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Dia da Alfabetização: analfabetismo ainda limita autonomia no Brasil

Para quem não domina a leitura e a escrita, tarefas simples podem virar barreiras à cidadania

Isabela Cardoso
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Sala de aula
Sala de aula - Foto: Divulgação

Em uma rotina cercada por placas, documentos, aplicativos, receitas médicas e contratos, saber ler e escrever está diretamente ligado à autonomia. Para quem não domina a leitura, tarefas aparentemente simples podem exigir a ajuda de outra pessoa e gerar insegurança ou dependência.

A frase “Eu sei falar, mas não sei ler” resume uma realidade que vai além da dificuldade escolar. São pessoas que trabalham, cuidam dos filhos, fazem compras, circulam pela cidade e constroem suas próprias histórias, mas encontram obstáculos quando precisam lidar com a palavra escrita.

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Neste Dia Internacional da Alfabetização, celebrado nesta terça-feira, 8, histórias de adultos que retornaram à sala de aula mostram como o aprendizado pode mudar a relação com atividades comuns e ampliar a participação na sociedade.

Estratégias para viver em um mundo escrito

Quem não sabe ler ou apresenta dificuldades de leitura costuma desenvolver estratégias para lidar com situações do cotidiano. Algumas pessoas decoram trajetos, reconhecem produtos pelas embalagens, pedem que alguém leia mensagens ou precisam de ajuda para preencher documentos e formulários.

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Essas dificuldades podem estar relacionadas a diferentes trajetórias. Entre elas estão a necessidade de trabalhar desde cedo, a falta de acesso à escola, a evasão escolar, a pobreza e a distância dos serviços educacionais.

Para Laís Lira, docente das Licenciaturas e coordenadora de uma das unidades do Programa de Alfabetização do Instituto Yduqs, na Estácio, o processo precisa considerar justamente essas experiências.

“Em uma sociedade letrada, na qual atividades aparentemente simples exigem conhecimentos de leitura e escrita para serem realizadas, a nossa metodologia de ensino tem o objetivo de trazer a esse aluno, que não teve acesso à escolarização ou precisou interromper seus estudos ao longo da vida, uma alfabetização funcional e que gera, a cada encontro, autonomia para resolver problemas cotidianos, como também, para minimizar sentimentos de dependência e exclusão”, explica.

Programa já formou mais de 2,5 mil alunos

Foi com a proposta de transformar essa realidade que surgiu o Programa de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos do Instituto Yduqs. Atualmente, a iniciativa conta com mais de 20 unidades no país, cerca de 100 educadores e já formou mais de 2.500 alunos.

A proposta considera a alfabetização como uma ferramenta para situações concretas da vida. O objetivo é permitir que o estudante desenvolva conhecimentos que possam ser utilizados de maneira independente no dia a dia.

A experiência de Maria Helena Almeida, de 58 anos, é um exemplo desse processo.

Baiana volta a estudar aos 58 anos

Nascida em Santa Cruz de Cabrália, no sul da Bahia, e atualmente moradora do Barbalho, em Salvador, Maria Helena dedicou grande parte da vida ao trabalho e ao sustento da família.

Desde os 10 anos, ela desempenha atividades ligadas à plantação e à cozinha. O estudo, durante boa parte de sua trajetória, ficou em segundo plano diante das responsabilidades que precisou assumir ainda na infância.

Maria Helena Almeida, de 58 anos
Maria Helena Almeida, de 58 anos - Foto: Divulgação

Em diferentes momentos, Maria Helena conta que precisou exercer sozinha os papéis de mãe e pai. A falta de dinheiro também impôs dificuldades. Ela lembra que chegou a sair de Brotas para trabalhar na Federação caminhando, porque não tinha condições de pagar o transporte.

Hoje, a rotina é diferente. Maria Helena é dona de casa e estudante do Curso de Alfabetização e Letramento de Jovens e Adultos do Centro Universitário Estácio, em Salvador.

O retorno aos estudos representa a realização de um desejo antigo: aprender a ler. A principal motivação veio dos filhos. “Foram eles que me impulsionaram a voltar a estudar para aprender a ler”, conta.

“A leitura é um abrir de portas”

Maria Helena convive com fibromialgia e utiliza muletas para se locomover. Mesmo diante dessas dificuldades, decidiu iniciar uma nova etapa de aprendizado.

A relação com a educação também passou a ser observada a partir da trajetória dos filhos. Um deles já concluiu a formação e outro está na universidade. Essas conquistas ajudaram a fortalecer a decisão de voltar à sala de aula.

Ao falar sobre o próprio passado, Maria Helena resume os motivos que a mantiveram distante dos estudos. “Eu tive uma vida muito dura. Infelizmente, não tive pessoas para me orientar sobre a importância do estudo. Minha única missão era sobreviver.”

Agora, a possibilidade de compreender palavras, mensagens e documentos de maneira independente representa uma conquista pessoal. “Sou muito grata por essa oportunidade. A leitura é um abrir de portas na minha vida. A Estácio está sendo um grande suporte para mim”, afirma.

Alfabetização também significa autonomia

Para além de aprender letras e formar palavras, o processo de alfabetização pode modificar a maneira como uma pessoa se movimenta, toma decisões e resolve situações do cotidiano.

Ler uma mensagem sem depender de terceiros, compreender um documento ou identificar informações em uma receita são ações que podem representar pequenas conquistas para quem passou anos sem dominar a escrita.

Segundo Laís Lira, essas experiências mostram que a alfabetização está relacionada também a dignidade, pertencimento e cidadania.

“A alfabetização, nesse contexto, torna-se um instrumento de dignidade, pertencimento e transformação, reafirmando que nunca é tarde para aprender e que o acesso à leitura e à escrita é também uma forma de ampliar possibilidades e garantir o exercício pleno da cidadania”, conclui.

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Tags

Alfabetização. cidadania Educação

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