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SUPERAÇÃO

"Não é modelo de gestão": os bastidores inéditos do bicampeonato do Atlético no Baianão

Diretor de futebol das duas taças do Baianão contou bastidores turbulentos das conquistas

Marina Branco
Por
Atlético-BA campeão baiano de 2021
Atlético-BA campeão baiano de 2021 - Foto: Divulgação I Atlético-BA

O bicampeonato baiano conquistado pelo Atlético de Alagoinhas em 2021 e 2022 ocupa um lugar especial na história do futebol do interior. Por trás das taças, da festa no Carneirão e da quebra de forças no cenário estadual, no entanto, existiu uma realidade bem distante da esperada para um clube profissional.

Entre pré-temporadas realizadas em escolas, dificuldades de hospedagem e alimentação, orçamento limitado e um cotidiano marcado pelo improviso, as duas taças do Atlético-BA no Campeonato Baiano foram conquistadas em uma constante superação de obstáculos que iam muito além do campo.

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Integrante do departamento de futebol nas duas conquistas, Armando Filho reconhece o comprometimento do grupo que enfrentou as adversidades e escreveu seu nome na história do Carcará.

Homenagem da Prefeitura de Alagoinhas ao Atlético-BA
Homenagem da Prefeitura de Alagoinhas ao Atlético-BA - Foto: Divulgação I Atlético-BA

Por outro lado, para ele, é importante retomar as condições que viveram na época, para que o projeto construído com tantas dificuldades não seja romantizado ou colocado como referência administrativa.

"Foram dois anos de dificuldade. Isso não deve ser usado como exemplo de futebol, não deve ser exemplo de gestão. Naquele momento, os jogadores compraram a ideia e, graças a Deus, correu tudo bem. Conseguimos ser campeões e bicampeões", opinou.

A força desse "exemplo" ganha ainda mais peso diante do contraste entre o passado recente e o momento atual do clube. Quatro anos depois do segundo título, o Atlético terminou o Campeonato Baiano de 2026 na lanterna e foi rebaixado à Segunda Divisão estadual.

Para Armando, a queda demonstra justamente que o modelo adotado pelo clube precisava ter sido revisto. "É um time da grandiosidade do Atlético, com uma história bonita, que chegou a três finais consecutivas, conquistou dois títulos e foi vice-campeão uma vez", relembrou.

"Hoje, está na Segunda Divisão. Isso mostra que realmente é preciso mudar o modelo de gestão. O clube hoje é uma empresa e as coisas precisam ser feitas profissionalmente", disse.

Elenco que abraçou o projeto

Armando chegou ao Atlético para exercer a função de gerente de futebol, em uma época em que Matos era diretor e Albino Leite ocupava a presidência. Quando foi convidado, parte do elenco de 2021 já estava montado, mas o dirigente também realizou indicações que, segundo ele, corresponderam dentro de campo.

Apesar das limitações financeiras, Armando encontrou um clube com tradição, estádio próprio e uma torcida apaixonada. A combinação desses elementos com o comprometimento dos atletas permitiu que o Carcará construísse uma equipe competitiva, capaz de superar os obstáculos rumo aos títulos.

"Foi um desafio muito grande. Tivemos uma equipe competitiva, que abraçou a causa, o projeto e a ideia. No primeiro ano, conseguimos a grande vitória de sermos campeões. Depois, mantivemos o elenco para 2022 e contratamos mais algumas peças. O time já estava entrosado e bem qualificado", contou.

A primeira conquista veio sobre o Bahia de Feira. Após dois empates na decisão, por 2 a 2 na Arena Cajueiro e 3 a 3 no Carneirão, o Atlético venceu nos pênaltis e levantou pela primeira vez a taça da elite estadual.

Atlético-BA campeão baiano
Atlético-BA campeão baiano - Foto: Divulgação I Atlético-BA

Antes da final, entretanto, o departamento de futebol precisou encontrar uma solução para uma diferença que poderia favorecer o adversário - enquanto o Atlético estava habituado à grama natural do Carneirão, o Bahia de Feira atuava no gramado sintético da Arena Cajueiro.

A resposta, então, foi transferir a preparação para Serrinha. O grupo permaneceu durante uma semana na cidade, treinando em campo sintético, e depois seguiu diretamente para Feira de Santana.

"Teríamos uma dificuldade imensa para disputar uma final nessas condições. Estudamos a situação, fizemos um contato em Serrinha, ficamos uma semana treinando lá e viajamos diretamente para Feira. Conseguimos o resultado e, consequentemente, o título da Primeira Divisão", lembrou.

Necessidade de isolamento

Agora campeão, o Atlético de Alagoinhas tinha um desafio ainda maior - lidar com a expectativa criada pela própria vitória em sua torcida, que foi do sonho com uma taça inédita à esperança de repetir o feito.

Nesse contexto, a manutenção da base campeã e a chegada de reforços aumentaram a confiança, mas também elevaram a cobrança sobre o elenco.

Na final contra a Jacuipense, o empate por 1 a 1 no Carneirão deixou a decisão aberta para o confronto de volta, em Riachão do Jacuípe e, como é de se esperar, o ambiente em Alagoinhas era de enorme mobilização em torno da possibilidade do bicampeonato.

Com uma cidade inteira vivendo em função da partida de volta, o clube quis proteger seus jogadores da ansiedade e frenesi gerais, levando à decisão de tirar a delegação da cidade.

Atlético-BA
Atlético-BA - Foto: Divulgação I Atlético-BA

Assim, quatro dias antes da partida decisiva, o elenco seguiu para Feira de Santana, onde permaneceu concentrado e realizou os últimos treinamentos. Somente no domingo, após o almoço, a equipe viajou para Riachão do Jacuípe.

"A cidade estava eufórica porque nós já havíamos sido campeões. Quando você conquista alguma coisa, passa a existir a pressão para ser campeão todos os anos. Precisávamos sair daquela euforia. Ficamos quatro dias concentrados em Feira, longe da movimentação da torcida e da cidade, e viajamos para Riachão no domingo", contou.

O duelo tinha também um componente pessoal para Armando, natural de Riachão do Jacuípe e revelado como jogador pela própria Jacuipense. Foi então que, mesmo diante de um estádio tomado pela torcida adversária, o Atlético venceu por 2 a 0 e confirmou o bicampeonato.

Atlético-BA no Baianão de 2022
Atlético-BA no Baianão de 2022 - Foto: Divulgação I Atlético-BA

As duas decisões, portanto, foram precedidas por deslocamentos estratégicos. Em 2021, o objetivo era adaptar o time ao gramado sintético. Em 2022, afastar o elenco da euforia que dominava Alagoinhas.

Cada uma à sua maneira, essas medidas tiveram papel fundamental nas conquistas e na manutenção de um time que foi campeão duas vezes, sem ter toda a estrutura para tal.

Trinta dias alojados em uma escola

A capacidade de planejamento do departamento convivia, assim, com condições estruturais precárias. Na preparação para 2021, o Atlético realizou sua pré-temporada em Caldas de Cipó e permaneceu aproximadamente 30 dias alojado em uma escola.

No ano seguinte, situação semelhante ocorreu em Serrinha. Novamente, os jogadores ficaram instalados em um colégio e enfrentaram dificuldades relacionadas à alimentação e à acomodação.

"Não estou dizendo que o colégio não era um espaço legal, mas estamos falando de uma equipe profissional, que já era vice-campeã. Em 2022, aconteceu a mesma coisa. Tivemos alimentação e acomodação precárias", lembrou Armando.

Atlético-BA
Atlético-BA - Foto: Divulgação I Atlético-BA

Para o dirigente, o mérito pertence especialmente aos jogadores que aceitaram as circunstâncias, confiaram no projeto e mantiveram o foco esportivo. O êxito em campo, entretanto, não elimina a necessidade de reconhecer os problemas existentes fora dele.

"Não é um modelo que cabe mais no futebol. Foi uma grande surpresa, uma grande alegria e um momento ímpar para mim e para a torcida de Alagoinhas, que vive essa história até hoje. Ela não se apaga. É um legado que fica para toda a vida", afirmou.

Retorno e ruptura

Depois do bicampeonato, a sequência de títulos se encerrou, e algumas peças deixaram o clube, incluindo Armando. Anos depois do bicampeonato, porém, ele retornou ao Atlético para participar do planejamento da temporada de 2025.

Na época, o dirigente aceitou o convite por causa da história construída no clube e da relação anterior com o presidente Albino Leite, encarando um trabalho que começou cerca de 90 dias antes da pré-temporada.

Foram feitas reuniões, viagens, uma visita à Confederação Brasileira de Futebol e contatos com empresas em busca de apoio. Entre dezembro e janeiro, no entanto, o planejamento não teria sido executado como ele esperava.

A ruptura aconteceu após o primeiro jogo do Campeonato Baiano. Em 11 de janeiro de 2025, o Atlético empatou por 2 a 2 com o Colo-Colo no Carneirão. Armando conta que, depois da partida, o presidente manifestou a intenção de trocar a comissão técnica, e o dirigente discordou da decisão por considerar que um único resultado não seria suficiente para avaliar o trabalho.

"Ele queria trocar a comissão técnica e eu achei que não deveria, porque entendi que o erro não era da comissão. Era um trabalho que nós havíamos planejado. Não se pode fazer um julgamento de uma comissão técnica por apenas um jogo", contestou.

Atlético-BA
Atlético-BA - Foto: Divulgação I Atlético-BA

Diante da insistência do mandatário, Armando pediu desligamento: "No meu modo de ver, seria uma atitude antiética e antiprofissional. Por isso, pedi meu desligamento".

A comissão técnica foi mantida, e o Atlético encerrou a primeira fase na quarta colocação, classificando-se para a semifinal. O Carcará foi eliminado pelo Bahia, que posteriormente conquistou o título.

Para Armando, mesmo eliminados, o desempenho do elenco formado durante o planejamento confirmou que havia qualidade no trabalho desenvolvido antes da competição. "Mesmo assim, a equipe que montamos chegou à semifinal. Temos convicção de que a nossa mentalidade de gestão estava correta", disse.

Quem é Armando Filho?

Antes de ocupar cargos de gestão, Armando Filho construiu uma trajetória como jogador. Natural de Riachão do Jacuípe, começou na Jacuipense e passou por Confiança, Comercial de Alagoas, categorias de base do Flamengo, Botafogo, Santo André, Ituano e Bangu.

A carreira dentro das quatro linhas foi interrompida após um acidente de motocicleta. Pouco depois, recebeu do então presidente do Bangu, Varella, o convite para trabalhar como supervisor das categorias sub-15, sub-17 e sub-20.

Armando passou a estudar e avançou gradualmente dentro da estrutura do clube carioca até chegar ao futebol profissional, exercendo funções de supervisor e diretor.

Em 2014, recebeu o convite para trabalhar no Flamengo de Guanambi. No ano seguinte, participou da campanha do título da Segunda Divisão do Campeonato Baiano, conquistado sobre o Fluminense de Feira no Joia da Princesa, que garantiu o acesso à elite estadual.

Depois, acumulou experiências em clubes como Jacobina, Jacuipense, Falcon e Barcelona de Ilhéus, onde já como executivo de futebol, participou da campanha de 2024 que colocou o time entre os quatro melhores do Campeonato Baiano e garantiu vaga na Série D.

Armando Filho
Armando Filho - Foto: Reprodução I Instagram

Novo clube

O trabalho mais recente de Armando foi no Barreiras Futebol Clube, projeto criado no final do ano passado para devolver o futebol profissional à região Oeste da Bahia após mais de duas décadas. Em sua primeira participação na Segunda Divisão estadual, o clube chegou à semifinal.

O Barreiras venceu oito dos 11 jogos disputados e chegou perto do acesso. Na ida da semifinal, derrotou o SSA por 2 a 1 no Estádio Geraldão, mas perdeu o confronto de volta por 3 a 1 e foi eliminado por 4 a 3 no placar agregado, levando o SSA a ficar com a vaga na elite de 2027.

Apesar da eliminação, Armando considera que o projeto conseguiu mobilizar novamente a cidade, a torcida e os empresários locais. "O Barreiras estava há 25 anos sem futebol profissional. Conseguimos reacender a torcida, a cidade e os empresários, mobilizando todos em favor do clube. Foi um grande feito", reconheceu.

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O dirigente admite que algumas contratações não apresentaram o rendimento esperado pela diretoria e pela comissão técnica, mas avalia que a campanha demonstrou a viabilidade do projeto.

A intenção é dar continuidade ao planejamento em 2027 e tentar novamente o acesso. O futuro de Armando, no entanto, ainda está aberto. O executivo afirma que passou a receber propostas de clubes da Primeira Divisão, tanto da Bahia quanto de estados vizinhos.

"Entendemos que estamos no caminho certo e queremos continuar o planejamento do Barreiras para 2027. Enquanto isso, também estamos ouvindo algumas propostas para a Série A, não apenas daqui do estado, mas de estados vizinhos, para que possamos fazer mais um bom trabalho", completou.

Momento atual

Hoje, o Atlético de Alagoinhas sofre ainda mais do que no passado. Em 2026, vive um rebaixamento no Campeonato Baiano e uma eliminação precoce na Série D do Campeonato Brasileiro.

Ao longo do ano, não venceu partidas na primeira fase do Baianão e, no Brasileirão, sequer teve o time à disposição do início ao fim, recorrendo ao elenco sub-20 por problemas de salários atrasados e protestos.

As mudanças mais recentes se deram a partir de 2025, quando o Atlético-BA criou sua SAF e vendeu 90% das ações do clube para o grupo TLS Sports, que chegou com aporte inicial previsto de R$ 20 milhões, podendo chegar a R$ 60 milhões, justamente para investir em infraestrutura, categorias de base e elenco.

Os salários, no entanto, não foram pagos em dia, conforme contou ao portal A TARDE um funcionário do clube, e o Atlético terminou a Série D com funcionários há três meses sem receber.

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