MMA
Invicta e no card principal, baiana busca segunda vitória no UFC
Jeisla Chaves enfrenta norte-americana neste sábado, em Sacramento, apenas dois meses após estrear


O card principal do UFC neste final de semana guarda um nome vindo de Poções, no interior da Bahia - e com todo histórico para assustar qualquer adversária. Dois meses depois de estrear com vitória no UFC, Jeisla Chaves está de volta ao octógono.
Invicta no MMA profissional, a baiana enfrentará a norte-americana Carli Judice neste sábado, 22, no UFC Sacramento, na Califórnia, em busca do segundo triunfo consecutivo pela organização.
"A Braba" possui oito vitórias em oito combates, quatro delas por nocaute. Aos 29 anos, a peso-mosca fará apenas a segunda apresentação no Ultimate, mas já recebeu uma posição de destaque, assumindo o segundo confronto do card principal.

A confirmação surpreendeu até a lutadora. Quando viu inicialmente a ordem dos combates no site do UFC, acreditou que a escalação ainda seria modificada, uma vez que lutadoras não ranqueadas raramente recebem espaço no card principal, salvo quando disputam o cinturão ou ocupam posições de destaque na categoria.
A certeza só veio depois da chegada a Sacramento, quando recebeu a programação oficial da organização. "Disseram que o carro me buscaria às três horas porque eu estaria na segunda luta do card principal", contou.
"Aí pensei: 'É verdade'. Eu não acreditava muito, porque poderia haver alguma mudança. Dificilmente colocam meninas no card principal quando não é disputa de título nem luta entre ranqueadas. Eu não sou ranqueada e nem a Judice", completou.
O destaque, no entanto, não alterou a maneira como Jeisla enxerga o combate. "Meu professor perguntou se eu me sentia pressionada. Respondi que não. Sempre tive que carregar grandes responsabilidades na vida. Para mim, é como se fosse a primeira luta da noite. Não muda nada", disse.

Adversária trocada, estilo mantido
Após vencer Yuneisy Duben na estreia, Jeisla manifestou interesse em enfrentar a inglesa Kennedy Freeman. O objetivo era participar de um confronto entre duas strikers invictas, capazes de protagonizar uma luta movimentada em pé.
"Pedi a Freeman justamente pelo jogo dela, que é a trocação. Acho que ela é muito forte e técnica, tem uma trocação bonita. Seria uma luta que encaixaria bem e da qual todo mundo gostaria, porque as pessoas gostam de ver porrada", explicou.
O UFC, no entanto, escolheu outro caminho e ofereceu Carli Judice, o que não mudou muito para Jeisla. A mudança de nome foi bem recebida porque, na avaliação da brasileira, o perfil geral do confronto permaneceu próximo ao que ela havia solicitado.

Judice também prioriza a luta em pé, embora apresente características diferentes das de Freeman. Jeisla identifica na adversária deste sábado maior volume de golpes, combinações e refinamento técnico. Freeman, por outro lado, seria mais contundente e concentraria maior potência em ações isoladas.
A mudança de lateralidade, no entanto, exigiu adaptações. A ideal adversária inicial luta como canhota, enquanto a outra adota a base destra, fator que modifica ângulos de entrada, movimentação, posicionamento dos pés e trajetória dos golpes.
"A atleta mudou, mas, no estilo de jogo, não mudou tanto. As duas são strikers. Kennedy é mais contundente, enquanto Carli tem mais volume, é muito técnica e aplica muitas combinações. São atletas diferentes, com estilos diferentes de trocação, mas é uma área de que gosto. Estamos em casa", comentou Judice.

Judice, então, está em casa mesmo fora dela, já que a norte-americana atuará diante de sua torcida e aparece como favorita para parte das análises e do mercado. Para Jeisla, no entanto, ocupar a posição de azarona não é novidade e muito menos resultado.
"Sei que ela está em casa, é a favorita e eu sou a azarona. Isso não muda nada, nem mentalmente nem na minha confiança. É como se eu fosse a favorita. No Contender também não era favorita. Procuro não pensar nessas coisas. Não me afeta", garante.
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Retorno rápido após a estreia
Confiante, dominante e tranquila, Jeisla chega também ao octógono com "sangue quente". O intervalo entre as duas primeiras apresentações de Jeisla no UFC foi incomumente curto.
A estreia aconteceu em 6 de junho, no UFC Vegas 118, e neste sábado, 22 de agosto, ela já estará novamente em ação.
Apesar da proximidade entre os combates, a baiana não demonstra incômodo com o ritmo. Depois de esperar aproximadamente seis meses entre a conquista do contrato no Contender Series e a estreia oficial, ela deixou claro que gostaria de voltar a lutar rapidamente.

A primeira vitória na organização veio por decisão dividida contra Yuneisy Duben, com notas de 29-28, 28-29 e 29-28. Jeisla acreditava ter vencido dois dos três rounds e assustou-se ao descobrir que um dos juízes havia apontado a venezuelana como vencedora.
A apreensão reforçou o desejo de buscar um resultado mais contundente no compromisso seguinte. Após a estreia, a brasileira declarou que precisaria ser ainda mais agressiva e procurar encerrar os combates antes da leitura das papeletas.
Duben era considerada uma adversária perigosa principalmente pela força da mão direita. Contratada pelo Contender Series depois de conseguir um nocaute com um overhand, a venezuelana obrigou Jeisla a adotar uma estratégia baseada em movimentação, entradas rápidas e saídas da zona de perigo.

"Ela tinha uma mão muito dura e forte. O plano era movimentar, bater e sair para não ser atingida", explicou. A estratégia inicial previa que Jeisla entrasse mais fechada e utilizasse chutes na panturrilha.
Dentro do octógono, entretanto, a brasileira percebeu oportunidades que não haviam sido priorizadas na preparação e passou a misturar a trocação com quedas.
No primeiro round, conectou um direto de encontro, trabalhou jabs, chutes baixos e cotoveladas no clinch. Embora tenha sido derrubada em uma das aproximações, levantou-se rapidamente.

Na segunda parcial, defendeu investidas, levou Duben ao chão, pegou as costas e ameaçou encaixar um mata-leão. No terceiro assalto, conseguiu outra queda e voltou a chegar às costas da adversária, apesar de não obter a finalização.
A capacidade de modificar o plano durante a luta, assim, tornou-se um dos principais aprendizados da apresentação, e deve voltar a aparecer em Sacramento.

Duas strikers, dois perigos
Ainda que tenha enfrentado duas especialistas em trocação nas últimas apresentações, Jeisla precisou executar estratégias diferentes. No Contender Series, em setembro de 2025, a adversária inicialmente prevista foi substituída durante a preparação.
A brasileira acabou escalada contra a argentina Sofia Montenegro, atleta que trabalha com maior volume de golpes e utiliza mais chutes. Diante dessas características, a intenção de Jeisla era reduzir os espaços e encurtar a distância.
O combate foi equilibrado e terminou com vitória da baiana por decisão dividida, resultado que lhe garantiu o contrato com o UFC. Na estreia, contra Duben, a ameaça estava menos no volume e mais na potência de ações isoladas. A abordagem, portanto, precisou ser alterada.

"Sofia trabalha mais com volume e chutes. Duben utiliza golpes mais isolados e contundentes. Contra Sofia, trabalhamos para encurtar. Contra Duben, o objetivo era movimentar, bater e sair", contou.
"Apesar de serem duas strikers, foram formas diferentes de estudar e trabalhar. Essas duas lutas me ajudaram muito a chegar até aqui", detalhou.
Nesse contexto, Carli Judice representa uma terceira variação dentro da luta em pé, trazendo o desafio de encontrar espaços sem permitir que a rival controle a frequência das ações.
O cenário agrada a brasileira, que começou no muay thai e construiu a identidade esportiva a partir da contundência. Campeã baiana da modalidade e também do jiu-jítsu, ela se define como uma atleta forte, aguerrida e disposta a procurar a guerra.

O apelido "A Braba" nasceu justamente dessa característica. Única mulher em uma academia formada majoritariamente por homens, Jeisla acostumou-se a realizar treinos duros contra parceiros maiores. Até hoje, um dos seus principais companheiros de sparring pesa cerca de 100 quilos.
"Eu tinha que sair no soco, brigar e trocar porrada com os homens. Foi daí que surgiu o nome. O muay thai tem muita contundência, não é apenas volume de golpes. Acho que daí surgiu minha identidade no MMA", relembra.

Primeira luta do UFC diante do público
A estreia de Jeisla aconteceu no Meta Apex, em Las Vegas. Em Sacramento, a atmosfera será diferente. Pela primeira vez como atleta do UFC, ela encontrará uma arena cheia, e estará diante de uma adversária norte-americana que deverá receber a maior parte do apoio das arquibancadas.
A baiana, por sua vez, diz estar preparada tanto para ouvir seu nome quanto para ser vaiada: "Ter a arena lotada, gritando por mim ou contra mim, e saber que sou uma das personagens principais é algo surreal".
O momento tem um significado particular em razão de seu primeiro contato com os esportes de combate. Antes de lutar, Jeisla trabalhou como ring girl em eventos de Poções, assistindo às disputas de fora e caminhando ao redor do espaço durante os intervalos.

Foi justamente observando aqueles combates que se apaixonou pelo muay thai. Agora, quando a porta da jaula se fechar, ela estará no centro do espetáculo: "Quando trabalhava como ring girl, eu não era a atriz principal. Hoje faço parte do show".
Tranquilidade construída no Contender
O ringue, então, é território conhecido, e recebe uma lutadora quase sempre tranquila. Jeisla afirma não se sentir pressionada pelo card principal, pela invencibilidade ou pelo favoritismo da adversária.
Parte dessa segurança foi construída na experiência do Contender Series, em que os dois treinadores da atleta tiveram os vistos norte-americanos negados. A confirmação de que Alisandro "Churros", responsável por descobrir Jeisla e acompanhá-la desde a primeira aula, não poderia viajar, chegou 15 dias antes da luta.
"Falei ao meu professor que não fazia sentido chegar lá sem eles. Ele acreditou em mim desde o primeiro momento e me ensinou a dar os primeiros golpes. Não fazia sentido realizar aquele sonho sem quem havia sonhado comigo", lamentou.

O treinador, no entanto, respondeu que a lutadora deveria vencer por toda a equipe. Depois daquela conversa, Jeisla recorreu à fé e encontrou uma serenidade que ainda hoje considera difícil de explicar.
A baiana viajou com o empresário Léo Pateira e contou com o suporte de integrantes do Galpão da Luta. No vestiário, permaneceu tão calma que seu empresário disse ao treinador que havia apenas duas explicações: ou Jeisla era uma excelente atriz, ou estava realmente tranquila.
Ela venceu Sofia por decisão dividida e conquistou o contrato. Curiosamente, sentiu mais nervosismo na estreia oficial, quando finalmente pôde ter seus treinadores no córner.

"No Contender, estava extremamente tranquila. Na estreia, queria mostrar serviço e também demonstrar algo aos meus treinadores. Era a primeira vez deles no UFC. Eu estava realizando o sonho deles e queria mostrar gratidão por tudo que fizeram por mim", contou.
Em Sacramento, a atleta acredita ter reunido as duas experiências - a serenidade demonstrada no Contender e a confiança adquirida com a primeira vitória no UFC.
Próximo passo ficará nas mãos do UFC
Uma vitória sobre Carli Judice levará Jeisla ao nono triunfo profissional e ao segundo consecutivo no UFC. Ainda assim, a brasileira evita escolher antecipadamente a adversária seguinte.
Depois de pedir Kennedy Freeman e receber outro nome, ela demonstra disposição para seguir os planos da organização, e também não estabelece um intervalo ideal para voltar ao octógono.
"Quero lutar, mas não precisa ser tão rápido. Se aparecer um combate daqui a 15 dias, vou aceitar novamente. Se me derem um descanso, também vou gostar. Estou sempre pronta para o que o UFC mandar", garantiu.

A tranquilidade, no entanto, não diminui a expectativa por aquilo que encontrará na arena. Para Jeisla, lutar significa experimentar o instante em que a grade se fecha, o público reage e toda a atenção se concentra nas duas atletas.
"Gosto da adrenalina de estar ali dentro, fechar a jaula, olhar para a adversária e pensar: 'Agora é a hora. Eu mato ou morro'. É o meu show", disse.
Em Sacramento, então, ela terá o palco que procurou desde que trocou as placas de ring girl pelas luvas. Desta vez, com lugar reservado como protagonista e, claro, integrante do card principal.



