ 109,80 disponíveis em conta-corrente. Criada exclusivamente para executar a obra da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), no Ceará, a Posco Engenharia e Construção do Brasil pediu autofalência à Justiça cearense em setembro de 2025, após anos de inadimplência com trabalhadores, fornecedores e o Fisco.

A empresa foi responsável por uma das maiores obras privadas do estado. O contrato para erguer a usina foi de US$ 5,5 bilhões (cerca de R$ 28 bilhões em valores atuais) — valor que, segundo os autos, foi integralmente pago.

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Do auge da obra ao colapso financeiro

A CSP entrou em operação em 2016. A partir daí, começaram os atrasos e calotes. Em 2023, o empreendimento foi vendido à ArcelorMittal, que adquiriu a siderúrgica por US$ 2,2 bilhões (R$ 11,8 bilhões). A construtora, porém, permaneceu no país sem novos contratos e acumulando dívidas.

No pedido de falência, a Posco alegou uma “crise econômica estrutural e insuperável” e listou 40 empresasdiretamente envolvidas no processo.

Autofalência trava cobranças e acende alerta entre credores

Ao recorrer à autofalência, a empresa conseguiu suspender cobranças judiciais, interromper a incidência de juros e centralizar as ações em um único juízo — movimento que frustrou credores e levantou suspeitas sobre a estratégia adotada.

A Posco reconhece oficialmente R$ 644 milhões em débitos, valor considerado subestimado por credores, que já apresentaram à Justiça cobranças não incluídas ou questionam os montantes declarados.

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Dívidas reconhecidas pela empresa:

  • Trabalhistas: R$ 573.526.176,94
  • Tributárias: R$ 33.780.412,61
  • Quirografárias: R$ 10.487.046,44
  • Intercompany (controladora): R$ 26.604.282,52

Um dos pontos contestados envolve a PGFN. A Posco informou um débito de R$ 30,2 milhões, mas a Fazenda Nacional afirma que o valor correto é R$ 42,7 milhões. Receita Federal e INSS também figuram como credores. Segundo a associação que representa os prejudicados, os débitos tributários podem ultrapassar R$ 200 milhões.

Patrimônio irrisório diante do rombo

Apesar do passivo bilionário, a lista de bens apresentada no processo chama atenção pelo valor reduzido:

  • Um terreno em São Gonçalo do Amarante (CE), avaliado em R$ 1,1 milhão;
  • Um Ford Fusion 2015/2016, sem funcionamento, com danos externos e 11 multas;
  • R$ 109,80 em conta-corrente;
  • R$ 4,8 mil em aplicações financeiras.

A empresa também cita valores depositados judicialmente, vinculados a processos específicos, que não estariam disponíveis para quitar outras dívidas.

Credores falam em fraude e atuação internacional

A reação dos credores foi imediata. Para o advogado Frederico Costa, presidente da Associação Internacional dos Credores da Posco, a empresa nunca tentou negociar e apresentou números abaixo da realidade.

Somente a Campelo Costa Sociedade de Advogados tem um crédito reconhecido de R$ 567 milhões, resultado de disputas auditadas por duas câmaras de arbitragem, com aplicação de multas, juros e correção.

A Justiça já determinou a desconsideração da personalidade jurídica, permitindo que a cobrança alcance a matriz sul-coreana e a holding internacional do grupo. Com o trânsito em julgado, a execução poderá ocorrer em qualquer paísonde a Posco tenha operações.

“O negócio era único: a CSP. O dinheiro da obra foi pago, remetido para fora, e ficou uma cadeia produtiva inteira prejudicada. Empresas no Ceará fecharam por causa disso”, afirma Costa.

Segundo ele, os credores estudam pedir a anulação da falência, o que faria as cobranças voltarem às varas de origem. “É um pedido fraudulento, com dados incorretos. Estamos mapeando casos semelhantes no mundo”, diz.

Construtora ligada à Posco admite insolvência
Construtora ligada à Posco admite insolvência | Foto: Divulgação / Posco

O que diz a administração judicial

Em manifestação apresentada em 18 de dezembro de 2025, a administradora judicial Farias e Lucena Serviços Administrativos apontou cinco fatores para a quebra:

  • Aumento de custos durante a obra;
  • Recessão econômica entre 2014 e 2016;
  • Ausência de novos contratos após 2018;
  • Crise no setor siderúrgico, com entrada de aço chinês a preços considerados predatórios;
  • Pandemia de covid-19.

A avaliação preliminar afirma não haver, até o momento, indícios de responsabilidade civil ou penal dos administradores, deixando eventual responsabilização para apurações futuras.

Contestação direta dos credores

A explicação não convence os credores. Para Frederico Costa, não há como justificar crise sanitária ou econômica em um projeto totalmente pago e planejado como operação única no país.

“Não houve surpresa. O dinheiro simplesmente não ficou no Brasil. Foi enviado às controladoras”, afirma.

Quem é a Posco no Brasil

Controlada pela Posco Engineering & Construction Co, com sede em Pohang, na Coreia do Sul, a empresa iniciou atividades no Brasil em 2011, exclusivamente para construir a CSP. Hoje, não mantém sede ativa no país.

No pedido de falência, a Posco afirma que tentou manter a operação, mas que a ausência de novos contratos e o cancelamento da segunda fase da CSP — que dobraria a produção anual — tornaram a continuidade inviável.

“A empresa não possui mais atividade empresarial nem perspectiva de solução do endividamento”, sustenta a petição.

Enquanto a disputa judicial avança, trabalhadores, fornecedores e o poder público seguem tentando entender como uma obra bilionária terminou com R$ 109 na conta.

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encerramento das atividades falência Gigante asiática

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