IMOBILIÁRIO
Apenas 45,5% dos brasileiros têm três ou mais árvores perto de casa
Arborização urbana desafia construtoras baianas a integrarem áreas verdes


Apenas 45,5% dos brasileiros vivem em áreas com três ou mais árvores no entorno de casa. O dado dimensiona o desafio de ampliar a arborização urbana e levanta uma questão para o mercado imobiliário: como conciliar a construção de novos empreendimentos com a preservação e a expansão da cobertura vegetal? Em Salvador, construtoras têm incorporado árvores, jardins e áreas de convivência aos projetos, além de adotar soluções para reduzir a incidência solar nos edifícios e favorecer a infiltração da água da chuva.
O tema integra o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), instituído em 2026 pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Com ciclo de implementação até 2045, o plano estabelece a meta de elevar para 65% a proporção de moradores que vivem em áreas com ao menos três árvores no entorno de casa e acrescentar 360 mil hectares de cobertura vegetal às áreas urbanas. Entre os objetivos estão reduzir as ilhas de calor, melhorar a gestão das águas pluviais e preparar as cidades para os efeitos das mudanças climáticas.
Para o setor da construção civil, a discussão envolve tanto o paisagismo dos empreendimentos quanto a relação dos imóveis com as ruas e os espaços públicos. Marcelo Castro Lima, sócio-diretor da QPC Incorporadora, afirma que a arborização deve ser considerada desde as primeiras etapas do projeto, em conjunto com a arquitetura e as condições climáticas locais.
A empresa escolheu o paisagista Benedito Abbud para assinar seus próximos projetos imobiliários na Bahia. Segundo Lima, a proposta inclui o conceito de paisagismo sensorial, que busca estimular os cinco sentidos, e considera a vegetação parte da experiência de quem utiliza os espaços. A atuação também pode ultrapassar os limites dos terrenos privados. No Vila Boulevard Itaparica, a QPC ofereceu o projeto de revitalização da Praça dos Veranistas, com o plantio de 50 árvores.
“A construção civil tem uma responsabilidade importante na configuração da paisagem urbana”, afirma Lima. Para ele, a contribuição do setor passa pela preservação e ampliação das áreas verdes, pela escolha de espécies adequadas e por projetos que considerem o entorno dos empreendimentos.
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Preservação e conforto
No Grupo Civil, a estratégia combina preservação da vegetação existente, implantação de jardins e escolha de materiais para melhorar o desempenho térmico das
edificações. Rafael Valente, CEO do grupo, cita o Cedro Horto, desenvolvido em parceria com a Gran, como exemplo. Uma paineira que já existia na entrada do terreno foi mantida e serviu de inspiração para o conceito arquitetônico do empreendimento.
A iniciativa faz parte de um conjunto de medidas que inclui a criação de áreas verdes nos espaços de convivência e a adoção de soluções construtivas adaptadas às condições de cada local. No Arbus Horto Florestal, por exemplo, o projeto prevê uma cobertura verde para favorecer o isolamento térmico. Já no NAU, brises na fachada poente ajudam a reduzir a incidência direta da radiação solar.
O grupo também busca ampliar a contribuição dos empreendimentos para o espaço público. No NAU Barra, incorporou vegetação a uma área que antes não tinha arborização. No Verger Barra, está prevista a instalação de pavimento intertravado permeável na requalificação da calçada, solução que permite a passagem da água da chuva e favorece sua infiltração no solo, conforme as condições do terreno.
A permeabilidade é um dos fatores considerados no planejamento urbano, pois interfere na absorção da água pluvial. Segundo Valente, o grupo prioriza, sempre que possível, áreas verdes em solo natural e a preservação das árvores existentes. Essas medidas contribuem para o sombreamento e para o microclima dos espaços externos, enquanto coberturas verdes, brises e vidros com controle solar atuam na redução do ganho de calor dentro das edificações.
Limites e manutenção
A ampliação das áreas verdes depende, porém, das características dos terrenos, das exigências urbanísticas e da manutenção da vegetação. Valente aponta que, em regiões consolidadas de Salvador, a disponibilidade de espaço pode limitar as possibilidades de implantação. O planejamento precisa considerar ainda o crescimento das raízes e a compatibilidade das espécies com as estruturas e instalações dos edifícios.
A escolha das plantas também deve levar em conta as condições ambientais. No NAU, empreendimento próximo ao mar, o Grupo Civil substituiu a espécie inicialmente prevista por uma palmeira-imperial, considerando a salinidade e a incidência dos ventos. Lima, da QPC, também destaca a disponibilidade de mudas adequadas e a seleção de espécies compatíveis com o clima local. Essa escolha pode reduzir a necessidade de irrigação, intervenções e substituições futuras.
Além das questões técnicas, as empresas identificam mudanças nas preferências dos compradores. Segundo os executivos, o contato com a natureza, o conforto térmico e os espaços de convivência têm ganhado relevância na avaliação dos imóveis. Valente afirma que essa percepção influencia desde a escolha dos terrenos até as decisões de paisagismo, com atenção à preservação de árvores existentes e ao uso de espécies nativas.


