EM PAUTA
A trajetória do guia que uniu história e turismo pelas ruas de Salvador
Case de sucesso é tema do Turismo em Pauta

Ainda jovem, em Nova Canaã, sua cidade natal, buscando perspectivas de futuro, Gideon Cardoso abriu o classificado do Jornal A TARDE para ver ofertas de emprego. Como as oportunidades se concentravam em Salvador, tentou a cumplicidade dos amigos: “vamos embora para a capital?”.
Por força das circunstâncias, acabou indo para São Paulo, mas não se adaptou e retornou, se fixando em Vitória da Conquista. Naquela época, a cidade era pequena para seus sonhos. Decidiu, finalmente, vir para a capital baiana, tendo como endereço a Residência de Estudantes de Canaã, no bairro de Nazaré. Aprovado no vestibular da Universidade Federal da Bahia, se graduou em História, abraçou a carreira de professor e, em paralelo, passou a atuar como guia de turismo, movido pela magia da cultura e das belezas naturais da Bahia.
Gideon conta que, ao chegar em Salvador, ficou impactado com a cultura local e encantado com a beleza da cidade, suas praias, o movimento artístico na Praia dos Artistas, o Pelourinho, a Praça Municipal, o Elevador Lacerda, o Mercado Modelo, a Cidade Baixa em sua extensão.
“A partir daí, fiquei pensando em buscar uma área em que eu pudesse falar sobre essa bela capital”. Nesse meio tempo, então estudante de História, conheceu uma chilena que tinha retornado do exílio e estava sobrevivendo como guia de turismo. “Ela me incentivou e, quando me vi, já estava atuando na área”, recorda.
Inicialmente, ele atuou como motorista de guia de turismo. “Foi um período de grande aprendizado para mim. Eu me lembro da senhora Maria Bachelotti, uma guia clássica e com muita vontade de mostrar Salvador aos visitantes, com quem aprendi muito”.
Já pensando que facilitaria seu desejo de se tornar guia, juntou dinheiro e comprou um Opala, que viria a ser, depois, seu meio de locomover os turistas. Em 1985, decidiu fazer o curso de guia de turismo, ofertado na época pela Bahiatursa e, no ano seguinte, já credenciado como guia de turismo, conquistou os turistas e logo passou a ser conhecido por “Guia Gil”.
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No começo, Gideon levava pequenos grupos de visitantes em seu próprio carro. Interessado na cultura afro-brasileira, procurou se aprofundar nos estudos sobre religiões de matriz africana, terreiros de candomblé, capoeira, orixás. “Lembro que, quando terminávamos o passeio e deixava os turistas no hotel, eles me pediam para falar mais sobre Salvador. Como já tinha me graduado em História, eu era um guia com um diferencial.”
Bom de prosa, Gideon guarda na memória as aventuras que a carreira de guia o proporcionou. “São muitas. Tem algumas engraçadas, como a de um casal de peruanos que, após a parada para o almoço, demos sequência ao roteiro turístico. Teve um momento em que os dois ferraram no sono e começaram a roncar. Aí parei o carro em uma sombra e esperei eles acordarem. Dormiram por mais de uma hora”, conta, às gargalhadas.
Seu primeiro grande desafio foi encarar um ônibus com 45 turistas. “Quando entrei no veículo e vi aquela quantidade de gente ali me deu um calafrio de nervoso. Peguei o microfone para começar a narrar, mas muitas coisas desaparecem da cabeça e, ao mesmo tempo, falei tudo de uma vez. E aí, como é que a gente faz para continuar o roteiro? Mas fui lembrando de uma coisa ou outra e conclui o passeio. Foi, realmente, difícil essa primeira experiência, mas ganhei a prática e fiquei muitos anos guiando grandes grupos, em Salvador”, conta.
Seja na missão de guia ou professor, seu foco sempre foi mostrar a Bahia em todos os seus aspectos: histórico, cultural, musical, literário, religioso, sempre exaltado as suas belezas naturais e sua importância histórica. Nos city tours do Farol da Barra ao Pelourinho, Gideon ressalta que apresentava ao visitante não só igrejas, conventos e monumentos, como abordava, por exemplo temas da cultura religiosa como a Lavagem do Bonfim, com seus rituais sagrados e profanos. “O turista fica bem encantado com esses movimentos, com essa forma de a gente falar na cultura e da nossa importância em todo continente americano”, relata Gideon.
Ela acrescenta que sempre inseriu na sua narrativa como guia a história de ícones da cultura baiana, como Dorival Caymmi, Caribé, Carlos Bastos, Vinícius de Moraes e, sobretudo, Jorge Amado. “Destacava, sobretudo, a importância de Jorge Amado que, através de seus livros, divulgou a Bahia para o mundo inteiro. Também falava de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Tom Zé e outros artistas baianos que se tornaram uma referência nacional.
Embora a vida o tenha levado para se firmar na carreira de professor de História da rede pública de ensino, tendo assumido, por 18 anos, o cargo de diretor escolar, Gideon diz que nunca perdeu o espírito da profissão de guia de turismo. “Agora, recém-aposentado, estou retomando à área, que é algo que gosto muito. Mas pretendo realizar roteiros mais especializados, focados em áreas mais específica como as ordens religiosas relacionadas à igreja católica.”
Ele acredita que, com a redução da sazonalidade do turismo na Bahia, a sobrevivência profissional dos guias aumentou. “Hoje em dia, temos uma variedade de tipos de turismo. O que precisa ser feito, imediatamente, é tornar a fiscalização mais rigorosa, para evitar que pessoas não credenciadas atendam os turistas, prestando um serviço não profissional”.
Fora esta reivindicação, ele diz que a categoria considera positivas as iniciativas do governo estadual, em parceria com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), de promover cursos de qualificação e requalificação, principalmente para os guias que atuam no interior da Bahia.
Música e turismo: importante ativo econômico de Salvador
A dobradinha música e turismo, na Bahia, se revela como um atrativo cartão de visita e importante ativo econômico, contribuindo para a redução da sazonalidade das atividades turísticas. Reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) como “Cidade Criativa da Música”, Salvador é um dos destinos baianos que mais engajam o segmento do turismo musical. Ritmos como axé, samba-reggae, ijexá e pagode embalam milhões de visitantes no Carnaval, em festas de largo, ciclos festivos e ensaios de blocos. Mas nesse cardápio musical inclui, ainda, shows de grandes nomes da música popular brasileira e apresentações filarmônicas.
A produtora cultural Fau Motta, curadora e programadora do espaço cultural e gastronômico Casa da Mãe, no Rio Vermelho, ressalta que a música tem uma enorme força para movimentar o turismo pois, muitas vezes, ela é o próprio motivo da viagem.
“E esse turista não movimenta apenas a bilheteria do evento, consome hospedagem, restaurantes, transporte, bares, movimentando toda uma cadeia econômica e gerando trabalho para artistas, técnicos, produtores, fornecedores, garçons, vendedores ambulantes”, reflete, destacando “a potente produção cultural da cidade como propulsora de uma agenda permanente capaz de atrair visitantes também em períodos de menor fluxo turístico.”
Bloco Olodum, que se consagrou como símbolo de resistência antirracista e propagador da cultura afro-baiana, ao longo dos seus 47 anos de existência, atrai turistas do mundo inteiro com a batida do samba-reggae. O presidente de Relações Institucionais da entidade, Marcelo Gentil, conta que o grupo tem uma agenda extensa de shows na Bahia, no Brasil e no exterior, mas procura realizar, aos domingos, seus ensaios, voltados para a difusão do tema do Carnaval e das composições de seus integrantes.
Marcelo conta que a Escola Olodum realiza, com uma certa frequência e sempre aos sábados, aulas públicas de percussão e dança, pelas ruas do Centro Histórico de Salvador. “Eventos como a Varanda Cultural, na sacada da Casa do Olodum, com a percussão performando em frente ao espaço, é um outro tipo de ação que ajuda a movimentar as ruas e, em especial o comércio local”, relata, destacando que essas iniciativas “atraem um grande número de pessoas ao Pelourinho, com um público formado por moradores de Salvador, de outras cidades baianas, outros Estados e até do exterior”.

Casa da Mãe
Além de um importante espaço para a apresentação de artistas independentes, a Casa da Mãe também se tornou um ponto turístico. Muitos visitantes chegam para conhecer o espaço, independentemente de saber qual será o show da noite; “Com a bênção de Mãe Iemanjá e o empenho de Stella Maris, idealizadora do espaço, o sonho de criar um lugar onde a cultura pudesse se manter viva durante todo o ano, é uma realidade há 20 anos”, conta a produtora cultural. Mas manter um espaço cultural funcionando, desde 2006, sem nenhum patrocínio, diz, “é um feito admirável e resultado de muita dedicação”.
A curadoria do espaço contempla diferentes estilos musicais, com temporadas dedicadas ao chorinho, ao jazz, ao samba e outros gêneros. Artista independente, como Sandra Simões, Pedro de Rosa Morais, Lito, Vagaluzia, Jussara Silveira, Lan Lanh e Mãeana, têm lugar cativo na programação.
“Com persistência, uma agenda sempre viva e eclética e um carinho especial pelos artistas locais, a Casa da Mãe foi se consolidando como um dos espaços mais queridos por músicos, artistas, formadores de opinião e pelo público que ama boa música”, comemora.
Na baixa estação, Fau Motta diz que esse trabalho se torna ainda mais importante. “É preciso criatividade, planejamento e capacidade de criar experiências que façam as pessoas quererem estar em Salvador não apenas nos grandes períodos festivos, mas durante todo o ano”. Mas essa responsabilidade, afirma, não pode estar somente nas mãos dos produtores e dos artistas.
“É fundamental que grandes empresas e empresários também se sensibilizem com a importância da cultura, da música e da manutenção dos espaços culturais que mantêm essa cena viva. Investir e apoiar esses espaços é também construir uma cidade culturalmente viva e fortalecer toda uma cadeia econômica”, avalia.
Para isso, afirma Fau Motta, o compromisso é manter uma programação permanente durante o ano todo, valorizando os artistas locais, a produção autoral e os encontros entre diferentes gerações da música”.
Na programação, shows, lançamentos de discos, saraus, leituras musicadas e projetos temáticos que celebram grandes nomes da nossa cultura, como o dedicado a Caetano Veloso, em celebração aos seus 84 anos. “É um trabalho desafiador, mas fundamental para manter a cena cultural viva, buscando atrair baianos e turistas, independentemente da época do ano.”









