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"Precisamos reafirmar o lugar da tecnologia na educação", diz secretário da Educação

Gestor reforça o papel da tecnologia como ferramenta pedagógica

Divo Araújo
Por Divo Araújo
Secretário de Educação do Estado (em exercício), Marcius de Almeida Gomes
Secretário de Educação do Estado (em exercício), Marcius de Almeida Gomes - Foto: Uendel Galter | Ag. A TARDE

A presença cada vez maior da tecnologia no cotidiano dos estudantes impõe novos desafios para a educação, desde o uso da inteligência artificial em sala de aula até a preparação dos jovens para o mundo do trabalho.

Com a experiência acumulada à frente da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), o secretário estadual da Educação em exercício, Marcius Almeida, defende que a integração entre essas áreas é fundamental para aproximar a escola da realidade dos alunos.

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Nesta entrevista ao A TARDE, o gestor afirma que o uso de ferramentas tecnológicas precisa ocorrer de forma ética e responsável, com a participação dos professores nesse processo.

“A gente precisa estimular o processo de ensino e aprendizagem a partir desses ambientes tecnológicos”, diz.

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Marcius Almeida também destaca que a ciência e a inovação já fazem parte da rede estadual, por meio de clubes de ciência, feiras estudantis e projetos desenvolvidos pelos alunos.

Segundo ele, “a Bahia é uma referência na educação científica no país” e o próximo passo é ampliar o apoio para que essas experiências possam gerar novas oportunidades para os estudantes.

Confira a entrevista a seguir.

O senhor deixou a Secretaria Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação para assumir como secretário de Educação em exercício. O que muda na sua visão de gestão e quais serão as prioridades imediatas à frente da Educação?

Primeiro que a gente estava em uma pasta que transversaliza diretamente com a educação. Falar de ciência, tecnologia e inovação é um tema que emerge também para a educação contemporânea. Nós estávamos naquela agenda, mas dialogando permanentemente com a educação. A gente sabe do grau de importância de integrar essas duas grandes agendas.

O acúmulo da experiência com a ciência e tecnologia nos coloca nesse lugar da educação com o mesmo compromisso e responsabilidade de um governo que tem se dedicado a gerar oportunidades para a juventude.

Quando a gente fala da oferta da educação integral, da educação científica, tem um movimento de reconhecer as capacidades e habilidades desses jovens. A gente tem se dedicado e ampliado essa agenda de interlocução com as comunidades, com as famílias, com os territórios para fortalecer o processo de aprendizagem dos estudantes.

A Bahia vem melhorando em indicadores como alfabetização, Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e desempenho no Enem. Qual é a estratégia para manter essa trajetória de crescimento?

A Bahia tem se destacado a nível nacional, principalmente pelo fortalecimento do regime de colaboração, que é um tema que ainda é um grande desafio para outros estados.

A Bahia consegue unir esforços com instituições e órgãos, a exemplo do Ministério Público, do Fórum Estadual de Educação, do Conselho Estadual, da própria Secretaria de Educação.

Isso para pensar que os desafios dos municípios baianos também são os desafios do Estado. Como o nosso governador tem o hábito de dizer, a educação da Bahia não é só a educação da rede estadual. Portanto, o destaque principal é esse ambiente de articulação como princípio de gestão.

Posso citar os avanços que colhemos com isso na alfabetização, por exemplo. Claro que tem, para além da colaboração, um movimento que envolve a formação de professores. Hoje a gente conta com uma agenda muito forte, com o Instituto Anísio Teixeira (IAT), para formar os coordenadores pedagógicos, professores da rede municipal, e com isso gerar um grande movimento no Estado que tem impactado nos seus indicadores.

Colocando a Bahia, por exemplo, com um percentual de 55% de alunos na alfabetização na idade certa. É esse grande movimento que a gente vai continuar consolidando para além dos investimentos que envolvem a infraestrutura nos municípios, com creches e escolas básicas.

Como sua experiência na Secti pode acelerar essa aproximação entre educação, ciência, tecnologia e inovação dentro das escolas estaduais?

Eu diria que esse é um dos destaques que a gente encontra, não só na relação com os nossos parceiros, como a gente tem aqui no Jornal A TARDE, mas com outras agendas, que é reafirmar o lugar da tecnologia no processo educacional.

Entendo que a gente tem uma oportunidade importante, quando a gente fala do uso da inteligência artificial na educação, da tecnologia, como porta de entrada para atrair o estudante para o ambiente da escola.

Eu diria que um dos maiores desafios que nós temos pela frente é a atração desses meninos para o processo de ensino e aprendizagem, considerando o cenário que temos de tecnologia, de acesso ao celular, ao computador, ao tablet. A gente precisa estimular o processo de ensino e aprendizagem a partir desses ambientes tecnológicos.

A expansão da educação profissional para os municípios é uma das vitrines da rede estadual. Como garantir que esses cursos estejam alinhados às vocações econômicas de cada território?

Esse é um tema muito valoroso. Nessa transversalidade que você me perguntou anteriormente sobre a ciência, tecnologia e inovação e educação, diria que a educação profissional gera uma expectativa muito grande dentro desse governo.

A Bahia vem avançando nos seus 20 últimos anos com a ampliação dessa oferta da educação profissional e tecnológica. Essa formação implica diretamente no desenvolvimento econômico dos municípios baianos. A gente entende que nosso cardápio de ofertas abrange diversas áreas de conhecimento. E a gente chega num momento que precisa refletir também sobre as vocações territoriais.

A Bahia, que se organiza administrativamente por territórios de identidade, precisa se debruçar sobre esse tema para pensar as políticas educacionais. Porque os desafios que nós temos no norte da Bahia nem sempre são os desafios que eu tenho em Salvador. Por isso, a gente entende ser necessário, cada vez mais, aproximar o debate territorial na formação da educação profissional e tecnológica.

As oportunidades do mundo do trabalho e desenvolvimento econômico nos provoca refletir, de fato, esse lugar da educação e a sua relação com outras pastas.

A inteligência artificial está transformando a educação. Como equilibrar o uso dessa tecnologia em sala de aula com a necessidade de desenvolver pensamento crítico e evitar o uso inadequado pelos estudantes?

A Bahia recentemente publicou um plano de utilização da inteligência artificial. Esse é um tema que o governo da Bahia vem se dedicando. Nós já temos uma minuta de projeto sobre o Plano Estadual de Inteligência Artificial, então elaborado pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação.

Mas a gente sabe que essas experiências só acontecerão se os professores também puderem incorporá-las. O que nós temos cuidado é com o uso ético e responsável da IA para a formação dos estudantes. Como também aconteceu, há um tempo atrás, com a chegada do computador e de outras tecnologias.

É um ambiente também que a gente precisa ter o devido cuidado e responsabilidade para avançar. Até porque outros países têm se dedicado a essa agenda de forma muito mais acelerada e não podemos esperar. A gente precisa cada vez mais se envolver nessa dinâmica da inteligência artificial.

Faz pouco mais de um ano que entrou em vigor a lei que restringe o uso de celulares nas salas de aula. Uma pesquisa recente do Ministério da Educação aponta redução da ansiedade, dos conflitos e melhora no ambiente escolar. Como essa medida tem repercutido na Bahia?

Eu diria que essa infraestrutura que a Bahia tem entregue aos nossos estudantes e aos municípios já sinaliza para isso.

Se você hoje chega no ambiente das escolas, no intervalo, você consegue ver uma juventude extremamente ativa, seja na quadra jogando futebol, seja nos espaços livres jogando um pingue-pongue, um totó. É isso que nós temos que estimular.

Não só restringir o uso do celular, mas oferecer condições para estimular aquilo que nós tivermos na nossa época e desenvolver outras habilidades. Isso a rede tem feito com muita maestria e cuidado.

A Bahia tem investido em clubes de ciência, feiras estudantis e participação em competições nacionais e internacionais. Como transformar essas experiências em oportunidades para um número maior de estudantes da rede?

Esse tema que você traz é muito importante sobretudo para educação profissional e tecnológica.

O que nós temos observado, quando a gente faz as visitas às escolas das famílias agrícolas, as escolas do campo, as escolas indígenas, que produzem ciência, é que parte desse conhecimento são produtos que, em alguma medida, têm possibilidade de receber investimento para se tornar uma startup, uma empresa. E assim oferecer outras possibilidades no mundo do trabalho. É isso que a gente tem acreditado.

Essa é uma etapa que está consolidada, porque a Bahia é uma referência na educação científica no país. Estamos concluindo agora as inscrições dos trabalhos para a Feira de Ciências, Empreendedorismo Social e Inovação da Bahia, a Feciba, o grande encontro que acontece em novembro. Serão mais de três mil trabalhos apresentados por essa juventude.

Portanto, essa experiência na rede já está consolidada. Precisamos avançar agora com novos investimentos, para que parte dessas experiências que serão apresentadas, possam ter financiamento e apoio para se tornar um empreendimento. Essa é uma iniciativa importante para que eles continuem acreditando nos seus projetos.

O Estado tem investido na construção, ampliação e modernização de escolas. Como esses investimentos estão efetivamente melhorando a aprendizagem dos estudantes?

Eu venho de escola pública. Passei 11 anos na escola pública. A primeira coisa que acontece, quando a gente entra nesses espaços, é acreditar que a educação pública de qualidade tem, sim, a sua marca dentro do Estado. Mexe com a autoestima dos nossos meninos e meninas.

A gente é de uma geração que as estruturas não davam condição da gente ter uma experiência mínima nos ambientes das escolas. Hoje, um menino entra numa escola dessas, e certamente o primeiro ponto de reflexão é a autoestima. Estou numa escola pública de qualidade.

Segundo, é que esses ambientes garantem aquilo que é de competência da secretaria de Estado, que é o processo de ensino e aprendizagem. E, junto com ele, essas oportunidades que a gente tratou, seja na arte, na cultura, na ciência, no esporte.

O aluno pode desenvolver outras habilidades e vocações, para além do português e da matemática. Esse menino pode ser um atleta, pode ser um artista, pode ser um músico. O que cabe à educação pública de qualidade é isso: dar garantias e direitos para que essa juventude possa desenvolver as suas habilidades e competências.

O ensino em tempo integral faz diferença na aprendizagem e na qualidade da educação?

Sim, nós estamos acompanhando até recentemente uma publicação do Estado de São Paulo, se não me engano, questionando o tempo integral. Acho que não tem como questionar a educação em tempo integral.

O que apresenta de oportunidade para a juventude, é inquestionável. A gente continua acreditando que essa política tende a avançar. Hoje, nós temos um número considerável de escolas de tempo integral, 700 escolas estaduais.

Tem uma política que está sendo fortalecida com os municípios da Bahia: 55% da rede municipal tem indicador de alfabetização. E como a gente fala, educação a gente não colhe agora, colhe no futuro.

Todos esses investimentos feitos pelo Estado em parceria com os municípios, certamente daqui a 10 anos a gente vai ver o fruto. E não tenho dúvida que a educação integral é o grande referencial desse processo.

Qual é, hoje, o maior desafio para valorizar, formar e capacitar cada vez melhor os professores da rede estadual?

Acho que o maior desafio ainda é o territorial. A Bahia é um grande estado, como a gente fala, com a dimensão da França. E entendemos que cada território, cada município tem a sua vocação e suas experiências.

A gente precisa reconhecer desde a produção literária, da relação histórica, para que isso possa impactar na vida desses meninos. Não só dos indicadores, mas, acima de tudo, no pertencimento da sua realidade com o processo pedagógico também.

A gente acredita muito que essa aproximação cada vez maior com os territórios de identidade, no processo formativo, fortalece demais essa agenda.

O governo possui programas de bolsas voltados aos estudantes. Quais deles o senhor destacaria como mais importantes para promover a inclusão e ampliar o acesso à educação?

O Bolsa Presença. Esse programa surge como iniciativa de garantir o processo de aprendizagem na pandemia dos nossos meninos, que foi uma dificuldade muito grande nesse processo.

Depois se tornou uma política pública e hoje certamente atende mais de 400 mil estudantes com benefício e que garante hoje resultados como a permanência dos estudantes na escola. É um grande projeto.

Tem ainda o “Mais Estudo”,o “Educa Mais Bahia”, além de outras agendas que têm estimulado essas práticas, seja com oficinas, seja com atividade regular, e que têm garantido a essa juventude oportunidades para que possam estar no ambiente da formação.

Nas últimas avaliações dos indicadores de educação, a Bahia figurava entre as últimas colocações. Diante das ações que vêm sendo implementadas, qual é a expectativa para a evolução dos resultados do Estado no curto e médio prazo?

Tenho falado muito nos espaços onde tenho oportunidade que fizemos investimentos de bilhões em infraestrutura, programas de permanência, de estímulo à ampliação do tempo qualificado. Isso é uma escolha de um projeto de governo.

Nós entendemos a importância do Ideb, mas temos um projeto em caminhada, porque reparação histórica da educação é uma questão que, em 20 anos, não conclui. Mas entendemos que no censo escolar mais recente, tivemos diminuição da reprovação, do abandono escolar, da distorção idade-série.

Também são temas extremamente valorosos. Quando a gente investe na educação do campo, na educação indígena, na educação quilombola, é uma escolha do projeto no sentido de dizer que todos importam e eles precisam ser parte desse processo. Por muitas vezes, eles estavam excluídos do processo.

Quando a gente compara hoje os níveis de proficiência em português e matemática dos estudantes de menor classe social e aqueles de maior classe que estão na educação pública, historicamente, esse intervalo era muito maior.

Hoje, há uma diminuição dessa relação com os estudos dos meninos de baixa renda com aqueles de melhor renda que estão na rede. Tem um recado importante nisso: nós temos nos dedicado e acreditamos que garantir a educação de qualidade para todos ainda é um projeto que a gente considera de grande importância para a sociedade.

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