PAISAGENS DA BAHIA
Muito além das trilhas: o impacto do Enduro nas cidades baianas
Entenda como o esporte valoriza interiores e apaixona crianças Bahia adentro


Por um motivo que pode passar despercebido para alguns, em certo momento do ano, hotéis recebem hóspedes extras, restaurantes aumentam o movimento e moradores acompanham a movimentação dos pilotos visitando diversas cidades.
Para os que sabem do que se trata e acompanham o Enduro de Regularidade, no entanto, a passagem da modalidade pelas cidades baianas é motivo de grande espetáculo para todas as idades.

Ainda que ainda esteja distante da visibilidade de modalidades tradicionais como o futebol, o Enduro tem desempenhado um papel importante na movimentação econômica de municípios do interior, valorizando paisagens pouco conhecidas e inspirando novas gerações de atletas.
Para o piloto Ricardo Neto, um dos principais nomes do Enduro baiano na atualidade, essa é uma das facetas mais bonitas da modalidade. "O esporte nos traz alegria para todos. Não só para quem está correndo. A cidade inteira acaba vivendo aquele momento", comenta.
Caravana que movimenta o interior
Diferentemente de esportes realizados em arenas ou circuitos fechados, o Enduro de Regularidade acontece em movimento. As etapas costumam ligar cidades, distritos e povoados por meio de trilhas e estradas, levando os competidores a percorrer centenas de quilômetros em um único fim de semana.
O próprio calendário da modalidade faz com que pilotos, equipes, familiares, mecânicos, organizadores e apoiadores se desloquem constantemente por diversas regiões do estado.

Na prática, cada etapa funciona como uma espécie de caravana itinerante: "Quando todos os pilotos estão reunidos, sempre existe uma concentração de largada, uma concentração de premiação. Isso acaba movimentando a cidade".
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Bahia aparece pelas trilhas
Quando se pensa em Bahia pelo mundo, é comum que associem o estado ao litoral e às praias - mas os pilotos de Enduro costumam enxergar um estado completamente diferente.
As trilhas levam os competidores por serras, vales, áreas rurais, rios, povoados e paisagens que raramente aparecem nos roteiros convencionais. "Você acaba conhecendo muitos lugares através do esporte. Jacobina é linda. Santa Teresinha é muito bonita. A Bahia inteira tem lugares incríveis", conta Ricardo.

Segundo ele, uma das características mais interessantes da modalidade é justamente permitir o acesso a regiões que muitas vezes permanecem invisíveis para quem não vive o interior.
"Tem locais muito bonitos e, às vezes, de difícil acesso para quem não está de motocicleta. O esporte acaba mostrando esses lugares", diz.
Crianças motorizadas
A paixão por ver motos nas paisagens lindas onde moram, então, encanta diversos moradores. Mas, para as crianças, tudo parece ter uma mágica a mais.
Ao longo das provas, os pilotos atravessam inúmeros povoados e comunidades rurais. Em muitos desses locais, a passagem das motos se transforma em um acontecimento. "As crianças são o melhor momento da gente", conta Ricardo.

Segundo ele, é comum encontrar grupos inteiros aguardando a passagem dos competidores. "Quando você entra em um povoado, tenha certeza de que vai ter várias crianças na porta. Elas ficam querendo pegar na mão da gente, acenando, chamando", diz.
Muitas vezes, os pilotos diminuem o ritmo ou até param por alguns instantes para conversar. "Às vezes a gente para, deixa a criança acelerar a moto, conversar um pouco. É um momento único para elas. A alegria deles nos transborda demais", lembra.
O menino que sonhava com as motos
Talvez essa identificação aconteça justamente porque Ricardo enxerga parte da própria história em cada uma dessas crianças. Muito antes dos troféus, dos títulos estaduais ou das participações nacionais, ele também era apenas um garoto observando motocicletas passarem pelas trilhas de sua cidade.
"Quando tinha um evento de trilha e eu via aquelas motos, aquilo era um sonho para mim", lembra. Filho de caminhoneiro, apaixonado por motores desde a infância, ele cresceu fascinado pelo universo do motociclismo.

Anos depois, ao cruzar povoados durante as competições, percebe exatamente o mesmo brilho nos olhos que tinha quando era criança. "Eu vejo muita curiosidade nos jovens. Eles perguntam sobre o esporte, sobre a moto, querem entender como funciona", conta.
Para ele, essa curiosidade representa algo importante: a possibilidade de novos pilotos surgirem no futuro. "Foi assim comigo. Primeiro veio a curiosidade, depois veio o sonho", diz.


