EDUCAÇÃO
Professor transforma carro em biblioteca itinerante na Bahia
Iniciativa atende cerca de 600 crianças com livros, contação de histórias e atividades de escrita


Após identificar dificuldades de aprendizagem acentuadas entre estudantes no período pós-pandemia da Covid-19, o professor Carlos Mário Santana Campos, de 50 anos, criou o projeto Ba-Midbar, iniciativa que busca fortalecer a leitura, a escrita e o desenvolvimento cognitivo de crianças e adolescentes.
O nome do projeto significa “no deserto” e faz referência à proposta de levar atividades educativas a locais onde o acesso a iniciativas culturais e pedagógicas é limitado. Em entrevista à reportagem de A TARDE, Carlos contou que a iniciativa nasceu a partir da observação da defasagem apresentada por estudantes após o período de suspensão das aulas presenciais.
A partir de seus estudos sobre cognição e música, ele passou a desenvolver atividades que unissem diferentes linguagens ao processo de aprendizagem.
“O projeto surgiu sobre um olhar crítico e sensível, considerando a realidade escolar dos alunos após o período pós-pandêmico, quando nos deparamos com alunos com muita defasagem e dificuldade nas áreas do conhecimento”, afirma.
A primeira ação ocorreu em uma praça, durante a Fliad, Feira Literária realizada em Dias d’Ávila. A programação contou com contação de histórias, musicalização e distribuição de livros. A experiência deu origem a outras ações realizadas em escolas, igrejas, comunidades e até nas casas de estudantes.
Para chegar às comunidades, o projeto recebe solicitações por telefone e também é acionado por escolas e professores. Em regiões consideradas vulneráveis, a equipe realiza visitas às residências das crianças para acompanhar o desenvolvimento da leitura e da escrita.
Além da literatura, o Ba-Midbar utiliza a música como ferramenta pedagógica e promove atividades de desenho, produção textual e interação com as crianças. Outra ação é a realização de sessões de cinema, acompanhadas de pipoca e refrigerante, para estudantes que nunca tiveram acesso a esse tipo de atividade cultural.

Biblioteca itinerante
Uma das características do projeto é a circulação dos materiais educativos. O professor utiliza o próprio carro para transportar livros e atividades e transformá-lo em uma espécie de biblioteca itinerante. A iniciativa também distribui gratuitamente cadernos de caligrafia e leitura produzidos especificamente para os estudantes atendidos.
O material é destinado, entre outros públicos, a crianças que apresentam dificuldades na consolidação da escrita. O caderno reúne textos e exercícios de caligrafia, permitindo que os estudantes pratiquem a escrita enquanto desenvolvem a leitura.
“Esses cadernos são distribuídos gratuitamente para crianças que têm disgrafia ou que ainda não têm as letras consolidadas. Fazemos essas atividades e também a entrega desse caderno de leitura, escrita e caligrafia”, explica.
Com o crescimento da procura, o projeto deixou de atender apenas um pequeno grupo inicial, estimado em 50 a 60 crianças, e passou a alcançar estudantes de escolas públicas e privadas. As ações também chegaram a municípios vizinhos, como Mata de São João e Camaçari.
Atualmente, cerca de 600 crianças são atendidas pela iniciativa, em atividades realizadas de forma semanal, quinzenal ou mensal, conforme a demanda.

Aprendizagem além da sala de aula
Durante os encontros, os estudantes participam de atividades que combinam leitura, escrita, música e criatividade. A contação de histórias é seguida por propostas como desenhos e produção textual, permitindo que as crianças expressem o que compreenderam da narrativa.
Para o professor, o envolvimento dos estudantes é um dos principais resultados do trabalho. “As crianças entregam aquele sorriso. É muito gostoso falar desse projeto, porque elas participam, veem os livros e perguntam”, relata.
A iniciativa também busca aproximar a leitura do cotidiano das crianças, estimulando a formação de leitores dentro e fora da escola. Segundo Carlos Mário, o acompanhamento permite perceber avanços no desenvolvimento dos estudantes, embora algumas dificuldades permaneçam e exijam acompanhamento contínuo.
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Apesar da expansão, o Ba-Midbar ainda enfrenta limitações financeiras. Sem patrocínio suficiente, parte dos custos com materiais pedagógicos e equipamentos é assumida pelo próprio professor. A falta de recursos, como impressora e outros materiais necessários às atividades, está entre os obstáculos para ampliar o atendimento.
Mesmo diante das dificuldades, o projeto permanece ativo em 2026 e mantém a proposta de levar literatura, música e atividades pedagógicas diretamente às comunidades. A iniciativa busca fazer da leitura não apenas uma atividade escolar, mas uma ferramenta de desenvolvimento e participação social.


