FUTEBOL PAULISTA
Clube tradicional renasce após 25 anos, conquista acesso e mira elite
Após anos de crise política, financeira e esportiva, clube paulista volta a subir de divisão


O América-SP encerrou a temporada com o vice-campeonato da Bezinha, a quinta divisão do Campeonato Paulista, após perder para o Independente de Limeira no último domingo, 16. Apesar da derrota na decisão, o resultado esportivo mais importante já havia sido alcançado: o acesso, garantido na semifinal.
A subida representa um marco para um clube que passou anos enfrentando problemas políticos, financeiros e estruturais. O retorno à Série A4 também encerra uma espera de 25 anos por um novo acesso. A última vez que o América havia subido de divisão foi em 2001, quando chegou novamente à elite do futebol paulista.
Um clube tradicional do interior que perdeu espaço
A reconstrução ganha dimensão quando se considera a história do América-SP. Fundado em 1946, o clube rapidamente se consolidou como uma das principais forças do interior paulista.
O Mecão soma 44 participações na primeira divisão do Campeonato Paulista, sendo a mais recente em 2007. Entre 1964 e 1997, o time disputou a elite estadual ininterruptamente por mais de três décadas.
Nesse período, o América chegou a terminar o Paulistão na terceira colocação em duas oportunidades, em 1975 e 1994. Em 1973, conquistou ainda a Taça dos Invictos, depois de permanecer 17 partidas sem perder.
A trajetória também teve capítulos importantes no cenário nacional. O América disputou duas edições da Série A do Campeonato Brasileiro e participou sete vezes da Série B. O clube enfrentou grandes equipes do país e revelou jogadores que ganharam projeção nacional.
Em 1979, Luís Fernando Gaúcho terminou o Campeonato Paulista como artilheiro, com 27 gols. Anos antes, Marinho havia chegado à Seleção Brasileira enquanto defendia o América.
Nas categorias de base, o principal feito veio em 2006, quando o clube conquistou a Copa São Paulo de Futebol Júnior. Na decisão, o América empatou com o Comercial-SP no Pacaembu e levou a melhor nos pênaltis.
Queda esportiva e um ano inteiro sem futebol profissional
O rebaixamento da elite paulista, em 2007, deu início a uma sequência de dificuldades esportivas. Em 2012, o América caiu para a Série A3 e, três anos depois, chegou à Bezinha.
Ao mesmo tempo, os problemas políticos, administrativos e financeiros se agravaram. A crise chegou a um dos momentos mais delicados em 2024, quando o clube ficou fora do Conselho Técnico da Bezinha e passou a conviver com a possibilidade de não disputar uma competição profissional no ano seguinte.
A previsão se confirmou. Em 2025, pela primeira vez em mais de seis décadas, o América não teve uma equipe profissional em atividade durante toda a temporada. O clube ficou restrito às competições de base.
Mesmo sem futebol profissional, aquele período serviu para preparar a retomada. O planejamento estabelecido pela direção tinha dois objetivos principais para 2026: recolocar o América na Bezinha e recuperar o Teixeirão para receber novamente a Copa São Paulo de Futebol Júnior.
As duas metas foram alcançadas.
O estádio voltou a receber a Copinha, com o América integrando o Grupo 9. A campanha terminou com o clube na última colocação da chave, mas a presença na competição representou a retomada do uso da estrutura e a preparação para o retorno do futebol profissional.
Depois de 749 dias sem disputar uma partida profissional, o América voltou a campo em 2026, diante do Assisense, no Teixeirão. Antes da estreia, o clube promoveu melhorias em setores do estádio, apresentou o elenco e lançou os uniformes da temporada.
Mudança política marca início da reconstrução
A transformação do América também passou por uma mudança no comando do clube.
Marcos Cezar Vilela assumiu a presidência em outubro de 2024, depois de um período marcado por disputas políticas envolvendo a antiga administração. Engenheiro, ele havia feito oposição ao antigo presidente e esteve envolvido em disputas judiciais e extrajudiciais antes da mudança de gestão.
Luiz Donizette Prieto, conhecido como Italiano, foi afastado da presidência por decisão judicial em janeiro de 2024. A medida abriu espaço para uma reorganização política dentro da instituição.
A primeira chapa liderada por Vilela recebeu o nome de “Renovação”. Na sequência, o projeto passou a ser chamado de “Evolução”.
Segundo o presidente, uma das prioridades da nova administração foi ampliar a participação de pessoas no clube, combinando novos integrantes com profissionais que já conheciam a realidade do América.
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Dívidas ainda são um obstáculo
A reorganização administrativa, entretanto, não eliminou um dos principais problemas históricos do clube: as dívidas acumuladas ao longo de diferentes gestões.
No início de 2026, o passivo total do América foi estimado em mais de R$ 30 milhões. Apenas na Justiça do Trabalho, o clube chegou a acumular mais de 150 processos originados entre 1999 e 2024, que somavam mais de R$ 15 milhões.
Em julho, a direção conseguiu avançar em uma tentativa de reduzir esse passivo. Dos 40 credores convocados para audiências de conciliação na Justiça do Trabalho, 26 chegaram a acordos, que totalizaram R$ 1.231.600.
O impacto das dívidas vai além das obrigações financeiras. Segundo Vilela, parte das receitas geradas pelo América acaba comprometida com esses débitos, reduzindo a capacidade de investimento no futebol.
América tenta recuperar apoio da cidade
Com recursos limitados, a diretoria também passou a trabalhar para reconstruir a relação do clube com o empresariado de São José do Rio Preto.
A estratégia foi priorizar empresas da cidade e da região, incluindo algumas que já haviam mantido algum tipo de relação com o América em períodos anteriores.
A intenção é utilizar a força histórica da marca do clube para demonstrar que a instituição atravessa uma nova fase administrativa e recuperar a confiança de potenciais parceiros.
Teixeirão acompanha a reconstrução do América
Poucos símbolos representam tão bem a trajetória recente do América quanto o Teixeirão.
O estádio, que pertence ao clube, sofreu diretamente com os problemas financeiros. Dívidas administrativas chegaram a levar a Justiça a determinar que o imóvel fosse colocado em leilão a partir de 2015, com o objetivo de reduzir parte do passivo acumulado.
A estrutura ainda está longe de recuperar o aspecto de seus melhores dias. Na área externa, permanecem problemas como mato alto, falta de cercas e trechos do muro danificados.
Por outro lado, mudanças já podem ser percebidas dentro do estádio. A bilheteria recebeu pintura, as pichações diminuíram e setores importantes passaram por intervenções.
A recuperação acontece de maneira gradual, acompanhando o próprio processo de reconstrução do clube.
O Teixeirão também representa um patrimônio esportivo importante para São José do Rio Preto. Com capacidade para aproximadamente 35 mil torcedores, o estádio está entre os maiores do interior paulista e recebeu partidas marcantes do futebol brasileiro.
Um dos capítulos mais lembrados ocorreu em 2004. Na reta final do Campeonato Brasileiro, o Santos venceu o Vasco por 2 a 1 no estádio, com gols de Ricardinho e Elano, em uma campanha que terminou com o título nacional do Peixe.
Agora, a diretoria pretende transformar novamente o Teixeirão em uma fonte de receita para o América. A melhoria da iluminação está entre as prioridades, mas os planos também incluem a realização de eventos fora do futebol.
Acesso abre caminho para um novo objetivo
O acesso conquistado em 2026 representa muito mais do que uma mudança de divisão. Depois de um ano inteiro sem futebol profissional, o América conseguiu reorganizar minimamente sua estrutura e recolocar o clube no mapa das competições estaduais.
O próximo desafio será a Série A4 do Campeonato Paulista.
Para um clube com 44 participações na elite estadual e mais de três décadas consecutivas na primeira divisão, o sonho de retornar aos principais níveis do futebol paulista volta a fazer parte do planejamento.
Vilela trabalha com um prazo de até cinco anos para levar o Mecão novamente à primeira divisão. A direção, porém, pretende evitar que a ambição esportiva comprometa o processo de recuperação financeira.
O vice-campeonato da Bezinha também abre novas possibilidades para o calendário. Em 2027, além da Série A4, o América poderá discutir uma eventual participação na Copa Paulista, o que permitiria ampliar novamente o período de atividade do departamento profissional.
A principal diferença em relação a ciclos anteriores é a preocupação com a sustentabilidade. A diretoria pretende estabelecer os próximos passos de acordo com a capacidade real de arrecadação e evitar compromissos financeiros que o clube não consiga honrar.
Próximos passos da reconstrução
Com o acesso garantido e a temporada encerrada, o América entra em uma nova etapa do processo de reconstrução.
Nos bastidores, o clube terá uma eleição para a diretoria. Até o momento, apenas uma chapa participa da disputa, e Vilela caminha para a reeleição, o que permitiria a continuidade do projeto iniciado em 2024.
No futebol, o planejamento para 2027 já começa a ser discutido. A diretoria terá de definir quais jogadores do elenco que conquistou o acesso permanecerão, quais posições precisarão de reforços e se Kinho Forgiarini continuará no comando técnico na disputa da Série A4.


