ESPECIAL SAÚDE
Saúde multidimensional traz novo olhar na busca pela longevidade saudável
Conceito que vai além da ausência de doenças ganha força na busca pelo bem-estar integral


A concepção de saúde multidimensional trouxe um novo olhar para o antigo conceito médico de que sanidade significa ausência de doenças. Dentro de uma abordagem holística, o bem-estar ganhou dimensão global, sob oito pilares interconectados: físico, mental/emocional, social, espiritual, intelectual, profissional, ambiental e financeiro.
Projeções da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que, até 2050, um terço da população brasileira será composta por pessoas acima de 60 anos. Em busca da longevidade saudável, o foco passou a ser o cuidado do corpo e da mente, por meio de práticas e hábitos diários voltados ao equilíbrio da saúde física e emocional.
Especialistas ligados à saúde integral afirmam que cuidar de si globalmente envolve um combo complexo: nutrição, sono reparador e atividades motoras; gerenciamento de estresse, autoconhecimento e resiliência psicológica; qualidade nas relações, senso de pertencimento e redes de apoio; propósitos de vida, valores pessoais e paz interior; estimulação da mente, do aprendizado contínuo e da criatividade; equilíbrio entre carreira e vida pessoal e satisfação no trabalho; relacionamentos harmônicos com o entorno e percepção do impacto positivo do meio ambiente no corpo; estabilidade econômica e relação saudável com o dinheiro.
A médica Dalva Meira compartilha a ideia de que “saúde é ter tempo para existir, para aproveitar a vida em outras funções e não apenas dar conta das demandas que são propostas no dia a dia”. Sair do modo sobrevivência, considera, é a forma mais apropriada de alcançar o campo amplo que a saúde espera do ser humano.
“Daí a importância dos cuidados com alimentação, sono, rotina de exercícios físicos, construção participativa nos relacionamentos pessoais e sociais, equilíbrio financeiro, terapias integrativas, práticas espirituais, lembrando que corpo e mente funcionam com trocas e nutrem entre si”, enaltece. Preservar a saúde, acrescenta, “não se trata apenas de cuidar de si, mas também de praticar a integração de outros indivíduos em uma coesão social, visando a autorregulação no eixo sociológico.”

No e-book “Passei dos 40. E agora?”, a autora Renata Matos, jornalista e pós-graduada em Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização e mentora em Desenvolvimento Humano, propõe a mentalidade de prevenção por meio das dimensões emocional, físico, intelectual, relacional e espiritual.
“Uma pessoa pode se alimentar bem e praticar atividade física, mas não terá bem-estar se viver emocionalmente exausta, ter relações adoecedoras, estar desconectada de seus valores e sem sentido de vida. Saúde 360º é quando conseguimos nos cuidar de forma integrada, entendendo que um aspecto impacta diretamente o outro.”
Dimensões do bem-estar
Renata destaca a dimensão relacional como um dos mais importantes pilares da saúde. “Temos evidências consistentes sobre o impacto dos vínculos sociais na saúde e longevidade”, diz, citando a Harvard Study of Adult Development, pesquisa longitudinal iniciada em 1938, considerada, hoje, uma das mais extensas sobre a vida adulta. Esses estudos, enfatiza, encontraram evidências de que bons relacionamentos estão associados a vidas mais felizes e saudáveis.
“A satisfação com as relações aos 50 anos é um melhor preditor da saúde aos 80 anos do que os níveis de colesterol medidos na meia-idade. Portanto, cuidar da saúde é também escolher bem quem senta à nossa mesa, fortalecer amizades, construir vínculos seguros, colocar limites nas relações e criar comunidade.”
Dados da OMS apontam que 9,3% da população brasileira, ou seja, cerca de 18,6 milhões de pessoas vivem com ansiedade.
“Índice este que colocou o Brasil no topo do ranking mundial do transtorno. Segundo números do Ministério da Previdência Social, os afastamentos por burnout (distúrbio psíquico de esgotamento físico e mental causado por estresse crônico no ambiente de trabalho) cresceram 823% no país, nos últimos quatro anos. Isso revela uma sociedade que aprendeu muito sobre produtividade e performance, mas ainda precisa aprender sobre saúde emocional, respeito aos limites individuais e prevenção”, atesta Renata, adepta do Modelo Spire, estrutura de bem-estar integral criada pelo pesquisador Tal Ben-Shahar, e idealizadora do Conectar, programa de desenvolvimento pessoal.
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Para mulheres 40+, afirma a terapeuta, essa visão integralista se torna ainda mais essencial, por ser uma fase “de transformações hormonais e físicas, filhos crescendo, pais envelhecendo, questionamentos profissionais, mudanças nos relacionamentos e revisão da própria identidade”. Ela propõe que essa mulher faça uma reorganização da vida.
“Em vez de perguntar apenas como está seu corpo, questionar como estão suas emoções; se tem relações nas quais se sente segura e acolhida; se sua mente continua sendo estimulada.”, provoca Renata, fundadora do Movimento Viva Você, através do qual ela promove experiências como Clube do Livro, canoagem, treino funcional, yoga e bate-papos sobre maturidade, bem-estar e longevidade.
Conectado à espiritualidade através do Candomblé, o fisioterapeuta e professor de pilates, Thiago Corrêa, identifica no exercício da fé um importante item do conceito multidimensional de saúde.
“Somos seres biopsicossociais. Cuidar da saúde, portanto, envolve a tríade biológico, social e psicológico. E quando falamos de cuidar da espiritualidade, que é o que dá às pessoas o sentido de propósito de vida e uma forma de lidarem com resiliência as dificuldades da vida, estamos falando de zelar a ancestralidade dentro de um contexto social e psicológico, trazendo equilíbrio para a saúde global”, reflete.

A também fisioterapeuta Júlia Bezerra considera que estar bem emocional e mentalmente é essencial para o equilíbrio da saúde física. “Procuro a paz de espírito através do contato com a natureza, principalmente o mar, onde me conecto, me renovo, me revigoro”, conta.
Os múltiplos benefícios terapêuticos, comprovados cientificamente, das águas salgadas são destacados por ela. “A presença de minerais, como magnésio, potássio, cálcio e iodo; o movimento e som das ondas; e o cheiro do salitre atuam na saúde da pele, no sistema respiratório, no relaxamento muscular e no bem-estar mental”, enumera Julia, que também é professora de pilates.

Ambiente corporativo
A forma como o mundo corporativo olha para a saúde e o bem-estar mudou nos últimos anos, na opinião de Leonardo Maia, vice-presidente sênior de Comunicação da investidora global Brookfield.
“Há, hoje, o entendimento de que bem-estar vai além dos cuidados diretamente relacionados à saúde. Existe, na empresa, uma cultura que valoriza o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, bem como senso de pertencimento e conexão com a comunidade”, diz, destacando iniciativas como suporte psicossocial; estímulos à prática de atividades físicas; atendimento médico na sede; investimento em equipamentos ergonômicos e subsidio de 80% do custo de medicamentos. Esse olhar mais amplo “fortalece o engajamento e vínculo das equipes, atrai e retém talentos e pode contribuir para a redução do absenteísmo e da sinistralidade dos planos de saúde”.
Para a terapeuta Renata Matos, o setor empresarial precisa “construir uma verdadeira cultura de cuidado”, o que significa criar ambientes mais humanos e, por tabela, favorecendo a retenção, produtividade e resultados sustentáveis.
“Uma empresa realmente comprometida com saúde integral precisa olhar para sobrecarga de trabalho, segurança psicológica, qualidade das lideranças, relações, reconhecimento, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e saúde física e emocional”, enumera. Isso significa, segundo ela, que “não adianta oferecer ações pontuais de saúde, se a própria cultura organizacional continua produzindo adoecimento”.
A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 do Ministério do Trabalho e Emprego do Brasil, ressalta, “representa um avanço ao incorporar os riscos psicossociais à gestão de riscos ocupacionais, mas cumpri-la precisa ser o ponto de partida, não o objetivo final”.


