ECONOMIA
Transnordestina e 3 mil km de trilhos devolvidos: entenda o novo mapa ferroviário
Mudanças na malha envolvem trechos sem operação, novos investimentos e uma ferrovia em obras


Com previsão de conectar o interior do Nordeste ao Porto do Pecém, no Ceará, a Ferrovia Transnordestina é um dos principais projetos de infraestrutura logística em execução na região. Planejada há cerca de duas décadas, a iniciativa pretende criar uma alternativa ao transporte rodoviário e facilitar o escoamento de produtos agrícolas, minerais e industriais.
O projeto atualmente em construção prevê 1.206 quilômetros de extensão, ligando o município de Eliseu Martins, no sul do Piauí, ao Complexo Industrial e Portuário do Pecém, na região metropolitana de Fortaleza. No percurso, a ferrovia atravessa 53 municípios de três estados: Piauí, Pernambuco e Ceará.
A expectativa do governo federal é concluir essa primeira etapa até o fim de 2027. Uma segunda fase, com aproximadamente 151 quilômetros adicionais dentro do Piauí, tem previsão de entrega para 2028.
O que será transportado pela Transnordestina?
A proposta é utilizar a ferrovia para transportar diferentes tipos de mercadorias produzidas ou consumidas no interior nordestino. Entre os produtos previstos estão:
- grãos
- fertilizantes
- combustíveis
- cimento
- minério
- leite
- calçados
- outras cargas industriais
A conexão com o Porto do Pecém permitirá que a produção regional tenha acesso a uma estrutura portuária voltada ao mercado nacional e internacional.
Atualmente, grande parte das mercadorias transportadas pelo interior do Nordeste depende das rodovias. Com a entrada em operação da ferrovia, a expectativa é reduzir os custos logísticos e oferecer uma alternativa para o deslocamento de grandes volumes de cargas.
Por onde passa a ferrovia?
O traçado parte de Eliseu Martins, no Piauí, atravessa o sertão pernambucano, passando pela região de Salgueiro, e segue pelo interior do Ceará até chegar ao Porto do Pecém.
No Ceará, dois trechos inaugurados recentemente passam pelos municípios de Acopiara, Piquet Carneiro, Senador Pompeu e Quixeramobim.
A construção desses lotes envolveu a movimentação de aproximadamente 13 milhões de metros cúbicos de terra, a utilização de 13,2 mil toneladas de trilhos, a instalação de 169 mil dormentes de concreto e o emprego de cerca de 242 mil metros cúbicos de brita.
Ferrovia já teve operação experimental
Mesmo sem a conclusão de todo o projeto, a Transnordestina já começou a receber testes de circulação de cargas.
Em dezembro de 2025, um trem carregado de milho percorreu 585 quilômetros entre Bela Vista, no Piauí, e Iguatu, no Ceará. A operação foi a primeira do tipo autorizada pelo Ibama.
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A viagem, inicialmente programada para durar 14 horas, foi concluída em pouco mais de 12 horas.
Quanto já foi investido?
A construção da Transnordestina envolve recursos bilionários. Segundo o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, quase R$ 10 bilhões haviam sido desembolsados até março de 2026 para financiar as diferentes etapas do empreendimento.
Além da ferrovia principal, outras iniciativas estão previstas para ampliar a estrutura de transporte e armazenamento de cargas.
Entre elas estão o Ramal Nelog, que fará a ligação direta da linha ferroviária a um Terminal de Uso Privado no Complexo do Pecém, e o Porto Seco de Quixeramobim, empreendimento privado estimado em R$ 1 bilhão.
Projeto original também previa ligação com Pernambuco
O planejamento inicial da Transnordestina contemplava uma estrutura ainda maior, com aproximadamente 1.753 quilômetros de extensão.
Além da ligação entre o Piauí e o Ceará, o projeto previa um ramal de cerca de 550 quilômetros entre Salgueiro, em Pernambuco, e o Porto de Suape.
Esse trecho foi retirado da concessão da TLSA durante o governo anterior e passou à responsabilidade direta da União.
A retomada das obras, entretanto, depende de novas etapas de avaliação. O Tribunal de Contas da União (TCU) determinou a atualização dos estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental antes da continuidade da contratação.
Em junho, o vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo federal pretende defender junto ao tribunal a liberação das obras.
Paralelamente, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) desenvolve estudos para integrar a Transnordestina a outros corredores ferroviários, incluindo uma possível ligação entre Salgueiro e Petrolina e projetos de retomada do transporte ferroviário de passageiros entre Recife e Caruaru.
Devolução de 3 mil quilômetros de ferrovias à União
Outro movimento envolvendo a estrutura ferroviária nordestina é a repactuação da concessão da Malha Nordeste, administrada pela Ferrovia Transnordestina Logística S.A. (FTL).
O acordo entre a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e a concessionária recebeu parecer favorável do Tribunal de Contas da União (TCU) e prevê a devolução de 3.014 quilômetros de trilhos sem operação à União.
A repactuação também estabelece o reconhecimento de uma indenização de R$ 1,785 bilhão devida pela empresa ao governo federal. A quitação do valor e a efetivação das principais obrigações do acordo estão condicionadas à prorrogação da concessão, cujo vencimento atual está previsto para 2028.
A empresa também deverá investir R$ 136,28 milhões em obras para reduzir conflitos entre o tráfego ferroviário e áreas urbanas.
O acordo prevê ainda mecanismos de fiscalização sobre a aplicação dos recursos, além de obrigações e penalidades para o cumprimento das medidas estabelecidas.
A devolução dos trechos inativos e a construção da nova ligação ferroviária fazem parte de movimentos distintos relacionados à reorganização da infraestrutura de transportes do Nordeste.
Com a conclusão das obras e a possível ampliação das conexões, a Transnordestina poderá fortalecer a integração entre áreas produtoras, polos industriais e portos, ampliando as alternativas de transporte de cargas na região.


