Busca interna do iBahia
HOME > esportes > E.C.BAHIA

DRAMA NO FUTEBOL

Ex-Bahia vive nas ruas e luta contra vício em crack aos 49 anos

Ex-jogador enfrenta dependência química e vive atualmente em situação de rua em São Paulo

Téo Mazzoni
Por
Ex-Bahia que brilhou no futebol vive nas ruas e luta contra o crack
Ex-Bahia que brilhou no futebol vive nas ruas e luta contra o crack - Foto: Divulgação

Ex-jogador do Esporte Clube Bahia, Régis Fernandes da Silva, conhecido no futebol como Régis Pitbull, atravessa hoje uma realidade completamente diferente daquela vivida nos tempos em que brilhava nos gramados.

Aos 49 anos, o ex-atacante, que teve uma curta passagem pelo Esquadrão em 2001, disputando quatro partidas com a camisa tricolor, vive atualmente em situação de rua em Pirituba, na Zona Norte de São Paulo, e enfrenta a dependência química.

Há cerca de dois meses, ele passou a viver entre becos e ruas do bairro onde nasceu e cresceu. O vício em crack contribuiu para que perdesse o lugar onde morava, o apoio de grande parte dos amigos e boa parte da estrutura que construiu ao longo da vida.

O ex-jogador que um dia vestiu camisas de clubes como Corinthians, Vasco, Ponte Preta e Bahia hoje tenta sobreviver em meio às dificuldades de quem vive nas ruas. A aparência também mudou. O rosto conhecido dos tempos de futebol deu lugar a um semblante marcado pelo tempo, pela dependência química e pela violência urbana.

A situação de Régis foi descoberta pelo ge a partir do relato de ex-companheiros de um time de várzea do bairro onde ele cresceu.

Tudo sobre E.C.Bahia em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

Entre as ruas e a tentativa de sobreviver

Em uma fria manhã de São Paulo, acompanhada de chuva e vento, Régis se protegeu em um abrigo improvisado com lonas, cobertores e papelões montado em uma pequena praça. Ao redor, havia entulho de obras inacabadas e lixo acumulado.

A rua acabou sendo a alternativa encontrada pelo ex-jogador depois de passar períodos morando de favor na casa de familiares e amigos. Ao mesmo tempo, ele corre o risco de perder definitivamente o apartamento que possui por causa de dívidas relacionadas ao condomínio e ao IPTU. O imóvel é alvo de uma ação judicial.

Régis ainda alimenta a esperança de retornar ao apartamento, um dos poucos bens que permanecem em seu nome. Ele deixou o local depois de ser preso, em 2025, por agredir o síndico do prédio.

Na manhã daquele dia, a fome o levou a atravessar uma movimentada rua de Pirituba em direção a um restaurante onde costuma pedir café. O açúcar, em grande quantidade, é uma das marcas do pedido.

Corintiano, um dos funcionários do estabelecimento costuma brincar com Régis durante os encontros. É difícil associar aquele homem ao atacante que entrou em campo sete vezes pelo Corinthians em 2004.

"O pessoal da torcida veio aí no domingo conversar comigo, querem me ajudar. Eu sou Corinthians demais, eles lembram sempre de mim. Me dá mais um café aí, mas coloca mais açúcar porque tá amargo – disse Régis, que usa o restaurante para ir ao banheiro e carregar o celular, único meio de contato com ele. Ele costuma usar o aparelho para fazer os pagamentos das drogas que consome", afirmou.

Na noite anterior, Régis contou ter consumido uma "flor com ice", mistura da flor de maconha, parte da planta Cannabis, com o ice, um extrato de alta concentração produzido a partir da mesma planta.

Segundo uma funcionária do restaurante, o ex-jogador aparece praticamente todos os dias para receber refeições doadas pelo estabelecimento. De acordo com ela, são poucos os momentos em que Régis está sóbrio.

Sem tomar banho com frequência, o ex-atacante possui poucas roupas para trocar e estava com as unhas compridas. O cabelo e a barba haviam sido cortados graças à ajuda de um amigo.

Na praça onde montou seu abrigo, Régis divide o espaço com um homem que aparenta ter mais de 60 anos. A convivência, porém, não é das melhores.

Velho chato, reclama de tudo. Eu gosto de ficar no meu canto, sem ninguém me encher. Ele quer conversar toda hora. Se quisesse conversar, eu ia na feira aqui perto Régis - ex-jogador do Bahia

Nascido e criado em Pirituba, Régis ainda é reconhecido por moradores e frequentadores da região. Conhece as ruas do bairro como poucos e costuma circular por elas de bicicleta.

Um posto de gasolina próximo ao restaurante funciona como uma espécie de garagem para a bicicleta azul que utiliza para visitar amigos e comprar drogas.

Leia Também:

CAMPEONATO BRASILEIRO

Ceni prepara alteração e Bahia pode ter mudança para jogos como visitante
Ceni prepara alteração e Bahia pode ter mudança para jogos como visitante imagem

POLÍCIA

Bamor e TUI são banidas de jogos por seis meses após mortes; entenda
Bamor e TUI são banidas de jogos por seis meses após mortes; entenda imagem

SAIBA O MOTIVO

Entenda como eliminação do Cruzeiro complica vaga do Bahia na Libertadores
Entenda como eliminação do Cruzeiro complica vaga do Bahia na Libertadores imagem

O vício que acompanha Régis desde os tempos de jogador

Régis não esconde a dependência química. O problema acompanha sua trajetória desde os primeiros anos no futebol profissional. Em duas oportunidades, ele foi flagrado no doping por uso de maconha.

Após cumprir as suspensões, voltou a jogar e seguiu a carreira. Com o passar dos anos, porém, a dependência se agravou e passou a ocupar espaço cada vez maior em sua vida.

Pedalar pelo bairro tornou-se um dos poucos momentos em que Régis consegue se afastar temporariamente da realidade das ruas.

Em uma dessas ocasiões, enquanto pegava sua bicicleta, ele reencontrou o policial responsável por prendê-lo em 2025, após a agressão ao síndico do prédio onde ainda possui o apartamento.

"O senhor que me prendeu, mas me ajudou muito. Máximo respeito".

"Eu não te prendi, você que se prendeu. Você sabe, Régis. E a tornozeleira?", rebateu o policial.

"Já era, tá pago", disse Régis, que ficou com o aparelho durante alguns meses por ordem judicial, cumprindo medida protetiva depois da agressão.

Naquela manhã, porém, havia outra preocupação: o pneu furado da bicicleta.

Régis seguiu até uma borracharia próxima ao posto de gasolina e conseguiu consertar o problema. Durante o trajeto, relembrou os tempos de maior sucesso profissional e o período em que o futebol lhe proporcionava uma vida de luxo.

"Eu andava de BMW, tive uma Dakota (caminhonete). Um dia fui na churrascaria comer uma costela daquelas top e nem paguei, tiraram fotos e não deixaram pagar a conta. Imagina isso hoje? Você está louco – disse, quando chegou até o esperado local", disse.

O borracheiro conhece Régis desde a infância e acompanhou de perto a transformação do menino que jogava futebol no bairro em profissional e, posteriormente, o processo que o levou à atual situação.

"Sempre foi bom de bola, mas era briguento. Ainda é", disse, entre risadas e a ansiedade aparente de um Régis à espera do pneu novo.

Ex-jogador rejeita internação e diz que precisa de emprego

Apesar de reconhecer que enfrenta problemas com as drogas, Régis demonstra resistência quando o assunto é receber ajuda ou ser internado para tratar a dependência química.

Ele rejeita a possibilidade de deixar as ruas para morar na casa de conhecidos e também não demonstra interesse em buscar tratamento médico. Na visão do ex-jogador, o que precisa para reorganizar a própria vida é conseguir um emprego.

Depois de consertar a bicicleta, Régis deu algumas voltas pelo posto de gasolina para testar o pneu. Observado de perto por policiais que trabalham na região, deixou o local e voltou a circular pelo bairro.

Pouco depois, retornou ao abrigo improvisado na praça. Deitou-se e voltou à rotina de quem vive em situação de vulnerabilidade nas ruas da maior cidade do Brasil.

A carreira de Régis Pitbull

Régis Fernandes da Silva nasceu e cresceu em Pirituba e começou a ganhar destaque no futebol profissional no fim da década de 1990, quando defendia o Comercial, de Ribeirão Preto.

O desempenho chamou a atenção do Marítimo, de Portugal, onde permaneceu por dois anos antes de retornar ao Brasil para atuar pelo Ceará.

Atacante de beirada, veloz e habilidoso no drible, Régis também passou por clubes como Coritiba e Ponte Preta antes de seguir carreira internacional.

Em 2001, teve uma curta passagem pelo Bahia, disputando quatro partidas pelo Esquadrão. Posteriormente, atuou no Japão, na Coreia do Sul, na Turquia e no Kuwait, além de defender equipes como Corinthians, Vasco e Portuguesa.

Ao longo da carreira, acumulou 170 jogos e 49 gols, segundo o levantamento apresentado na reportagem.

A relação com as drogas, entretanto, já fazia parte de sua trajetória profissional. Régis ficou mais de quatro meses afastado dos gramados após ser suspenso por duas vezes em razão de casos de doping por uso de maconha.

Ele deixou o futebol em 2012, aos 34 anos. Depois da aposentadoria, a dependência química se intensificou.

Em 2022, Régis chegou a ser internado para realizar um tratamento de reabilitação. Menos de um mês depois de deixar a clínica, porém, sofreu uma recaída.

Desde então, passou por períodos de recuperação e novas recaídas até chegar à situação atual, quando perdeu o apartamento onde morava e passou a viver nas ruas.

Tentativas de ajuda

Segundo informações obtidas pelo ge com amigos e familiares, a principal dificuldade para iniciar um processo de recuperação é a resistência de Régis em aceitar ajuda. Pessoas próximas foram procuradas, mas ninguém quis conceder entrevista sobre o assunto.

Antes de chegar à situação de rua, o ex-jogador viveu uma rotina marcada por altos e baixos. Nos períodos em que conseguia manter-se afastado das drogas, jogava em equipes de várzea e encontrava maneiras de obter renda.

Régis tem dois filhos, irmãos e o pai vivos. A mãe morreu há alguns anos sem conseguir ver o filho superar a dependência química.

Agora, próximo de completar 50 anos, em 22 de setembro, o ex-jogador ainda fala sobre a vontade de reunir amigos para uma festa.

A realidade, porém, é distante dos tempos em que celebrava gols, títulos e a vida de jogador profissional.

Hoje, Régis vive entre as ruas de Pirituba e a esperança de conseguir reconstruir a própria história.

Não quero que ninguém saiba que eu existo. Se acharem que estou morto, é melhor. Não sou um coitadinho Régis Pitbull - ex-jogador, agora morador de rua
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Google Noticias Siga o A TARDE no Google Noticias

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no Email

Tags

Esporte Clube Bahia Régis Pitbull

Relacionadas

Mais lidas