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SAÚDE MENTAL E REDES SOCIAIS

O preço de viver conectado: decisão de Viih Tube traz alerta de psicólogo

Influenciadora anuncia saída e reacende debate sobre exposição

Beatriz Santos
Por
Viih Tube anunciou saída das plataformas digitais
Viih Tube anunciou saída das plataformas digitais - Foto: Reprodução | Redes sociais

A decisão de Viih Tube de deixar definitivamente as redes sociais, anunciada nesta quarta-feira, 7, abre uma discussão que ultrapassa o universo dos influenciadores: o que acontece quando uma pessoa passa anos construindo sua identidade, sua carreira e parte da própria vida diante das telas e, em determinado momento, deixa de encontrar sentido nessa exposição?

A influenciadora, que começou a produzir conteúdo ainda adolescente e hoje reúne mais de 31 milhões de seguidores apenas no Instagram, afirmou que a internet “perdeu o sentido” para ela e apontou a “falta de propósito” como principal motivo para a decisão.

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Natural de Sorocaba, no interior de São Paulo, Viih Tube é atriz, influenciadora e youtuber. Ela criou seu canal aos 12 anos, quando seus pais estavam se separando. Agora, a relação com a internet chega a um ponto de ruptura. Em publicação nos stories do Instagram, na madrugada desta quarta-feira, 7, Viih Tube anunciou que pretende desativar seus perfis em 30 de novembro e relembrou diferentes momentos da trajetória construída na web.

“Vou sair das redes sociais ainda esse ano. Estou planejando essa mudança há uns meses, e com certeza é a maior mudança de rota da minha vida. Tudo está previsto para 30/11, o dia que eu não terei mais minhas redes sociais”, começou ela.

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Ao recordar os anos em que trabalhou produzindo conteúdo, a influenciadora também destacou o carinho que teve pela profissão. “Caramba já vivi tanta coisa. Fui tão feliz como youtuber, criadora de conteúdo, como eu amei cada coisa que inventava. Vivi intensamente”, afirmou ela.

“As coisas na internet perderam o sentido”

A decisão, segundo Viih Tube, não surgiu de forma repentina. Ela afirma que vinha planejando a mudança havia meses e que a escolha representa uma transformação definitiva em sua trajetória.

“O principal motivo é falta de propósito. Antigamente as coisas eram mais leves, mais do coração, não se fazia por dinheiro, se fazia por amor e ainda era chacota na escola (risos). Eu me reinventei muitas vezes e em todas elas foi com amor, com vontade de mudar. E dessa vez a mudança é pra sempre”, declarou.

Em seguida, a influenciadora explicou que a relação com a internet já havia mudado para ela antes mesmo do anúncio. “E eu sei que é… As coisas na internet perderam o sentido pra mim há um tempo, e eu venho me organizando pra dar esse grande passo. Isso que deixei é pra você, que ainda tem vontade de sonhar e criar conteúdos”, desabafou.

No fim do anúncio, Viih Tube falou sobre o futuro e apresentou a decisão também como uma possibilidade de recomeço. “Pretendo ser sua grande mentora, um novo começo pra você e um novo começo pra mim, muito mais feliz”, encerrou.

O relato da influenciadora acontece em um momento em que a presença digital começa cada vez mais cedo. Segundo a TIC Kids Online Brasil 2024, 23% das crianças e adolescentes brasileiros de 9 a 17 anos tiveram o primeiro contato com a internet até os 6 anos. Outros 8% começaram aos 7 anos e 10% aos 8. Somados, os dados mostram que 41% tiveram o primeiro acesso até os 8 anos.

A mesma pesquisa aponta que 83% dos usuários de internet brasileiros de 9 a 17 anos possuem um perfil próprio em plataformas digitais. Entre adolescentes de 15 a 17 anos, o índice chega a 99%; entre aqueles de 13 a 14 anos, são 93%.

O cenário mostra que, para uma parcela significativa dos jovens, a presença nas plataformas já faz parte da construção de uma identidade digital. Entre crianças de 9 e 10 anos, 60% já possuem perfil próprio em plataformas digitais. O percentual sobe para 70% entre 11 e 12 anos, 93% entre 13 e 14 e chega aos 99% entre 15 e 17 anos.

Quando a relação com as redes começa a pesar

Para entender o que pode levar uma pessoa a desejar um afastamento completo das plataformas, o portal A TARDE entrevistou com exclusividade o psicólogo João Pedro Carvalho Araújo, graduado em Psicologia pela EBMSP (Bahiana) em 2022.

O profissional tem pós-graduações em Intervenções e Cuidados a Crises Suicidas, Psicologia Infantil, Psicologia Clínica e Terapia de Casal, além de atuar como psicólogo clínico desde 2023, atendendo crianças, adolescentes, adultos e idosos.

Psicólogo João Pedro Carvalho Araújo
Psicólogo João Pedro Carvalho Araújo - Foto: Reprodução

Ao falar sobre os motivos que podem levar alguém a querer se afastar completamente das redes, João Pedro começa lembrando como as plataformas eram utilizadas no passado.

“Quando pensamos no começo das redes sociais, Orkut, Bate Papo UOL, MSN, até mesmo o Facebook em seu início, pensamos em momentos de diversão, compartilhamentos, identificações; Havia comunidades, formas de comunicação a distância, interações com pessoas que saíram do ciclo de convívio, cidade, estado, país”.

Segundo ele, a função das plataformas mudou à medida que a internet passou a ocupar outros espaços da vida cotidiana.

Hoje, as redes sociais se tornam local de comunicação geral, o mundo se adaptou a usar redes sociais como formas ‘oficiais' de comunicação; Hoje se torna palpável ganhar dinheiro com a internet, de uma maneira mais fácil do que era há 10 anos. Isso gera o excesso de conteúdos e, através do algoritmo de recomendação, acontece o bombardeamento de informações. E é aí que ocorre o afastamento, o cansaço. João Pedro de Carvalho Araújo - Psicólogo

Para o psicólogo, esse cansaço pode ser provocado por diferentes fatores, entre eles a comparação com a vida apresentada por outras pessoas. “O cansaço pode ser gerado por diversas fontes, acúmulos de comparação - comparar sua vida com o fragmento da vida postada do outro. Reclusão de conteúdos - evitar ver alguns tipos de conteúdos, seja de pessoas que seguem, assuntos/temas ‘do momento’ ou até aquele(a) ex em algum stories”.

O afastamento também pode ser entendido como uma forma de recuperar tempo e energia para outras atividades.

Foco em outras áreas da vida, quando falamos de rede social falamos também do quanto eleva o tempo e energia gastos nelas. Ao se afastar das redes, há transformação de tempo para outras áreas, que a pessoa pode julgar mais importante naquele momento, como estudos, trabalhos, relações ‘ao vivo', etc. João Pedro Carvalho Araújo - Psicólogo

Os sinais de que algo mudou

Uma revisão sistemática publicada em 2024 por Naila Saleem, Paul Young e Saman Yousuf analisou 67 estudos sobre o uso de redes sociais e sintomas de ansiedade e depressão entre crianças e adolescentes.

Publicado na revista Cyberpsychology, Behavior, and Social Networking, o trabalho encontrou associação entre o uso problemático das plataformas e sintomas de depressão e ansiedade. Os autores também identificaram fatores como privação de sono, comparação social e busca por feedback como possíveis mecanismos que influenciam essa relação.

Para João Pedro, um dos primeiros sinais de uma relação que deixa de ser saudável pode estar no comportamento diante do próprio celular. “Durante meu tempo prático como psicólogo reparei que há uma divisão notável do bem estar nas redes sociais ou não. Um começo é checar constantemente o smartphone, olhando stories, reels, conversas, feed; A perda da interação pessoal para a interação on-line se faz mais forte”.

Outro sinal está relacionado ao impacto emocional provocado pelos conteúdos consumidos. “Em outro lado, um aspecto também notável é o aumento da ansiedade, se fica ansioso por conteúdos que viu, se utiliza as redes sociais como forma de fuga. Pode-se perceber que há um aumento de irritabilidade ou falta de paciência, o stress produzido por informações indesejadas ou que chateiam chega muito mais facilmente atualmente”.

O problema pode se aprofundar quando as plataformas deixam de ser apenas uma ferramenta de socialização e passam a representar o principal caminho para estabelecer contatos e descobrir novas experiências. Diante desses sinais, João Pedro propõe uma pergunta que pode ajudar a pessoa a compreender a própria relação com as plataformas.

É preciso começar a pensar e se perguntar: para que e por que estou usando tanto as redes sociais? Há uma verdadeira diversão, prazer, dopamina, aqui, ou estou disfarçando? João Pedro Carvalho Araújo - Psicólogo

Comparação, aprovação e a sensação de vazio

relação entre redes sociais e saúde mental também aparece em pesquisas que reúnem grandes grupos de adolescentes. Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em 2024 na revista JAMA Pediatrics, assinada por Luisa Fassi, Kirsten Thomas, Douglas A. Parry, Amelia Leyland-Craggs, Tamsin J. Ford e Amy Orben, analisou 143 estudos que, juntos, reuniram 1.094.890 adolescentes.

Os pesquisadores encontraram uma associação positiva entre o uso das redes sociais e sintomas internalizantes, como ansiedade e depressão. A relação também foi observada quando foram analisados especificamente o tempo de uso e o nível de engajamento nas plataformas.

O dado, porém, não significa que as redes sociais sejam responsáveis isoladamente pelo desenvolvimento desses sintomas. A literatura aponta uma relação complexa, que pode envolver diferentes características do uso e da experiência de cada pessoa.

Para João Pedro, a própria estrutura das redes pode ajudar a compreender por que a exposição constante, a comparação e a busca por aprovação podem contribuir para uma sensação de vazio. “Dizer que pode seria uma hipérbole. Vamos pensar em como um shopping é construído, onde estão as escadas rolantes? Como são feitos os corredores? Como funciona o sistema de luminosidade do shopping? Vitrines, rotatividade, perda de senso do tempo e consumo. As redes sociais funcionam dessa exata maneira atualmente”.

O psicólogo ressalta que é necessário diferenciar criadores de conteúdo, influenciadores e marcas, mas afirma que existe uma lógica própria no funcionamento das plataformas.

Naturalmente devemos separar os criadores de conteúdo para os 'influenciadores' e marcas. Mas falamos aqui da fórmula da rede social. Consumir sonhos hoje se torna mais fácil do que antes; mas consumir não é viver, construir. Consumimos através do outro, da vida que o outro tem, ou melhor, mostra que tem, consumimos através de fotos e vídeos, tão curtos mas ao mesmo tempo tão longos. João Pedro Carvalho Araújo - Psicólogo

A distância entre aquilo que se vê e aquilo que efetivamente se vive pode, segundo ele, alimentar a sensação de vazio.

O consumir um sonho não nós faz vivenciá-lo, e se ainda não posso, vou vê-lo através de quem vive hoje, e é aqui que se torna o risco da sensação de vazio ou perda de propósito. Começamos a entender as redes como a vida do outro, e uma das emoções primárias do ser humano é a inveja, e com ela vem o desejo de ter, de ser; e nele não vem a possibilidade, gerando o vazio. João Pedro Carvalho Araújo - Psicólogo

Quando a aprovação vira número

A busca por aprovação também ganha uma dimensão concreta nas plataformas, onde curtidas, comentários, visualizações e compartilhamentos podem funcionar como indicadores de atenção. “Enquanto sociedade damos valor ao que é palpável e contabilizado, e quando falamos de redes sociais isso se refere a números. Números de curtidas, comentários, visualizações, compartilhamentos, etc".

Para João Pedro, essa transformação altera inclusive a maneira como as pessoas demonstram afeto e atenção.

Essa forma de comunicação exige presença, comentários em posts, stories e curtidas, é a nova forma de ter à atenção do outro. É mais comum pessoas demonstrarem afeto através de interações algorítmicas do que buscando estar na presença do outro. Disso também vem a perda de propósito ou sensação de vazio, quando não há, falta, sente, sofre - é desimportante, não vale o tempo do outro. João Pedro Carvalho Araújo - Psicólogo

O chamado esgotamento digital

A sensação de cansaço provocada pelas redes também pode assumir diferentes formas. João Pedro diferencia a simples perda de interesse por determinada plataforma de um desgaste mais amplo.

O cansaço das redes se faz mais simples, sendo possível resumir na perda de interesse em uma rede social ou de seus conteúdos. Esgotamento digital pode ser entendido como um ‘burnout digital', gerando desgaste da psiquê, mental, emocional e social. Não para patologizar ou diagnosticar, mas sim para compreender a que nível está o seu cansaço e como ele vem lhe afetando no dia-a-dia. João Pedro de Carvalho Araújo - Psicólogo

Um dos comportamentos que podem aparecer nesse contexto é o consumo automático de conteúdo. “Podemos pensar aqui em formas de expressão como o ato de passar os conteúdos das redes sem observar de fato o que está vendo, ou abrir e fechar a rede social em ciclo repetitivo, sem acessar de fato alguma informação ou contato, esperando que na próxima haja algo interessante e que lhe supra, já que nada fora das telas pareça cumprir isso também”.

A dificuldade de concentração também é citada pelo psicólogo. “Aumento na dificuldade de concentração, seja fixar em algo por algum tempo, até mesmo conteúdos das redes que demorem mais de um minuto, ou seja, conseguir focar para começar algo”.

Na avaliação de João Pedro, o excesso contínuo de estímulos ajuda a explicar esse processo. “Trazendo em um sentido biopsicologico, podemos compreender que a exaustão digital ocorre porque nosso cérebro não suporta receber ininterruptamente estímulos, informações que as redes sociais nos impõe”.

Uma geração que cresce conectada

A presença prolongada nas redes sociais também pode influenciar a forma como crianças e adolescentes constroem a própria identidade. Para João Pedro, é justamente na adolescência que esse processo ganha uma estrutura mais própria.

A identidade começa a ser formada na adolescência, uma vez que na infância mais reproduzimos o que vemos e convivemos do que produzimos. Em um exemplo prático, durante a pandemia, houve crianças desenvolvendo sotaques de outros estados, devido a vídeos, filmes, desenhos e redes sociais. João Pedro Carvalho Araújo - Psicólogo

Segundo o psicólogo, aquilo que é vivido e consumido no ambiente digital também passa a participar da construção da percepção que o indivíduo tem de si.


“A própria existência online, o próprio convívio, conversas e acessos aos demais conteúdos, influencia diretamente no processo de construção identitária e de si, afinal se torna o que se vive e convive. A família e a escola deixam de ser os principais pontos de pertencimento, até mesmo se torna mais influenciável quando a família não é e não se faz um local de pertencimento identitário”, afirma.

Para João Pedro, essa influência pode alcançar ainda comportamentos, relações e visões de mundo, especialmente durante uma fase de desenvolvimento.

“Estamos vendo uma geração de homens sendo formada por uma adolescência que cresceu consumindo conteúdos Red-pill, e produzem uma misoginia que foi lutada para ser, pouco, diminuída. Estamos frente a crianças que não conseguem lidar com tarefas longas, filmes ou brincadeiras que necessitem de tempo e criatividade”, diz.

O psicólogo ressalta que crianças e adolescentes também estão mais suscetíveis às influências do ambiente. “Igualmente como adultos, com lobo frontal ‘plenamente' desenvolvido, são influenciados, ao ponto de mudar estilo de vida, trabalho, relações e opiniões, as crianças e adolescentes estão ainda mais sujeitas a isso devido ao processo de aprendizado, da estruturação da moral e compreensão da ética".

A influência exercida pelas redes sociais também aparece na maneira como crianças e adolescentes enxergam o próprio corpo. Ao longo dos anos, diferentes padrões de beleza ganharam força no ambiente digital, acompanhados por mudanças corporais e procedimentos estéticos.

“Vimos um padrão de beleza popular se modificar inúmeras vezes, com alterações corporais, preenchimentos ou esvaziamentos. E isso gera crianças e adolescentes em problemáticas com a estética, como ser pertencente ao grupo do padrão da beleza, gerando distúrbios alimentares e necessidade de aprovação”, afirma João Pedro.

O psicólogo relaciona essa busca por pertencimento à ideia de que determinadas características e estilos de vida precisam ser alcançados para que uma pessoa seja aceita. “Compreensão de que para ser aceito, para pertencer e para valer é preciso ter aquela qualidade e tipo de vida. Apesar de isso ser uma questão existente desde sempre na sociedade, hoje como algumas são acessíveis, gera a ideia de que há a necessidade de ser conquistado o quanto antes”.

É preciso abandonar as redes sociais?

Diante de uma relação que passou a provocar sofrimento ou desgaste, a saída mais óbvia pode parecer abandonar completamente as plataformas. Para João Pedro, porém, principalmente quando existe uma relação de adicção, é necessário pensar também na forma como essa interrupção será feita.

“Quando falamos em adicção se torna fundamental pensar em redução de danos ao invés de cortes bruscos. Tirar completamente a rede pode ser um caminho visto como ‘mais rápido’, afinal é só desinstalar”. Segundo o psicólogo, a retirada abrupta pode provocar uma reação de retorno.

Mas daí pode vir o rebote, a abstinência, porque a quantidade excessiva de dopamina rápida que é perdida é muito dificilmente substituída offline. Afinal, atividades manuais, convivências e relações podem sim gerar dopamina, mas diferentemente de como se faz no ‘rolar' das redes. João Pedro de Carvalho Araújo - Psicólogo

Por isso, ele defende que a mudança seja acompanhada pela construção gradual de outras formas de ocupar o tempo. “Estamos tirando algo que é imediato para algo que é processo, lento, construído; Daí se faz a relevância da redução de danos, começar a substituir um modo de “auto dopamina” por outro, construindo o ritmo, experiência e sensação sobre aquela nova atividade”.

Uma das possibilidades é recorrer às próprias ferramentas disponíveis nos celulares e nas plataformas para estabelecer limites. “Há, por exemplo, o bloqueio automático da rede após tanto tempo de uso nativo das redes, onde elas enviam um aviso que o seu tempo limite de uso chegou ao fim naquele dia. Este não é definitivo, pois pode-se ignorar e tornar a abrir, ou clicar em ignorar o aviso diretamente”.

Também existem configurações que podem impedir o acesso à plataforma após determinado período. “Há também aplicativos e configurações nativas dos smartphones que bloqueiam, definitivamente, aquela rede pelo resto do dia. Ou podemos pensar, e praticar, o convívio social presencial, vivenciando hobbies, conversas, atividades manuais e demais que possam auxiliar na transição e/ou no abandono, parcial ou completo, das redes”.

Como construir uma relação mais saudável?

Apesar dos riscos associados a determinados padrões de utilização, João Pedro afirma que uma relação saudável com as redes sociais continua sendo possível. Para isso, é necessário compreender a função que elas ocupam na rotina.

“É possível estabelecer uma relação saudável com as redes, em primeiro entendo o para quê e por que usar, e após compreendendo o como usar. Será um refúgio? Será uma distração no transporte? Será para me inteirar de notícias ou da vida de outros? E daí, usar com moderação, não permitindo que atrapalhe tarefas e deveres, ou que lhe tire momentos de autocuidado e de companhias”, inicia.

A ideia de estabelecer limites ganha relevância diante do cenário apresentado pelas pesquisas. Além dos dados brasileiros sobre o acesso precoce à internet e a presença de perfis próprios entre crianças e adolescentes, um estudo da Organização Mundial da Saúde identificou sinais de uso problemático de redes sociais em 11% dos adolescentes pesquisados. O índice chegou a 13% entre meninas e 9% entre meninos.

A mesma pesquisa apontou que 36% dos adolescentes mantinham contato online constante com amigos, indicando o quanto a conexão digital já está integrada às relações sociais dessa geração.

No Brasil, outra pesquisa ajuda a dimensionar a relação entre redes sociais e sofrimento psíquico. Um estudo publicado em 2024 nos Cadernos de Saúde Pública, da Fiocruz, analisou 2.823 universitários brasileiros e encontrou associação entre o tempo gasto nas redes sociais e sintomas depressivos.

A análise apontou ainda que a dependência de mídias sociais e a qualidade do sono ajudavam a explicar parte dessa associação, com mediação de cerca de 20% e 40%, respectivamente.

Os resultados não significam que as redes sociais sejam responsáveis, isoladamente, pelo surgimento de doenças mentais. A própria literatura aponta que a relação depende de fatores como a forma de utilização, intensidade, contexto, comparação social, busca por aprovação, sono e características individuais.

É nesse contexto que a decisão de Viih Tube ganha uma dimensão que vai além da trajetória de uma influenciadora. Depois de começar a produzir conteúdo ainda na adolescência e construir a carreira em torno da exposição digital, ela passou anos compartilhando diferentes aspectos da própria vida com milhões de pessoas.

Sua saída, portanto, também coloca em evidência os efeitos de uma relação prolongada com um ambiente que deixou de ser apenas espaço de entretenimento e passou a fazer parte do trabalho, da comunicação e das relações sociais.

Não existe uma única forma de estabelecer limites para o uso das plataformas. O primeiro passo é compreender a função que elas ocupam na rotina e identificar quando deixam de ser uma escolha para começar a interferir em outras áreas da vida, como o convívio presencial, as tarefas, o descanso e o autocuidado.

Nesse cenário, afastar-se completamente das redes pode ser uma possibilidade, mas não necessariamente a única. Reduzir o tempo de uso, estabelecer limites e substituir gradualmente parte do consumo digital por atividades presenciais também podem fazer parte desse processo.

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