ECONOMIA
Compras em poucos cliques desafiam o controle do orçamento
Um em cada quatro consumidores não soube informar quanto gastou na última compra


Um em cada quatro consumidores não soube informar quanto gastou na última compra feita pela internet, segundo pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em parceria com a Offerwise.
Entre os consumidores que lembravam o valor desembolsado, o tíquete médio foi de R$ 225. Ao mesmo tempo, entre maio e junho, a frequência das compras online aumentou, com a média mensal de pedidos passando de 4,6 para 5,1, em um cenário de maior recorrência de despesas feitas por aplicativos, sites e plataformas digitais.
O veterinário Pedro Silva costuma fazer compras pela internet com bastante frequência, principalmente pela praticidade diante da rotina corrida. Roupas, pedidos por aplicativos e outras compras do dia a dia estão entre os gastos mais frequentes, mas foi a soma de pequenas despesas que chamou sua atenção para o impacto no orçamento.
“Teve um mês que eu fui abrir a fatura do cartão e levei um susto enorme. A gente vai clicando no ‘comprar com um clique’, paga no crédito ali rapidinho e, quando vai ver a soma no fim do mês, o dinheiro simplesmente sumiu”, conta. Desde então, ele passou a acompanhar a fatura com mais frequência e percebeu que compras de valores baixos, além de assinaturas esquecidas, eram as que mais se acumulavam ao longo do mês.
A mudança aparece também na distribuição da frequência das compras. A parcela de consumidores que faz de 11 a 20 pedidos online por mês passou de 7% para 12%, enquanto o grupo que realiza menos compras caiu de 49% para 42%. Para Merula Borges, especialista em finanças da CNDL, “esse avanço das compras mais fracionadas exige um acompanhamento mais frequente das despesas”, já que o controle financeiro feito apenas no fechamento do mês pode não acompanhar o ritmo das transações.
Além de mais frequentes, as compras passaram a envolver valores menores e têm o Pix como principal meio de pagamento, combinação que pode reduzir a percepção sobre cada desembolso. Na prática, a facilidade para concluir uma compra e o baixo valor de cada transação fazem com que parte desses gastos seja incorporada à rotina sem o mesmo nível de atenção dado a uma despesa maior.
“Essas transações individuais perdem um peso psicológico, uma dor na hora de fazer a compra, e esse consumidor deixa de registrar mentalmente esse gasto como uma decisão financeira. Ele começa a tratar isso como uma ação cotidiana e, no final do mês, o valor é muito maior do que aquilo que calculou mentalmente”, explica Merula.
A facilidade das compras digitais também pode reduzir a percepção sobre o dinheiro que está sendo gasto, principalmente quando o pagamento é feito por cartão já cadastrado, Pix ou em poucos cliques. Como o consumidor não passa pela experiência física de retirar dinheiro da carteira ou acompanhar de forma imediata a saída do valor, a compra tende a parecer menos concreta. O problema se agrava quando pequenas parcelas e despesas isoladas são avaliadas separadamente, sem considerar o conjunto de compromissos já assumidos no mês.
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O planejador financeiro Raphael Carneiro explica que essa distância entre a compra e a sensação de pagamento pode favorecer decisões menos refletidas, especialmente quando o processo é concluído em poucos segundos. Sem uma pausa entre o desejo e a confirmação da compra, o consumidor pode acabar priorizando a facilidade da transação em vez do impacto daquele gasto no orçamento.
“Fica muito fácil fazer a compra, a gente não pensa duas vezes. Vê uma promoção, vê algo que queria e, ali, é só clicar, fazer o Pix ou efetivar a compra. A gente não dá tempo de pensar direito se faz sentido fazer aquela compra naquele momento”.
Para reduzir o risco de perder o controle, Raphael recomenda concentrar os gastos, sempre que possível, em um número menor de meios de pagamento e acompanhar essas despesas com frequência. “Se eu concentrar tudo no cartão, por exemplo, e tenho o hábito de toda semana olhar a fatura, eu não vou ser surpreendido”, diz. Ele também orienta estabelecer um valor mensal para compras online e observar sinais de alerta, como dificuldade para pagar a fatura, uso recorrente do cheque especial ou necessidade de apertar outras despesas para acomodar novos pedidos.
*SOB SUPERVISÃO DA EDITORA CASSANDRA BARTELÓ


